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O caminho para a
Revolução de 30 (4)
A Revolução de
1930 inaugurou o primeiro período de independência plena do Brasil desde o
descobrimento. Foi, portanto, o mais importante, mais profundo e mais fecundo
acontecimento de nossa História até os dias de hoje. Promoveu um desenvolvimento
autônomo e autocentrado, com base nos recursos internos e sob controle nacional.
Iniciou, deste modo, o maior período de crescimento da história do país – e o
maior crescimento de um país capitalista no mundo durante os 50 anos seguintes
Às 17 horas do dia 3
de outubro a revolução estava nas ruas. No dia seguinte os jornais divulgavam o
manifesto de Getúlio:
“... qual a perspectiva que se nos desenha
e que porvir nos espera, com o prosseguimento do atual estado de coisas? Um
infinito Saara moral, privado de sensibilidade e sem acústica. O povo oprimido e
faminto. O regime representativo golpeado de morte pela subversão do sufrágio
popular. O predomínio das oligarquias e do profissionalismo político. As Forças
Armadas, guardas incorruptíveis da dignidade nacional, constrangidas ao serviço
de guarda-costas do caciquismo político. A brutalidade, a violência, o suborno,
o malbarato dos dinheiros públicos, o relaxamento dos costumes, e coroando este
cenário desolador, a advocacia administrativa a campear em todos os ramos da
governação pública.
“Daí, como
conseqüência lógica, a desordem moral, a desorganização econômica, a anarquia
financeira, o marasmo, a estagnação, o favoritismo, a falência da justiça.
“Entreguei ao povo a
decisão da contenda, e este, cansado de sofrer, rebela-se contra os seus
opressores.
“Não poderei deixar de acompanhá-lo, correndo
todos os riscos em que a vida será o menor dos bens que lhe posso oferecer.
“Estamos ante uma revolução para readquirir a
liberdade, para restaurar a pureza do regime republicano, para a reconstrução
nacional.
“Trata-se de um movimento generalizado, do
povo fraternizando com a tropa, desde o Norte valoroso e esquecido dos governos,
até o extremo Sul.
“Amparados no apoio da opinião pública,
prestigiados pela adesão dos brasileiros que maior confiança inspiram dentro e
fora do país, contando com a simpatia das Forças Armadas e a cooperação de sua
melhor parte, fortes pela justiça e pelas armas, esperamos que a Nação reentre
na posse de sua soberania, sem maior oposição dos reacionários, para evitar a
perda inútil de vidas e bens, abreviar a volta do país à normalidade e a
instauração de um regime de paz, harmonia e tranqüilidade, sob a égide da lei”.
O regime da oligarquia ruiu como um edifício
podre – e não passava disso.
Washington Luiz manteve-se durante quase um
mês no território da fantasia, repetindo que não havia nada realmente sério
acontecendo no país, enquanto a revolução, numa explosão popular, ia do Sul, de
Minas e do Nordeste em direção ao Rio. A concentração das forças governistas em
Itararé rendeu-se depois de dois ataques das tropas do general Miguel Costa, o
antigo comandante da Coluna, e Getúlio entrou em São Paulo - abrindo ao povo as
portas do Palácio dos Campos Elísios, sede do poder oligárquico.
No dia 20 de novembro, alguns dias depois de
empossado no Palácio do Catete, comentando o embarque de Washington Luiz para o
exílio, Getúlio escreveu em seu Diário:
“Bem amargas deveriam ser as reflexões do
dr. Washington Luiz. Recordei-me que muito mais havia eu sofrido em torturas
morais, pela quebra de amizades e compromissos resultantes da campanha da
Aliança, e pelas perspectivas e ameaças que de futuro poderiam advir e tudo ser
atribuído a mim, como responsável. E, afinal, depois de humilhar-me e quase
suplicar para que os outros nada sofressem, sentindo que tudo era inútil,
decidi-me pela revolução, eu, o mais pacífico dos homens, decidido a morrer. E
venci, vencemos todos, triunfou a Revolução! Não permitiram que o povo se
manifestasse para votar, e inverteram-se as cenas. Em vez de o sr. Júlio Prestes
sair dos Campos Elísios para ocupar o Catete, entre as cerimônias oficiais e o
cortejo dos bajuladores, eu entrei de botas e esporas nos Campos Elísios, onde
acampei como soldado, para vir no outro dia tomar posse do governo no Catete,
com poderes ditatoriais. O sr. Washington Luiz provocou a tormenta, e esta o
abateu. Dizem que o destino é cego. Deve haver alguém que o guie pela mão”.
