Roldós e Torrijos no relato de um assassino econômico (2)

Continuação da edição anterior

Tivesse Torrijos sobrevivido e ele sem nenhuma dúvida teria buscado aplacar a crescente violência que se espalhou por tantos países das Américas Central e do Sul. Com base no histórico dele, podemos supor que ele teria tentado costurar um acordo para mitigar a destruição pelas companhias petrolíferas internacionais de regiões amazônicas no Equador, na Colômbia e no Peru. Um resultado dessa ação seria o alívio dos terríveis conflitos que Washington chama de terroristas e guerra do tráfico, mas que Torrijos teria considerado como ações desencadeadas por pessoas desesperadas para proteger as suas famílias e os seus lares

JOHN PERKINS *

Fiquei assombrado com a morte de Roldós, mas talvez devesse não ter ficado. Eu era tudo menos ingênuo. Sabia sobre Arbenz , Mossadegh, Allende – e sobre muitas outras pessoas cujos nomes nunca chegaram aos jornais ou livros de história mas cujas vidas foram aniquiladas e às vezes eliminadas porque se interpuseram no caminho da corporatocracia. De qualquer maneira, eu fiquei chocado. Aquilo era simplesmente muito espalhafatoso.

Eu havia concluído, depois do nosso sucesso fenomenal na Arábia Saudita, que ações tão brutalmente não dissimuladas fossem coisa do passado. Pensei que os chacais tivessem sido relegados aos zoológicos. Agora via que estava errado. Não tinha dúvida de que a morte de Roldós não fora um acidente. Ela apresentava todas as marcas de um assassínio orquestrado pela CIA. Entendi que fora executada assim com tanto estardalhaço com a finalidade de dar um recado. A nova administração Reagan, completada com a imagem acessível de caubói hollywoodiano do presidente, era o meio ideal para transmitir essa mensagem. Os chacais estavam de volta e queriam que Omar Torrijos e quem quer que pudesse considerar uma aproximação com a corporatocracia soubessem disso.

Mas Torrijos não se curvou. Assim como Roldós, ele se recusava a ser intimidado. Ele também expulsou o Summer Institute of Linguistics e teimosamente se recusava a aceitar as exigências da administração Reagan para renegociar o Tratado do Canal.
Dois meses depois da morte de Roldós, o pesadelo de Omar Torrijos se concretizou; ele morreu num desastre de avião. Foi em 31 de julho de 1981.

A América Latina e o mundo sentiram uma vertigem. Torrijos era conhecido em todo o mundo; ele era respeitado como o homem que forçara os Estados Unidos a abandonar o Canal do Panamá aos seus donos de direito e que continuara a fazer frente a Ronald Reagan. Ele era um defensor dos direitos humanos, o chefe de Estado que abrira os braços para refugiados de ambos os lados do espectro político, incluindo a xá do Irã, uma voz carismática pela justiça social que, muito se acreditava, seria indicado para o Prêmio Nobel da Paz. Agora ele estava morto. “Assassínio da CIA!”, uma vez mais clamavam os títulos de artigos e editoriais.

Graham Greene começou o seu livro Getting to Know the General, aquele que resultaria da viagem em que o conheci no Hotel Panamá, com o seguinte parágrafo:

Em agosto de 1981, minha mala estava pronta para minha quinta visita ao Panamá quando recebi um telegrama com a notícia da morte do general Omar Torrijos Herrera, meu amigo e anfitrião. O pequeno avião em que ele voava para uma casa que comprara em Coclesito, nas montanhas do Panamá, espatifou-se no solo e não houve sobreviventes. Alguns dias depois, o chefe da sua guarda de segurança, o sargento Chuchu, aliás José de Jesus Martinez, ex-professor de filosofia marxista na Universidade do Panamá, professor de matemática e poeta, contou-me: “Havia uma bomba no avião. Eu sabia que havia uma bomba no avião, mas não podia contar-lhe pelo telefone”. (1)

Por toda parte as pessoas lamentavam a morte desse homem que ganhara a reputação de defensor dos pobres e desamparados, e o clamor produzido pressionou Washington para iniciar investigações sobre as atividades da CIA. No entanto, isso não deveria acontecer.  Havia homens que odiavam Torrijos e a lista incluía pessoas com imenso poder. Antes da sua morte, declararam publicamente a sua repugnância por ele o presidente Reagan, o vice-presidente Bush, o secretário de Defesa Weinberger, e os chefes do Estado Maior Conjunto, assim como os CEOs de muitas corporações influentes.

Os chefes militares estavam especialmente irados com as cláusulas do Tratado Torrijos-Carter que os forçara a fechar a Escola das Américas e o centro bélico tropical do Comando Sul americano.  Os chefes tinham assim um problema sério. Enquanto tinham de descobrir uma maneira de contornar o novo tratado, ao mesmo tempo precisavam encontrar outro país que quisesse abrigar aquelas instalações – uma sondagem provavelmente infrutífera nas décadas finais do século XX. É claro que havia também uma outra opção: desfazer-se de Torrijos e renegociar o tratado com o seu sucessor.

