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Gorki Caderno 1
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SESSÃO MATUTINA DE 8 DE MARÇO DE 1938  

Oficial da Corte – A Corte! Todos de pé, por favor.

Presidente – Podem sentar-se. A audiência continua. Passemos ao interrogatório do acusado Levine. Acusado Levine, o senhor confirma as declarações feitas durante a instrução prévia?

Levine – Confirmo.

Presidente – Camarada Procurador, o senhor tem alguma pergunta?

Vychinski – Sim, ainda tenho algumas questões. Acusado Levine, conte-nos em que momento e sob quais circunstâncias o senhor conheceu Yagoda, e quais foram os resultados da sua intimidade com ele.

Levine – O começo de minhas relações com Yagoda remonta a, aproximadamente, 1920. Eu tratava, então, de Dzerjinski, Menjinski, hoje já falecidos. Eu via Yagoda eventualmente, e também o tratava. Nossos encontros tornaram-se mais freqüentes em torno de 1928, com a chegada de A. M. Gorki a Moscou. Todos sabem que, desde a sua juventude, A. M. Gorki sofria de uma forma muito grave de tuberculose. Antes da Revolução e depois da Revolução, a partir de 1921, ele havia vivido alguns anos na Itália. Durante esses anos A. M. Gorki sentia grandes saudades da URSS; a grande distância da URSS e a impossibilidade de receber notícias freqüentes pesavam-lhe enormemente. Ele começou a falar cada vez mais da necessidade de retornar. Como o estado de sua saúde não lhe permitia voltar em definitivo, ele tomou a decisão de vir à URSS periodicamente. Depois de 1928, ele veio a Moscou nos meses de verão, já que as condições climáticas dos arredores da cidade são relativamente favoráveis aos doentes dos pulmões e do coração, quando na Itália, ao contrário, faz muito calor nessa época. A partir daquele ano ele esteve por aqui no verão e retornou à Itália no inverno. Havia sido decidido que na Itália ele ficaria sob os cuidados de um médico soviético. Sendo eu considerado seu Médico de Família, fui encarregado de escolher um grupo de médicos e de professores que dividissem entre eles esse semestre em três períodos de dois meses; assim, cada um deles permaneceria dois meses na Itália e não seria afastado em definitivo do trabalho que fazia aqui. De tal grupo faziam parte vários médicos de Leningrado, de Moscou e eu mesmo. Todas as vezes eu o acompanhava em sua partida da Itália, chegava com ele a Moscou e o despachava para casa, na qualidade de Médico de Família. Os outros cumpriam seus papéis. Durante os períodos de Gorki em Moscou, eu ia vê-lo frequentemente, como Médico de Família. Ele morava nos arredores de Moscou. Eu passava a noite em sua casa, mesmo quando ele não precisava nada de urgente. Nesta época Yagoda era também freqüentador da casa. Nos encontrávamos lá amiúde. As relações entre nós estabeleceram-se não como médico e paciente, mas como pessoas conhecidas. A esta altura tornaram-se mais freqüentes também minhas visitas a Yagoda, em sua casa ou na sua casa de campo, pois em torno de 1930, se não me engano, sua mulher – Averbach – estava seguidamente enferma; atacada por uma doença crônica, ela tinha seguidas crises, devido ao tipo mesmo de seu mal. Durante tais crises ele chegava a me levar à sua casa todos os dias, sozinho ou acompanhado de um dos médicos do serviço de saúde da GPU, ou até mesmo do falecido cirurgião (feu) Rozanov, que, como médico, era freqüentador desta casa. Foi assim que nossas relações se estreitaram cada vez mais. Devo dizer que Yagoda comportava-se muito bem diante de mim, dando-me diversas provas de estima. Falando francamente, isso não me parecia nada de extraordinário, pois nós, médicos, vemos muito amiúde os pacientes desejarem nos agradecer de uma maneira ou de outra, demonstrarem sua consideração. Em uma palavra, não via nisso nada de surpreendente ou incompreensível para mim. Sua consideração me lisonjeava.

Vychinski – E como se exprimia esta atenção?

Levine – Bom, por exemplo: ele tinha umas flores maravilhosas, uma estufa, e ele me enviava flores, enviava também excelentes vinhos franceses. Um dia ele me deu um presente que, para mim, foi muito precioso: ele me destinou, com exclusividade, nos arredores de Moscou, uma casa de campo onde, durante cinco ou seis anos, passei o verão com minha família.

