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Tony Cartalucci: a propaganda e a agressão terrorista na Síria Há duas semanas, o escritor norte-americano Tony Cartalucci concedeu entrevista ao jornalista iraniano Kourosh Ziabari, da Iran Review. Cartalucci, em parceria com o também norte-americano Nile Bowie, do Centre for Research on Globalization, é autor do livro mais importante sobre os acontecimentos atuais na Síria, recentemente publicado: "Subverting Syria: How CIA Contra Gangs and NGO’s Manufacture, Mislabel and Market Mass Murder" (Progressive Press, setembro/2012). O que apresentamos ao leitor nesta página são extratos dessa entrevista de Cartalucci. A íntegra pode ser encontrada em seu site, Land Destroyer Report. C.L. TONY CARTALUCCI P: Você tem escrito extensivamente sobre a perturbação na Síria. Os opositores do governo do presidente Assad afirmam que este recorreu à violência e matou muitos manifestantes civis; Damasco afirma que certos países ocidentais estão fornecendo armas e dinheiro aos insurgentes. Tony Cartalucci: A violência começou com as chamadas manifestações. Havia, sem dúvida, manifestantes bem intencionados nas ruas. Infelizmente, muitas das organizações que os reuniram tinham intenções sinistras. Atos de vandalismo, incêndios e assaltos, foram relatados pelas próprias agências de notícias ocidentais desde março de 2011. Necessariamente, isso traria as forças de segurança armadas para as ruas, como em qualquer país do mundo – foi o caso em Los Angeles, durante os tumultos de 1992. Em Los Angeles, a presença esmagadora de milhares de soldados da Guarda Nacional e de Fuzileiros Navais suprimiu a violência em poucos dias. Mas, no total, 53 pessoas morreram devido à violência. A diferença na Síria é que o tumulto foi concebido para ser constante e cada vez mais violento. Para iniciar esse ciclo de violência crescente, grupos externos começaram a alvejar manifestantes inocentes, bem como forças de segurança encarregadas de fiscalizar os manifestantes. Esses "pistoleiros misteriosos", que disparavam dos telhados, foram relatados não somente por responsáveis do governo sírio, como também pelos manifestantes e espectadores. O objetivo era radicalizar os manifestantes e justificar o aumento da violência - e o seu apoio subsequente pelos patrocinadores ocidentais. Os EUA, Qatar, Arábia Saudita e Turquia, todos, admitiram sem rodeios esse apoio com financiamento, logística e armamento. O que não é admitido é que forças de operações especiais da OTAN e países do Golfo Pérsico estão dentro da Síria, juntamente com suas respectivas agências de inteligência. Esse ambiente tático era exatamente o que o ocidente procurava e era o objetivo da violência encoberta no princípio de 2011, bem como o aumento gradual do volume de armas e combatentes enviados para o cenário da crise. P.: O recente relatório da ONU sobre a Síria, publicado quando Kofi Annan era o enviado da ONU e da Liga Árabe à Síria, foi produzido por um certo número de pessoas que têm atitudes neoconservadoras e estavam aliadas às monarquias reaccionárias do Golfo Pérsico. Quem selecionou essas pessoas para elaborarem relatórios sobre a Síria? Tony Cartalucci: Representantes de interesses corporativo-financeiros ocidentais permeiam toda a ONU. O próprio Kofi Annan é administrador (trustee) do International Crisis Group, financiado pela Fortune 500, e membro do JP Morgan International Council, juntamente com muitos dos próprios maquinadores da atual perturbação da Síria.Além disso, um relatório de 2011 do Conselho de Direitos Humanos da ONU e o recente (agosto de 2012) relatório do "painel de peritos" sobre a Síria foram compilados por uma comissão encabeçada por Karen Koning Abu Zayd [diplomata americana], diretora do Middle East Policy Council, com sede em Washington. No conselho de diretores da Sra. Abu Zayd estão a Exxon, o Saudi Bin Laden Group, antigos embaixadores junto a membros do (P)GCC [(Persian) Gulf Cooperation Council: Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã], a CIA, os militares norte-americanos e representantes associados dos interesses da Al Jazeera, Boeing, Chevron e muitas mais. Essas pessoas são "selecionadas" pelos membros da ONU que dominam os seus vários conselhos – e, naturalmente, pela coleção de interesses corporativo-financeiros que domina cada um desses membros. As maiores corporações sobre a Terra, emanando de Wall Street