Nelson Werneck Sodré: a obra de José de Alencar na História - (4)

Continuação da edição anterior

A obra de José de Alencar, surgida numa época em que a nossa literatura mal se esboçava, trouxe em si traços marcadamente brasileiros. Ele soube confundir-se com a sua gente e com a sua época, particularmente com a sua classe, e foi um intérprete fiel de todas elas: vê-lo através de condições diversas é deformar o critério de julgamento. Sua importância literária é muito grande, quer no sentido da função histórica que exerceu, trabalhando a língua com esmero, dando o molde de uma forma literária e fundando o romance como gênero popular, quer tomado isoladamente, como intérprete de seu tempo, estudioso do seu ambiente, narrador dos seus costumes

 NELSON WERNECK SODRÉ

O indianismo, aliás, foi uma tendência universal do romantismo. Esclareceremos, todavia, como o indianismo de Alencar não ancorou apenas na cópia do método, tomando-o a Chateaubriand ou a Cooper. A propósito do indianismo, entretanto, é interessante anotar as palavras com que Sérgio Buarque de Holanda o aprecia: “Pode-se dizer que foi a maneira natural de traduzir em termos nossos a temática da Idade Média, característica do romantismo europeu. Ao medievalismo dos franceses e portugueses opúnhamos o nosso pré-cabralismo, aliás não menos preconcebido e falso do que aquele. Seguíamos ainda nesse ponto, com liberdade, os modelos do Velho Mundo”. Verifica-se como o indianismo era uma saída espontânea, a única existente, por assim dizer, para o romantismo brasileiro.

 AS RAZÕES DO INDIANISMO

 Erram, entretanto, os que pretendem ver nele mera cópia dos modelos europeus ou mesmo norte-americanos. A valorização do elemento indígena, entre nós, era muito antiga, era muito mais antiga do que o romantismo. E, a bem dizer, nem era nossa, também, porque se levantara como movimento generalizado da cultura ocidental. Se remontarmos ao tempo, verificaremos as suas origens na idealização do índio estabelecida pela literatura jesuítica, e, mais do que na sua literatura, na sua política, não apenas em terras coloniais portuguesas. Uma gente que não se impressionaria com a escravidão do negro, levantaria ondas de protesto em torno da submissão do índio, e de vez que fizera dele o suporte natural de sua obra de catequese, elaboraria os temas de sua grandeza. Mas, se não quisermos descer aos primeiros tempos da colonização, poderemos ficar nos enciclopedistas, que traduziram, de uma maneira tão expressiva, embora também falsa do ponto de vista do confronto com a realidade, o encantamento do europeu com o índio, a tendência para torná-lo qualquer coisa feita à sua imagem e semelhança, com as suas qualidades e traços — qualidades e traços que estão presentes nos índios de Alencar —, qualidades e traços que não eram senão os que a cultura do tempo havia forjado para o homem branco europeu, e que ele generalizava, ao julgar com benevolência o índio. Em torno do interesse dos pensadores do tempo a respeito do índio brasileiro, para não falar do índio em geral, é interessante consultar a monografia de Afonso Arinos de Melo Franco, O índio Brasileiro e a Revolução Francesa.

O indianismo não era pois, apenas uma saída natural e espontânea para o nosso romantismo. Mais do que isso, era alguma coisa de profundamente nossa, em contraposição a tudo o que em nós era estrangeiro, era distante, viera de outras fontes. O indianismo era nativista, efetivamente, não só por coincidir com a fase da autonomia e dela provir como consequência direta, mas porque, logo após o processo da Independência, desenvolveu-se entre nós um nacionalismo vago e virulento, traduzido em jacobinismo desenfreado, de que as nossas rebeliões provinciais mostraram traços evidentes. Provar que o Brasil podia subsistir sem o português, e que podia viver de seus elementos próprios, entre os que estavam presentes na tarefa da colonização mas não eram lusos, constituía um tema excelente e próprio da época. Dos três grupos humanos que haviam colaborado na obra da colonização, entretanto, excluído o português, contra o qual se voltava aquele extremado nativismo, só o índio servia como fundamento para uma temática rica e agressiva. Não podia servir o outro elemento, o negro, em virtude mesmo das condições da estrutura econômica brasileira, herança da fase colonial, ainda com extraordinária força, que o colocara na mais baixa camada, a do trabalho puramente servil.