Vychinski – Ele mandou construir uma casa de campo para o senhor?

Levine – Não, ele destinou uma exclusiva...

Vychinski – Quer dizer que ele lhe deu de presente uma casa de campo?

Levine – Sim, eu considerei aquilo como um presente.

Vychinski – Yagoda ofereceu seus préstimos em suas viagens ao estrangeiro, liberando o senhor das formalidades alfandegárias?

Levine – Sim, ele fazia saber à Aduana que eles podiam me deixar passar, quando eu retornava do exterior, sem inspecionar minha bagagem.

Vychinski – E como o senhor aproveitava isso?

Levine – Eu trazia roupas para minha esposa, para minhas noras, diversos objetos para crianças, para senhoras, trazia pequenos presentes para os colegas...

Vychinski – Em uma palavra, o senhor trazia tudo o que queria sem pagar o imposto de importação, sem pagar as taxas alfandegárias?

Levine – Sim, mas não eram objetos preciosos.

Vychinski – Evidentemente, o senhor não fazia comércio de objetos preciosos.

Levine – Eu os trazia para meus parentes próximos.

Vychinski – Eu compreendo: para o senhor mesmo, seus parentes próximos, seus amigos, seus conhecidos.

Levine – É a mesma coisa.

Vychinski – E isso durou quanto tempo?

Levine – Em 1934 eu ainda estive no exterior.

Vychinski – E esta atenção “especial”, quando o senhor acha que começou?

Levine – A partir da minha primeira viagem com Alexei Maximovitch, em 1928 ou 1929, e até pouco tempo atrás.

Vychinski – Bom, e depois? O senhor considerava tudo isso como sinais normais de atenção? Em geral é assim que os pacientes expressam sua consideração aos médicos?

Levine – O senhor provavelmente sabe que não.

Vychinski – Nem com viagens ao exterior, nem com presentes, nem com uma casa de campo, nem com o imposto de importação ou as taxas de aduana?

Levine – É evidente que não.

Vychinski – Assim então, o senhor considerava a coisa como normal?

Levine – Para ele era provavelmente normal.

Vychinski – E para o senhor?

Levine – Para mim não era, evidentemente, uma coisa normal.

Vychinski – Sendo assim, o senhor não se perguntou qual o motivo de tanta atenção?

Levine – Eu nem pensei nisso, pois avaliei que, para ele, a coisa não tinha muita importância. Considerando sua posição, não era grande coisa.

Vychinski – Mas considerando a posição do senhor, era normal?

Levine – É evidente que não, que não era uma coisa normal. Mas tampouco se tratava de um paciente normal.

Vychinski – Então um paciente especial testemunhava-lhe uma atenção especial?

Levine – Isso, isso, evidente.

Vychinski – Diga-nos, por favor, qual foi o resultado de tudo isso?

Levine – Para um paciente normal é difícil dar um presente, visto que...

Vychinski – Perdão, mas devo interromper-lhe mais uma vez. Quando lhe dispensavam de qualquer tipo de inspeção aduaneira, o senhor considerava tal prática como natural e legal?

Levine – Eu não considerava como normal e legal, mas sabia que era uma prática corrente.

Vychinski – Prática corrente de quem e aonde, o senhor sabe?

Levine – Sei que várias pessoas se beneficiam de passaportes diplomáticos, etc.

Vychinski – Então o senhor se considerava um diplomata?

Levine – Não, claro que não me considerava como tal.

Vychinski – O senhor compreende que se aproveitou de uma grave infração às leis soviéticas e que aceitou tal violação de forma interesseira?

Levine – Sim, eu compreendo. Mas devo dizer que o prejuízo causado ao Estado foi muito pequeno: eu trazia algumas gravatas, bagatelas.

Vychinski – Mas os pequenos prejuízos freqüentemente repetidos fazem um grande prejuízo. Além disso, é assim que todos os criminosos justificam seus crimes. Mesmo aquele que rouba um milhão de rublos-ouro pode dizer que para um Estado tão poderoso, tão rico como o nosso, o prejuízo causado ao Estado não é muito grande.