e Londres, acumulam várias iniciativas com as suas próprias pessoas, minando, consequentemente, a credibilidade e a autoridade da ONU. Claramente, não só existe um imenso conflito de interesses com as nomeações de Kofi Annan ou Karen Koning Abu Zayd, como enormes incongruências. Quanto ao mais recente relatório da ONU sobre "crimes de guerra" [supostamente] executados pelo governo sírio, somos mais uma vez remetidos a "entrevistas", muitas das quais não foram sequer efetuadas dentro da Síria, mas em Genebra, na Suíça. Quem são os entrevistados? Opositores do governo, alegados desertores - e assim por diante. Não é que entrevistas como essas não tenham qualquer valor. Contudo, só entrevistas não fazem um processo ["case"]. Elas constituem um ponto de partida para uma investigação real, uma investigação que a comissão da sra. Abu Zayd deixou de efetuar. O resultado das suas "entrevistas" é um relatório que tem apenas valor de propaganda, propaganda imediatamente capitalizada pelo ocidente, e que continuará a ser citada, para efeitos dramáticos, até a performance seguinte da sra. Abu Zayd. P.: A reunião do Movimento dos Países Não-Alinhados acaba de ser concluída em Teerã e representantes de alto nível de 120 estados membros, bem como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, compareceram ao evento. Qual o seu ponto de vista quanto aos esforços feitos por Israel e EUA para minar a cúpula e dissuadir líderes mundiais e Ban Ki-moon de comparecerem? Tony Cartalucci: É claro que toda a narrativa ocidental a respeito da Síria está se desintegrando. O uso de Israel para tentar "envergonhar" Ban Ki-moon por comparecer à conferência dos países não-alinhados cheira a desespero. A ideia é minar tanto o Movimento dos Países Não-Alinhados como os seus membros principais, mais especificamente, Irã, Rússia e China, que se opõem firmemente aos esforços para dividir e destruir a Síria. Também isto parece ser uma estratégia perdedora para o ocidente.Por exemplo: a última votação na Assembleia-Geral da ONU sobre a Síria ocorreu com alguns resultados significativos. Um número crescente de países começa a abster-se ou ignorar votos sobre resoluções propostas pelo ocidente e levadas através do (P)GCC [Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã]. Isto inclui a Índia, que pode agora estar percebendo que os EUA tem apenas interesses, não amigos, e que a desestabilização que a Síria hoje sofre pode facilmente ocorrer sobre qualquer das fronteiras indianas, bem como, profundamente, dentro do país. P: Alguns comentaristas políticos dizem que o ataque sobre a Síria será um prelúdio para um ataque militar total contra o Irã. Como vê isso? Tony Cartalucci: Comentaristas dizem isso precisamente porque está escrito há quase 10 anos em documentos sobre a política dos EUA. Citando alguns exemplos: há o artigo de Seymour Hersh, de 2007, no New Yorker, intitulado "The Redirection". A conclusão de Hersh, de que os EUA estavam tentando minar a Síria para seguir minando e executando uma mudança de regime no Irã, não foi deduzida por ele próprio, era uma política clara que ele tinha ouvido de membros da administração Bush; uma política que, já naquela época, começara a ser levada à ação.Em 2009, no relatório "Which Path to Persia?", da Brookings Institution, a Síria é, mais uma vez, mencionada como um fator que deve ser neutralizado, antes de se passar ao Irã. Além disso, um interessante tema recorrente no relatório "Which Path to Persia?", da Brookings Institution, é como os EUA podem atrair o Irã para um conflito armado. A destruição da Síria parece ser um meio potencial para conseguir isso. P: Num de seus artigos, você destacava alguns fatos auto-censurados e verdades que os meios de comunicação ocidentais "de referência" ocultam sobre a Arábia Saudita, incluindo o fato das mulheres serem proibidas de dirigir; que a mais famosa organização terrorista do mundo, a Al-Qaeda, é um aliado furtivo do governo saudita; que os prisioneiros políticos são brutalmente torturados, etc. Contudo, os Estados Unidos, que pregam constantemente direitos humanos e valores da democracia ocidental a outros países, nunca protestaram contra estas flagrantes violações de direitos humanos naquela nação árabe. Por quê? Tony Cartalucci: Interesses corporativo-financeiros nos EUA gastam uma exorbitante quantia de dinheiro e tempo investindo em ONGs que promovem "direitos humanos". Não