Eleições na Grécia: 68% dos votos vão para os que rejeitam arrocho

Partidos que implementaram a destruição do FMI e BCE perdem maioria parlamentar e não conseguem formar governo. O grande avanço coube à Coalizão da Esquerda Radical cuja votação cresceu 233%

"A Grécia mandou uma mensagem de revolução que de monstra que o povo da Europa não pode continuar sobrevivendo com pacotes de resgate e planos de ajuste monstruosos", afirmou Aléxis Tsipras, líder da Coalizão da Esquerda Radical (Syriza), que, quadruplicando seus resultados nas urnas, se transformou na principal força vitoriosa das eleições na Grécia, ocupando o segundo lugar, com 16,76% dos votos.

Já os partidos que aplicaram a receita de desemprego, de cortes salariais, de destruição da economia e fim dos direitos sociais imposta pela Troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Européia), foram derrotados de forma acachapante na votação do último domingo.

O partido conservador, Nova Democracia (ND), obteve uma vitória de Pirro tirando 18,88 % dos votos, sendo que na eleição anterior, em 2009, tinha conseguido 33,4 %. Votos suficientes para contar com 58 deputados.

Ocorre que a ND foi agraciada com mais 50 deputados (a ‘democracia’ grega tem essa excrescência: o partido mais bem votado recebe de presente um direito a mais 5 dezenas de parlamentares e, portanto, fica com uma representação que em nada corresponde ao que recebeu nas urnas), assim ficou com uma bancada de 108.

PASOK AFUNDA

O Movimento Socialista Pan-helênico (Pasok), o executor das medidas de garroteamento, hoje no governo, afundou dos 43,9% de votos que obteve em 2009 para o terceiro lugar com 13,2 %, conseguindo só 41 deputados. A soma dessas duas forças, as principais que defendem os planos da especulação, não chega aos 151 deputados exigidos para constituir o novo governo com base em maioria parlamentar.

A participação do eleitorado foi de 63%, o índice mais baixo desde as eleições parlamentares de 1974.

"Temos a convicção de que a salvação do país se conseguirá pela via da rejeição a essas medidas bárbaras, através do alivio da recessão e não com o saque das pensões e salários, com o fim dos cortes e sua substituição por medidas para impulsionar o crescimento da economia", afirmou Tsipras ao jornal Kathimerini, explicando o rechaço a se somar a um governo de coalizão com o ND e o Pasok, depois de um encontro com Antonis Sâmaras, encarregado de articular essa saída.

O fracasso eleitoral da política neoliberal que rebaixou o salário mínimo em 27%, que cortou as aposentadorias em 20%, e catapultou o desemprego para os 22%, abriu as portas para uma nova política. "Os acordos com a União Européia e o FMI não são uma salvação, são uma tragédia", advertiu o líder da Syriza, que elegeu 52 parlamentares, adiantando que "esgotaremos todas as possibilidades para chegar a um entendimento, principalmente com as forças progressistas que rechaçam a política de arrocho, recessão e cortes dos direitos dos trabalhadores". Tsipras condenou o arrocho defendido pela chanceler alemã e o presidente francês derrotado. "A senhora Merkel deve entender que o programa de cortes sofreu uma esmagadora derrota", assinalou.

SOBERANIA

O líder da Coalizão da Esquerda Radical, Aléxis Tsipras, já havia freqüentado as páginas do HP. Em matéria sua, intitulada Oposição grega quer eleição já para ter de volta a soberania, Tsipras afirma, entre outras coisas, que "os partidos que apoiam este governo, seja com sua participação seja com seu voto favorável, serão corresponsáveis pela desintegração social, pelo declínio da democracia e da bancarrota econômica e social", e mais adiante, "é necessária outra coalizão de poder que tenha como objetivo a recuperação da soberania nacional e popular, que aposte em outra forma de desenvolvimento com distribuição de riqueza e justiça social".

Evangelos Venizelos, ex-ministro de economia do Pasok, depois de ter agredido violentamente os gregos com a aplicação da receita da troika e ter tido a sorte de não ir parar imediatamente na cadeia, ainda teve a cara de pau de dizer que "para nós é um dia particularmente doloroso", mas teve um lapso de lucidez ao reconhecer a impossibilidade de continuar a governar e descartou uma aliança com o ND, constatando que "um governo de coalizão do velho sistema de dois partidos não teria suficiente legitimidade, nem suficiente credibilidade doméstica ou internacional se reunisse uma maioria muito exígua".

A agremiação Gregos Independentes obteve 33 cadeiras, o Partido Comunista da Grécia, 26; o partido Amanhecer Dourado, 21; e a Esquerda Democrática, 19. A Nova Democracia tem três dias de prazo para constituir um novo governo. Se não conseguir, a Syriza fica habilitada para implementar uma aliança que lhe dê maioria no parlamento.

Não é fácil e o que podemos afirmar no momento de fechamento desta edição é que o mais provável é que o Syriza, que teve um crescimento de 233% em termos de votos e que está a 1,9% do primeiro colocado ocupe o primeiro lugar e componha um governo que pode ser o começo da transformação e da defesa da nação do assalto que os bancos, principalmente os norte-americanos, ao povo europeu.

Assalto que no caso da Grécia chegou à intervenção nas contas do país como aponta o presidente do Partido do Trabalho da Bélgica, Peter Martens, em seu artigo Dívida da Grécia, dupla moral e Goldman Sachs. "O The New York Times em 13 de fevereiro de 2010 reportou que dois grandes bancos americanos o JP Morgan e o Goldman Sachs haviam consagrado todo o seu conhecimento, todo seu savoir-faire, para dissimular os números corretos da dívida e do orçamento grego".

SUSANA SANTOS


Capa
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ERRATA

Expediente


 

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CARTAS

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O Dom Casmurro de Machado pelo crítico Agripino Grieco