Levine – Permita-me continuar seu pensamento e calcular em dinheiro o que a Aduana deveria ter arrecadado. Obteremos uma soma pequena.

Vychinski – Até agora o senhor não compreendeu a gravidade de seu crime?

Levine – Sim, sim, é claro que compreendi.

Vychinski – Então continue com suas explicações.

Levine – Devo confessar que uma tal atenção realmente me lisonjeava. Era uma atenção revelada pelo dirigente de um organismo como a GPU. Eu via como um reconhecimento justo e um testemunho da confiança que me demonstrava o dirigente daquela instituição. Nunca me veio à mente o que eu vejo agora.

Vychinski – Mas depois lhe veio à mente.

Levine – Sim.

Vychinski – Como isso se passou?

Levine – Em 1932 Alexei Maximovitch havia decidido instalar-se definitivamente em Moscou, com toda a sua família. No começo de 1933, quando de uma visita minha a Yagoda, à sua casa de campo, durante uma caminhada ele tratou comigo de um assunto ao qual ele voltaria muitas vezes depois, um assunto sobre o filho de Gorki, Máximo Alexeievitch Pechkov. Ele me disse que estava descontente com seu modo de vida, com sua conduta. Estava descontente de não vê-lo interessado por nenhum trabalho, de não vê-lo fazer nada. Ele estava descontente de vê-lo abusar das bebidas alcoólicas. Mas era um assunto que correspondia mais ou menos à realidade: naquela época M. A. Pechkov, pai de dois filhos, não tinha nenhum trabalho fixo, nenhuma ocupação obrigatória, precisa; simplesmente ele vivia na casa de seu pai. De sorte que suas palavras não apontavam então para nenhuma suspeita grave. Durante uma destas conversas, Yagoda disse: Veja você, Max (era assim que ele o chamava), não é simplesmente um homem que não serve para nada, ele exerce sobre seu pai uma influência nefasta. Seu pai o ama, e ele se aproveita para criar um ambiente indesejável e nocivo na casa de Alexei Maximovitch. É necessário descartá-lo. É preciso fazer com que ele pereça.

Vychinski – Quer dizer?

Levine – Fazê-lo morrer.

Vychinski – Ou seja, matá-lo?

Levine – Isso mesmo.

Vychinski – E Yagoda, então, propôs ao senhor que o fizesse?

Levine – Ele disse: “Você deve nos ajudar nisso”. É desnecessário que eu descreva aqui minha sensação psicológica, o terror que eu senti escutando estas palavras – penso que isso é bastante compreensível, meu transtorno é interminável. Passaram-se já seis anos, de maneira que não posso garantir as palavras exatas da narração, mas simplesmente seu conteúdo. Ele falou a seguir: O senhor sabe quem está lhe falando, o dirigente de qual instituição? O senhor sabe que defendo a política do partido e a vida dos principais dirigentes do partido e do governo, assim como a vida e a atividade de Gorki; no momento em que se faz necessário, no interesse dele, livrar-se de seu filho, você não deve furtar-se ao sacrifício.

Vychinski – Foi assim que ele justificou a coisa?

Levine – Sim.

Vychinski – E que pensou o senhor?

Levine – Eu não pensei nada. Ele me disse: por enquanto não faça nada, reflita em casa, e dentro de alguns dias eu o convocarei.

Vychinski – Em que o senhor deveria refletir?

Levine – Se eu aceitava ou não.

Vychinski – E ainda, refletir em que mais?

Levine – Nos meios de execução. Ele disse: “Não se esqueça que o senhor não pode não me obedecer; o senhor não me escapará. A partir do momento em que eu lhe confiei esta questão, do momento em que o senhor soube deste assunto deve avaliá-lo e executá-lo. O senhor não pode contá-lo a ninguém. Ninguém acreditará no senhor. É em mim que acreditarão. Não vacile, execute. Reflita bem sobre como pode fazê-lo e quem poderá envolver. Dentro de alguns dias eu o chamarei.” Ele repetiu ainda uma vez que a não execução do que ele me pedia seria minha perdição, minha e de minha família. Considerei que não tinha outra saída, que deveria submeter-me a ele. Naturalmente, quando olho à distância, quando hoje olho para 1932, quando vejo a que ponto Yagoda me parecia, a mim, sem partido, a que ponto ele me parecia todo-poderoso, é evidente que me muito difícil furtar-me de suas ameaças, de suas injunções.