A Revolução de 1930 inaugurou o primeiro
período de independência plena do Brasil desde o descobrimento. Foi, portanto, o
mais importante, mais profundo e mais fecundo acontecimento de nossa História
até os dias de hoje. Promoveu um desenvolvimento autônomo e autocentrado, com
base nos recursos internos e sob controle nacional. Iniciou, deste modo, o maior
período de crescimento da história do país – e o maior crescimento de um país
capitalista no mundo durante os 50 anos seguintes.
Até então éramos, como disse Getúlio, um país
produtor de sobremesas - café e açúcar, principalmente. A Revolução de 30 nos
tornou um país moderno, industrializado e poderoso.
O seu líder, ao entrar no Palácio do Catete
para tomar posse, no dia 10 de novembro de 1930, expressou, em seu discurso, a
consciência desse papel da revolução:
“O movimento revolucionário, iniciado,
vitoriosamente, a 3 de outubro, no Sul, Centro e Norte do país, e triunfante a
24, nesta capital, foi a afirmação mais positiva que, até hoje, tivemos da nossa
existência como nacionalidade. Em toda a nossa história política, não há, sob
esse aspecto, acontecimento semelhante. Ele é, efetivamente, a expressão viva e
palpitante da vontade do povo brasileiro, afinal senhor de seus destinos e
supremo árbitro de suas finalidades coletivas”.
E, mais adiante:
“Realizamos, pois, um movimento
eminentemente nacional. Essa a nossa maior satisfação, a nossa maior glória e a
base invulnerável sobre que assenta a confiança de que estamos possuídos para a
efetivação dos superiores objetivos da Revolução Brasileira”.
Depois de expor os motivos pelos quais
tornou-se inevitável que “só pelas armas seria possível restituir a liberdade
ao povo brasileiro, sanear o ambiente moral da Pátria, livrando-a da camarilha
que a explorava, arrancar a máscara de legalidade com que se rotulavam os
maiores atentados à lei e à justiça - abater a hipocrisia, a farsa e o embuste”,
Getúlio sintetiza o programa da revolução em 17 pontos:
“1. Concessão de anistia aos
revolucionários de 1922, 1924 e da Coluna;
“2. Saneamento moral e físico da
Nação, extirpando ou inutilizando os agentes da corrupção, por todos os meios
adequados a uma campanha sistemática de defesa social e educação sanitária;
“3. Difusão intensiva do ensino
público, principalmente técnico-profissional, estabelecendo, para isso, um
sistema de estímulo e colaboração direta com os Estados, com a criação de um
Ministério de Instrução e Saúde Pública;
“4. Instituição de um Conselho
Consultivo, composto de personalidades eminentes e sinceramente integradas na
corrente de ideias novas;
“5. Nomeação de comissões de
sindicância para apurarem a responsabilidade dos governos depostos e de seus
agentes, relativamente ao emprego do dinheiro público;
“6. Remodelação do Exército e da
Armada, de acordo com as necessidades da defesa nacional;
“7. Reforma do sistema eleitoral,
tendo em vista principalmente a garantia do voto;
“8. Reorganização do aparelho
judiciário no sentido de tornar uma realidade a independência moral e material
da magistratura, que terá competência para conhecer o processo eleitoral em
todas as suas fases;
“9. Feita a reforma eleitoral,
consultar a Nação sobre a escolha dos seus representantes, com poderes amplos de
constituintes;
“10. Consolidação das normas
administrativas, com o intuito de simplificar a confusa e complicada legislação
em vigor;
“11. Manter uma administração de
rigorosa economia, cortando todas as despesas improdutivas e suntuárias;
“12. Reorganização do Ministério da
Agricultura, aparelho atualmente rígido e inoperante, para adaptá-lo às