A valorização do negro, realmente, nunca chegou a merecer a atenção dos nossos escritores — e com muito mais forte razão não poderia impressionar um homem dos meados do século XIX, que morreu antes que o movimento abolicionista tomasse corpo. Pertencendo a uma classe que condicionava a posição do negro a uma inferioridade irremissível, os escritores do tempo não podiam fazer dele o suporte natural de um movimento nativista no plano literário. A atividade literária, no Brasil do tempo de Alencar, estava estreitamente condicionada à classe dominante, de senhores de terras e de escravos. Nessa classe é que se recrutavam os escritores e nessa classe é que estavam os leitores. Valorizar o negro corresponderia a entrar em conflito com tais origens. Demais, as condições de cultura, os padrões estabelecidos, relegavam o trabalho, que era sinal de subserviência, ao negro escravo. Não seria possível valorizar o trabalho numa sociedade escravocrata e latifundiária, em que a diferença estava, justamente, na situação superior dos que não trabalhavam, mas apenas usufruíam. O índio nada tinha a ver com o trabalho — era uma criatura livre, e assim o viam os contemporâneos de Alencar. E tinha, além de tudo, para a ânsia nativista, um traço de valorização histórica a mais: fora ele o adversário do português colonizador: ele que, dono da terra, e livre nessa terra, opusera-se ao domínio luso, lutara contra esse domínio e fora vencido, sempre combatendo. Podia figurar excelentemente o sentimento da autonomia, mas sob uma condição: a de que, continuando o mesmo índio, estivesse revestido de determinadas qualidades, evidentemente emprestadas, que pertenciam à ética da classe dominante.

As fontes do indianismo estavam, ainda mais, na própria memória popular. Capistrano de Abreu, que juntou, nos seus primeiros anos de atividade como escritor, a tarefa de crítica literária com os seus pendores naturais para a investigação histórica, situou, em trabalho incluído depois nos Ensaios e Estudos, com uma precisão singular, as fontes folclóricas do indianismo. Definiu os três ciclos dos contos populares, filiando o indianismo ao terceiro ciclo. Capistrano, com a sua peculiar honestidade, confessava a fragilidade de suas pesquisas, fazendo notar que elas haviam sido efetivadas somente no Ceará — justamente a terra de Alencar. Tais origens folclóricas não escaparam ao romancista, que definiu uma primeira etapa de sua obra como girando em torno “das lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; ... as tradições que embalaram a infância do povo”. Estamos longe, pois, do indianismo de cópia servil de Chateaubriand e de Cooper. Verificamos, ao contrário, as profundas raízes que esse indianismo tinha lançado em terras brasileiras. Que a leitura de Chateaubriand e Cooper também tenha tido a sua influência, no caso pessoal de Alencar, é aceitável, e é ainda aceitável que a influência do primeiro tenha sido maior do que a do segundo, conforme já notara Taunay. Mas já é tempo de mostrar como Chateaubriand não é uma leitura popular, na França, enquanto Alencar o é, no Brasil; enquanto Cooper não é matéria literária essencial, ou qualitativamente superior, em sua pátria, Alencar é o criador, aqui, do romance brasileiro e o teor literário de sua obra merece ainda um grande apreço, tanto maior quanto mais compreendido, em face das condições do seu meio e da sua época.

Os elementos caracterizadores do indianismo, pois, conforme observou com muita agudeza Mário Camarinha da Silva, em artigo de jornal, podem ser assim alinhados: o elemento folclórico, em torno do qual Capistrano levantou uma pista tão segura; a influência estrangeira, vinda através de Cooper e, de forma particular, de Chateaubriand; o elemento nativista, polarizando a tendência antilusa dominante na época e frisando a primazia da contribuição humana que resistira ao colonizador português, a qual se constituía na população primitiva do continente; o elemento condicionado pela escravidão, que forçava a exclusão do negro como matéria literária, ficando vedada, pelas condições culturais, em consequência da estrutura econômica do país recém-independente, a valorização do africano; o elemento idiomático, por último, constituindo a preocupação do romancista em afirmar a autonomia literária não só através do fundo como através da forma, escrevendo diferente dos portugueses e mostrando que havia, no Brasil, uma linguagem diferente, ou pretendendo contribuir para que houvesse e se afirmasse cada vez mais acentuada a diferenciação.

