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A redução nos rendimentos da poupança e o ganho dos bancos
Em
relação às várias propostas de corte no rendimento da poupança que andaram
circulando pela mídia, a presidente Dilma escolheu, provavelmente, uma que
era menos pior - se os leitores nos permitem um pequeno atentado à gramática
para definir precisamente o que aconteceu.
É
possível que a ideia tenha sido a de forçar o Banco Central (BC) a reduzir
mais a taxa básica de juros, pelo menos para 8,5% - caso contrário, as
regras antigas das cadernetas de poupança continuarão inalteradas. Embora,
com uma taxa nominal de 8,5% e a inflação projetada pelo BC para o ano
(5,12%), isto significaria uma taxa real de juros de 3,2%, ainda muito alta.
Logo, seria necessário baixar mais essa taxa ou teríamos os ricos auferindo
uma alta taxa de juros e os mais pobres – 100 milhões de correntistas -
recebendo menos por suas cadernetas de poupança. Do ponto de vista relativo,
em vez de cortar os juros que os ricos auferem, ter-se-ia cortado os parcos
juros que os pobres recebem. Mas, é verdade, se a inflação for igual à de
2011 (6,5%), a taxa real cairia para 1,9%, sem redução nominal abaixo de
8,5%.
Esses cálculos, meras simulações, são apenas para que não subestimemos nem
superestimemos as boas intenções. Infelizmente, elas não são tudo na vida.
Em geral, são apenas um ponto de partida – quando o que mais interessa,
realmente, é o ponto de chegada.
Permanece, portanto, o problema – o corte na poupança é um aumento no ganho
dos bancos. Uma espécie de compensação pelo que eles “perderiam” com a queda
na taxa que remunera os títulos públicos. Na verdade, mesmo com uma taxa
real de 1,9% ou 2%, os bancos continuariam a enfiar quantidades quiméricas
de dinheiro em seus cofres, às custas dos títulos públicos, isto é, do
Tesouro, do Estado e da população. Como a ganância dessa súcia é insaciável,
não será aumentando seu lucro – ou dando ali o que cá eles deixam de ganhar
– que esse entrave ao crescimento do Brasil será resolvido.
No
dia 10 de abril, os bancos privados, após a Caixa Econômica Federal e o
Banco do Brasil reduzirem seus juros, reuniram-se com o secretário-executivo
do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Apresentaram uma lista de 20
“reivindicações”, todas perfeitamente absurdas, para reduzir seus juros.
No
mesmo dia, o cartel dos bancos, a Febraban, lançou um boletim pregando o
corte nos rendimentos da poupança. Dizia a Febraban que a queda na taxa
básica de juros levaria a um “desequilíbrio potencial (...), que poderia
levar a um fluxo significativo de recursos para as cadernetas e ao mesmo
tempo escassez de funding em outros segmentos do mercado. Teríamos excesso
de exigibilidade, e com base em recursos de curto prazo, de um lado e
escassez em outro. Certamente um desequilíbrio que precisa ser corrigido
para viabilizar a continuidade da queda dos juros. E quanto antes, melhor”
(grifo nosso).
Era
uma ameaça, não uma análise econômica, pois os títulos públicos estão, na
maior parte, na mão dos próprios bancos ou de fundos que eles controlam. A
rigor, era um blefe, que em seguida a mídia se encarregou de propalar. O
problema é que foi bem sucedido, na medida em que o governo aceitou o
“quanto antes, melhor” dos bancos - embora eles não tenham conseguido tudo o
que queriam.
Portanto, desde o início, a história de que os especuladores com títulos
públicos migrariam, ou estariam migrando, da “renda fixa” para a poupança -
o que, segundo os exegetas da tese, tornaria impossível ao governo
refinanciar sua dívida (isto é, os novos títulos públicos emitidos para esse
refinanciamento não encontrariam compradores) - foi fabricada pelos bancos.
Não
vamos nos deter outra vez no absurdo da ideia – própria para pessoas
ingênuas ou para trouxas juramentados. Ao invés disso, vejamos alguns dados.
Na
segunda-feira, o BC publicou o seu relatório de poupança, referente a abril.
A captação líquida (diferença entre depósitos e retiradas) foi R$ 1,98
bilhões – um valor inferior a março (R$ 2,54 bilhões), inferior
a dezembro (R$ 3,59 bilhões), inferior a setembro (R$ 4,18 bilhões),
inferior a julho (R$ 6,09 bilhões) ou inferior a agosto do ano
passado (R$ 2,22 bilhões), quando não havia, segundo esses mesmos filósofos
das finanças, ameaça alguma de migração da renda fixa para a poupança.
Em
suma, em abril não houve sinal, nem mesmo discreto, dessa “migração”, apesar
do BC ter reduzido a taxa básica de juros (Selic) na noite de 18 de abril.
Pelo contrário, houve dias em abril em que a captação líquida da poupança
foi negativa (as retiradas foram maiores que os depósitos), tanto
antes da queda da Selic (dias 2, 9, 10, 12, 16, 17 e 18 de abril), quanto
logo depois (dias 19 e 23 de abril – quando, num único dia, as retiradas
superaram os depósitos em R$ 637,12 milhões, ou seja, mais de meio bilhão).
Certamente, é fácil prever qual a defesa dos corifeus da “migração”: não
houve migração da renda fixa para a poupança, mas haveria, se a taxa básica
caísse mais e a poupança não fosse cortada.
Passando por cima de que não era exatamente isso o que eles diziam antes do
corte da poupança, que diabo de fenômeno econômico é esse que não tem nenhum
sinal antecedente (ou, como diriam os médicos, nenhum sinal “prodrômico”,
nenhum sinal precursor ou prenunciador)? Sobretudo em se tratando de
especulação, é algo realmente extraordinário, para não dizer fantástico e
incrível – ou inédito. Pelo visto, nem um especulador se antecipou aos
colegas, apesar desta ser uma categoria composta por elementos que adoram
passar a perna, quer dizer, se precipitarem na frente dos seus asseclas ao
primeiro boato que ouvem. No entanto, nesse caso, estavam todos quietos,
mais disciplinados que freiras carmelitas, esperando que o governo cortasse
a poupança dos mais pobres.
CARLOS LOPES
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Capa
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