necessidades do problema agrícola nacional;
“13. Intensificar a produção pela
policultura e adotar uma política internacional de aproximação econômica,
facilitando o escoamento das nossas sobras exportáveis;
“14. Rever o sistema tributário, de
modo a amparar a produção nacional, abandonando o protecionismo dispensado às
indústrias artificiais, que não utilizam matéria-prima do País, e mais
contribuem para encarecer a vida e fomentar o contrabando;
“15. Instituir o Ministério do
Trabalho, destinado a superintender a questão social, o amparo e a defesa do
operariado urbano e rural;
“16. Promover, sem violência, a
extinção progressiva do latifúndio, protegendo a organização da pequena
propriedade, mediante a transferência direta de lotes de terra de cultura ao
trabalhador agrícola, preferentemente ao nacional, estimulando-o a construir com
as próprias mãos, em terra própria, o edifício de sua prosperidade;
“17. Organizar um plano geral
ferroviário e rodoviário, para todo o País, a fim de ser executado gradualmente,
segundo as necessidades públicas e não ao sabor dos interesses de ocasião”.
É todo um plano de reconstrução do país.
Logo em novembro de 1930 foi criado o
“ministério da revolução” - o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, com
a função de coordenar todos os “fatores da produção” para o crescimento
econômico.
Toda a política da República Velha, a partir
da crise de 29, estava baseada na servil premissa de que para que o Brasil
saísse da crise era necessário, antes, que os países centrais saíssem - assim, o
café e outros produtos agrícolas, nossa “vocação natural”, aumentariam de preço,
os lucros dos exportadores de café estariam garantidos e sobrariam mais recursos
para o Estado. Quanto ao país, continuaria a vegetar, exatamente como antes.
Certamente, mesmo sem a crise externa, a
situação econômica tinha se tornado insustentável com a chamada “política de
valorização do café” e a monopolização de nosso mercado por produtos industriais
ingleses, o que, de resto, era evidente pelas sucessivas convulsões políticas
desde a primeira metade da década de 20. A crise do capitalismo mundial somente
agudizou, de forma extraordinária, o que antes era uma doença crônica – mas
fatal.
A Revolução de 30 quebrou essa ilusão
subserviente, que a crise mundial transformara em alucinação: a política dos
países centrais para superar a depressão, especialmente a da Inglaterra,
consistia em aumentar a espoliação sobre os povos, economias e países
dependentes. A política de submissão significava, portanto - e tão somente - o
estrangulamento do país.
A atitude de Getúlio diante desse problema
fundamental, foi bem retratada por ele mesmo, em outro trecho de seu Diário,
correspondente ao dia 31 de julho de 1933:
“Recebi, à tarde, o sr. John Simon,
Ministro do Exterior da Inglaterra. Falou-me na questão do sr. Lazard, Brothers
[um dos principais bancos ingleses que especulavam com papéis da dívida
externa brasileira]. Como estes homens defendem os interesses materiais dos
seus nacionais, mesmo quando pretendem nos explorar”.
A Inglaterra era, então, a maior potência
bélica do mundo, em especial a maior potência marítima, numa época em que a
aviação não tinha ainda a importância de hoje - e em que os EUA, desde o final
do governo Wilson (1921), tinham se dedicado a consolidar sua expansão
imperialista anterior, política inexatamente apelidada de “isolacionismo”. Do
ponto de vista colonial, o Império Britânico ainda era aquele no qual, segundo
dizia um de seus fundadores, “o sol nunca se põe”.