A obra de José de Alencar, surgida numa época em que a nossa literatura mal se esboçava, trouxe em si traços marcadamente brasileiros. Ele soube confundir-se com a sua gente e com a sua época, particularmente com a sua classe, e foi um intérprete fiel de todas elas: vê-lo através de condições diversas é deformar o critério de julgamento. Sua importância literária é muito grande, quer no sentido da função histórica que exerceu, trabalhando a língua com esmero, dando o molde de uma forma literária e fundando o romance como gênero popular, quer tomado isoladamente, como intérprete de seu tempo, estudioso do seu ambiente, narrador dos seus costumes.

O segredo da popularidade constante de José de Alencar está, sem dúvida, na afinidade que existiu sempre entre o público médio, nem só do Brasil como de todos os países em condições semelhantes, e o teor essencial das criações do romantismo. Mas há que distinguir uma particularidade que explica a preferência do público pelos romances de Alencar às obras de outros românticos brasileiros. Esta particularidade é certo, a secreta intuição que faz com que muitas vezes o povo julgue com mais acerto do que os homens de pensamento, e compreenda melhor e, principalmente, sinta mais fundo aquilo que tem para ele uma significação real e que de fato lhe pertence. No sentido de que povo, entre nós, nesta fase, é ainda classe média, em que os padrões elaborados pelo colonialismo conservam extrema resistência; no sentido de que nessa classe é que são recrutados, agora, os leitores, em sua maioria; no sentido de que a sociedade brasileira conserva ainda muito do que lhe proveio da herança colonial.


Capa
Página 2
Página 3

Temer mentiu: agendou reunião da propina com grupo Odebrecht

Reforma política dos ladrões é para manter o roubo

Cunha distribuiu R$ 50 milhões da Odebrecht para Jucá, Chinaglia, Mabel e outros aliados

Para Gleisi, não é o roubo mas a Lava Jato o perigo

Referências eram “sítio de Lula”, diz Odebrecht

Juiz Sérgio Moro aceita as 87 testemunhas desde que seja com a presença de Lula

PHA: Lula com Odebrecht é errado

Página 4 Página 5

Policiais invadem o Congresso:  ‘tirem as mãos da Previdência’

‘Policiais estão dando a resposta. Vamos derrotar essa PEC’, diz Bira

Petroleiros aprovam apoio à greve geral no dia 28

Portuários do Rio param dia 28: “Vamos à luta contra os retrocessos e barrar essas propostas”

“Agora é greve! Vamos cruzar os braços e deixar claro para o governo: nenhum direito a menos”, diz Sintetel

USP adere à greve e marca protestos na região

Frente de Magistrados e Ministério Público: “Reforma trabalhista é o maior projeto de retirada de direitos desde a CLT”

Taubaté: Volks coloca 3,6 mil em férias coletivas

ESPORTES: Inter vence Corinthians e avança na Copa do Brasil

 

 

 

Página 6

Presos palestinos iniciam greve de fome contra prisões da ocupação

Chilenos rechaçam ‘reforma’ faz de conta de Bachelet que mantém previdência privada

Presidencialismo sultânico vence na Turquia por estreita margem

Ex-ministros do governo Chávez denunciam ruptura constitucional na Venezuela

Pós-Otan: ONU denuncia o comércio de escravos na Líbia

Página 7

Professor do MIT denuncia: laudo de Trump sobre sarin na Síria “é falso”

Porta-voz russo: ninguém solicitou antídotos na área do ‘ataque’ químico

Terroristas explodem carro-bomba na Síria e matam 125 civis, entre os quais 60 crianças


Chomsky: “PT não pôde manter as mãos fora da caixa registradora e se uniu à elite mais corrupta”

Economia chinesa cresceu 6,9% no 1º trimestre

Documento secreto dos EUA confirma que a invasão do Panamá em 1989 foi mesmo por controle do Canal

Lavrov alerta para que EUA não repita contra a RPDC o que fez na Síria

MOAB destruiu no Afeganistão instalações construídas pela CIA

Página 8

Nelson Werneck Sodré: a obra de José de Alencar na História - (4)

Publicidade