porque acreditem em direitos humanos, mas porque é um ponto de alavancagem política conveniente, quando tentam mobilizar a opinião pública contra seus adversários geopolíticos. A Amnistia Internacional, o Human Rights Watch, a Freedom House, a National Endowment for Democracy e muitas mais são todas financiadas e encabeçadas por alguns dos mais notórios advogados a favor da guerra e de atrocidades.Consequentemente, esse ponto de alavancagem política é utilizado somente quando interesses geopolíticos estão em causa, ao passo que se forma um "buraco negro midiático" em torno de violadores de direitos humanos notórios como a Arábia Saudita, que atualmente serve e está entrelaçada a interesses norte-americanos. A chantagem dos "direitos humanos", mantida pelo Departamento de Estado dos EUA, é não só uma forma de extorsão política como também mina a defesa real dos direitos humanos. A perseguição de africanos [negros] na Líbia, particularmente o esvaziamento de toda a cidade de Tawarga, exemplifica isto melhor do que qualquer outro exemplo recente. Aqui, o Refugees International, financiado pela Fortune 500, registrou as atrocidades verificadas em Tawarga e, ao invés de utilizar a sua imensa influência para fazer manchetes noticiosas sobre isso, simplesmente publicou um vídeo no You Tube que só foi visto umas poucas centenas de vezes. Por quê? Porque os que cometeram as atrocidades fazem parte do governo de Tripoli apoiado pela OTAN. O mesmo se pode dizer do apoio norte-americano ao terrorismo patrocinado pelo Estado. Objeções morais quanto a tais tácticas são apenas para consumo público. P: Em outro artigo, você afirmou que a BBC havia acabado de receber uma considerável quantia de dinheiro do Congresso dos EUA para lançar ataques midiáticos a países independentes e não alinhados. Tony Cartalucci: A BBC, bem como uma miríade de outras agências de notícias e ONGs pseudo-noticiosas, são todas subscritoras e representantes dos interesses corporativo-financeiros do ocidente. Interesses poderosos comprando os meios de comunicação para controlar a percepção pública, é tema recorrente através da história da imprensa e, agora, do rádio e TV.Esses interesses corporativo-financeiros, muitas companhias habituais na Fortune 500, financiam os think-tanks que produzem as pautas de política para os noticiários. Estes são disseminados para políticos e para as mesas das grandes redes corporativas de notícias. Assim, é claro que esses interesses corporativo-financeiros procuram minar e eliminar aqueles que se opõem à sua hegemonia geopolítica-econômica global, utilizando as empresas de mídia que possuem para difundir a sua propaganda. A BBC é culpada de muitos incidentes graves de fraude absoluta e deturpação, mas é a sua dissimulação diária e muito persistente que gradualmente envenena a percepção de audiências ocidentais contra países como a Síria e o Irã. A consciência crescente do público, e o êxito dos meios de comunicação alternativos em desafiar o monopólio da mídia, corroeu a efetividade dessa propaganda. O maior impulso para a guerra é a ignorância pública. Organizações como a BBC trabalham incessantemente para manter e agravar essa ignorância. No entanto, como a ignorância se desvanece na era da informação, assim ocorre também com as perspectivas dos belicistas habituais. P: O que pensa do assassinato de cientistas nucleares do Irã? As famílias das vítimas acabam de abrir um processo contra a Mossad de Israel, o MI6 do Reino Unido e a CIA dos EUA pelo seu possível papel nessas mortes. Qual é o seu ponto de vista? Tony Cartalucci: Os EUA e Israel admitiram tacitamente que estavam por trás desses assassinatos. Tal como os duplos padrões do ocidente quanto a direitos humanos, a sua política sobre o terrorismo patrocinado pelo estado é determinada pela conveniência e o oportunismo. Por outras palavras, os EUA estão utilizando terroristas contra os seus inimigos, enquanto os acusam, em muitos casos, de apoiarem os próprios grupos que [os EUA] armaram e financiaram.Parece que as leis nos EUA e por toda a Europa são vestígios de uma era em que a regra da lei, ou pelo menos uma aparência disso, prevaleciam. Esses dias estão ultrapassados. O que é certo é que a atual política externa e agenda do ocidente é insana em relação à aprovação da sua população e a qualquer senso de legitimidade. 18/Setembro/2012 |
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