Entre os inimigos corporativos de Torrijos incluíam-se as gigantescas multinacionais. A maioria tinha laços estreitos com políticos americanos e estavam envolvidas na exploração de mão-de-obra e recursos naturais latino-americanos – petróleo, companhias madeireiras, estanho, cobre, bauxita e lavouras. Eles incluíam indústrias manufatureiras, empresas de comunicação, conglomerados de transporte e despachos navais e construtoras e outras corporações de orientação tecnológica.

O Bechtel Group, Inc. era um exemplo típico do relacionamento ideal entre empresas privadas e o governo americano. Eu conhecia bem a Bechtel; na MAIN muitas vezes trabalhamos em conjunto com a empresa e o seu arquiteto-chefe tornou-se um amigo íntimo meu. A Bechtel era a empresa de engenharia e construção mais influente dos Estados Unidos. Entre o seu presidente e funcionários mais graduados incluíam-se George Shultz e Caspar Weinberger, que detestavam Torrijos porque ele tivera o atrevimento de cortejar um plano japonês para substituir o atual Canal do Panamá por outro novo e mais eficiente. (2) Essa providência não só transferiria a propriedade dos Estados Unidos para o Panamá como também excluiria a Bechtel da participação no mais excitante e potencialmente lucrativo projeto de engenharia do século.

Torrijos enfrentou aqueles homens e o fez com elegância, charme e um maravilhoso senso de humor. Agora que ele estava morto, e fora substituído por um protegido, Manuel Noriega, um homem que não tinha a mesma perspicácia, carisma e inteligência de Torrijos e um homem que muitos suspeitavam não ter a menor possibilidade contra os Reagans, Bushes e Bechtels do mundo.

Eu fiquei pessoalmente arrasado com a tragédia. Passei muitas horas refletindo sobre as minhas conversas com Torrijos. No meio de uma noite, fiquei um longo tempo sentado olhando para a fotografia dele numa revista e me recordando da minha primeira noite no Panamá, dentro de um táxi no meio da chuva, parado diante de um gigantesco cartaz dele numa parede. “O ideal de Omar é a liberdade; ainda não se inventou um míssil que possa matar esse ideal!” A lembrança dessa inscrição me fez sentir um arrepio, o mesmo que sentira naquela noite tempestuosa.

Eu podia não ter sabido na época que Torrijos colaboraria com Carter para devolver o Canal do Panamá para o povo que merecia por direito ser o seu proprietário, ou que essa vitória, juntamente com as tentativas de reconciliar as diferenças entre os socialistas latino-americanos e os ditadores, deixariam tão enfurecida a administração Reagan-Bush a ponto de querer assassina-lo. (3) Eu não poderia ter sabido que em outra noite escura ele seria morto durante um vôo de rotina no seu Twin Otter, ou que a maior parte do mundo fora dos Estados Unidos não teria dúvida de que a morte de Torrijos aos 52 anos de idade era simplesmente mais um de uma série de assassínios cometidos pela CIA.

Tivesse Torrijos sobrevivido e ele sem nenhuma dúvida teria buscado aplacar a crescente violência que se espalhou por tantos países das Américas Central e do Sul. Com base no histórico dele, podemos supor que ele teria tentado costurar um acordo para mitigar a destruição pelas companhias petrolíferas internacionais de regiões amazônicas no Equador, na Colômbia e no Peru. Um resultado dessa ação seria o alívio dos terríveis conflitos que Washington chama de terroristas e guerra do tráfico, mas que Torrijos teria considerado como ações desencadeadas por pessoas desesperadas para proteger as suas famílias e lares. Mais importante ainda, acho certo que ele teria servido como um modelo exemplar para uma nova geração de líderes das Américas, da África e da Ásia – algo que a CIA, a ASN e os AEs não poderiam permitir.
 

Notas:

1 – Graham Greene, Getting to Know the General (Nova York: Pocket Books, 1984), p. 11.

2 – George Shultz foi secretário do Tesouro e chairman do Conselho de Política Econômica sob Nixon-Ford, 1972-1974, presidente do Bechtel Group, 1974-1982, secretário de Estado sob Reagan-Bush, 1982-1989, Caspar Weinberger foi diretor do Departamento de Administração e Orçamento e secretário da Saúde, Educação e Bem-estar sob Nixon-Ford, 1973-75, vice-presidente e conselheiro-geral do Bechtel Group, 1975-80, secretário de Defesa sob Reagan-Bush, 1980-87.

3 – Durante o caso Watergate em 1973, no testemunho que prestou perante o Senado americano, John Dean foi o primeiro a revelar as intrigas americanas para assassinar Torrijos; em 1975, nas investigações do Senado sobre a CIA, comandadas pelo senador Frank Church, foram prestados mais testemunhos sobre planos para matar tanto Torrijos quanto Noriega. Veja, por exemplo, Manuel Noriega com Peter Eisner, The Memoirs of Manuel Noriega, America´s Prisoner (Nova York: Random House, 1997), p. 107.
* Do livro “Confissões de um Assassino Econômico”, de John Perkins (Ed. Cultrix)


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