Logo no início de 1931, rompido pelo governo
revolucionário o engessamento cambial imposto no governo anterior, que
beneficiava as importações de mercadorias, a Inglaterra enviou ao país uma
missão de banqueiros. A 1º de março desse ano, Getúlio chegou à conclusão de que
era necessário suspender as transferências, a título de pagamento da dívida
externa, aos bancos ingleses. Era preciso estancar aquela hemorragia.
Alguns dias depois, chegou ao país o príncipe
de Gales, o herdeiro do trono britânico, que se dedicou a tentar inflar o ego do
novo presidente, tal como ainda é o procedimento dos colonialistas para com os
sátrapas e governantes dos países aos quais exploram. Getúlio anota em seus
cadernos: “recebo, constrangido, a Grã-cruz do Império [britânico],
que, por cortesia, sou obrigado a usar”.
No dia 21 de setembro, o Brasil suspende
oficialmente a drenagem de recursos a título de dívida externa. No mesmo dia, as
já combalidas finanças inglesas entraram, na expressão de Getúlio, em “colapso”.
No dia 10 de outubro, durante reunião do Ministério, é decidida “que parte
das quantias cujo pagamento é suspenso seja empregada no desenvolvimento
econômico do país, e que não seja toda ela reservada para o oportuno
restabelecimento do serviço da dívida”.
O estancamento da hemorragia externa e o
direcionamento dos nossos recursos para o desenvolvimento foi o primeiro pilar
da política econômica da revolução.
Uma outra anotação de Getúlio em seu Diário,
de janeiro de 1936, é ilustrativa da dificuldade dos colonialistas em aceitar a
realidade:
“O embaixador inglês apresentou-se no
Catete pretendendo ser recebido imediatamente para reclamar contra uma lei
votada pela Câmara e ainda não sancionada que, segundo sua opinião, prejudicava
os interesses ingleses. Respondi que, naquele momento, não poderia recebê-lo, e
que procurasse o ministro do Exterior. Zangou-se, protestou e foi embora”.
Anteriormente, os banqueiros e o governo
francês tentaram retaliar o Brasil, com a recusa de entregar material, já pago,
para reaparelhamento das Forças Armadas. A resposta do governo revolucionário,
em outubro de 1932, foi decretar a elevação ao dobro dos impostos sobre produtos
franceses. Rapidamente os problemas foram solucionados.
O segundo pilar da política revolucionária
para o desenvolvimento foi colocar a produção e exportação de café a serviço do
país, direcionando os recursos de nosso principal produto - e, portanto,
principal fonte de recursos - para a industrialização.
Até então, a política em relação ao café
havia sido traçada pelo Conselho Nacional do Café (CNC), um órgão escolhido
pelos “Estados produtores”, ou seja, diretamente pela oligarquia cafeeira, e não
pelo governo, a quem cabia garantir a “independência” do CNC em relação à
sociedade.
O resultado era a atrofia econômica, pari
passu com uma inundação de café impossível de ser absorvida por qualquer
mercado, externo ou interno - em 1929, a produção brasileira de café atingiu 28
milhões e 941 mil sacas, enquanto a exportação foi de 14 milhões e 281 mil
sacas. Devido aos anos que decorrem entre o plantio e a colheita, a produção
continuou crescendo até 1933.
Em setembro de 1931, o Conselho Nacional do
Café é subordinado ao Ministério da Fazenda - seria depois extinto, com a
fundação do Departamento Nacional do Café. Em dezembro, é instituída uma nova
política para o produto, com o aumento do imposto de exportação e a destruição
de 12 milhões de sacas/ano. Por um lado, aumentava-se a receita do Estado,
colocando os recursos do café à disposição do desenvolvimento. Por outro,
defendia-se o seu preço, ainda fundamental para o país, sem recorrer ao Tesouro.
Com a suspensão das transferências aos bancos
externos e a passagem das decisões sobre o café para o Estado, a política
econômica do governo passava ao controle da Nação. Até então, ela estivera sob o
controle externo. Realizava-se, assim, a afirmação de Oswaldo Aranha, então
ministro da Justiça, logo após a revolução: “Até aqui o povo obedecia ao
governo; agora, é o governo que obedece ao povo”. |