Vychinski – E você tentou furtar-se?

Levine – Eu tentei, na minha consciência.

Vychinski – Na sua consciência, mas não houve resposta da sua parte?

Levine – Não.

Vychinski – O senhor tentou protestar, contar para alguém, informar alguém?

Levine – Não, não fiz nada disso, não tentei me desvencilhar. Não disse nada a ninguém e me decidi. Quando me decidi, fui encontrá-lo. Yagoda me disse: “Será difícil para o senhor conseguir sozinho. Em quem o senhor pensou para ajudá-lo?” Eu lhe respondi que em geral introduzir um novo médico na casa de Gorki era muito difícil, que eles não gostavam. Mas havia um médico que visitara Gorki durante uma de minhas férias, era o doutor A. I. Vinogradov, do Serviço de Saúde da GPU. Krioutchkov o conhecia bem. Foi ele que, se não me engano, trouxe Vinogradov (Krioutchkov era o secretário permanente de Gorki). Eu disse que era imprescindível fazê-lo participar da ação. Disse também que se fosse preciso ainda recorrer a algum dos consultores, o único deles que freqüentava a casa era o professor Dmitri Dimitrievitch Pletnev. Não falei dele então como um auxiliar realmente, disse apenas que se a doença exigisse a presença de um consultor a única pessoa que poderia se apresentar na casa era D. D. Pletnev. Assim passou-se o ano de 1933. Ele me apressava.

Vychinski – Ele quem?

Levine – Yagoda. Naquela época uma nova idéia tinha germinado em sua mente. Quando me encontrava, Yagoda perguntava sempre sobre o estado de saúde de Viatcheslav Roudolphovitch Menjinski, então presidente da GPU e que estava gravemente doente. Yagoda era vice-presidente da GPU. É preciso dizer que Menjinski, desde os primeiros anos da Revolução, era meu cliente fixo. Em 1926 ele sofrera um ataque muito grave de angina de peito. Desde então sua saúde permaneceu abalada, e ele tinha seguidas crises. No estado em que ele se encontrava eu não podia prestar-lhe grande ajuda, como tampouco poderia qualquer outro terapeuta. E, como o sofrimento era constante, ele começou a procurar por milagres. Nesse tempo um dos milagres era o “myol”, uma preparação do doutor Schwartzmann, que ele dizia ser imbatível contra a angina de peito. Fizeram vir Schwar-tzmann de Odessa, e ele produziu, durante certo tempo, uma boa impressão sobre Menjinski. Depois veio a decepção. Em seguida ele ouviu sobre a propaganda que se fazia sobre Ignati Nicolaievitch Kazakov, e ele (Menjinski) procurou Kazakov. Por volta de 1932 Menjinski tornou-se cliente permanente de Kazakov. Não somente tornou-se seu cliente como alimentava sua fama, ele fazia parte de um pequeno número de pessoas que tinham a impressão que Kazakov os ajudava tremendamente. E o barulho em torno de Kazakov, as contínuas discussões sobre seu nome, em Moscou, tiveram por resultado que no Conselho dos Comissários do Povo teve lugar uma sessão especialmente consagrada aos métodos de tratamento preconizados por Kazakov, sessão à qual assistiu Menjinski que, também lá, defendeu o renome de Kazakov.

Vychinski – As sessões que aconteceram nos órgãos de Estado não têm nada a ver com a questão presente.

Levine – Eu falo da sessão na qual foi examinada a questão dos lisados de Kazakov.

Vychinski – Conte-nos então o que Yagoda disse de concreto ao senhor a propósito de Menjinski.

Levine – A essa questão eu respondi logo a Yagoda.

Vychinski – A qual questão?

Levine – Por diversas vezes ele me perguntou pela saúde de Menjinski, e em outubro ou em novembro, ele de novo me questionou: “Como vai a saúde de Menjinski?” Respondi que, segundo minhas informações, ele estava muito mal. Mas ele me disse: “Qual a vantagem de arrastar isso por mais tempo? É um homem condenado?”. Ele era, com efeito, considerado como um doente quase que sem esperanças, quanto à recuperação de sua capacidade de trabalho.

Vychinski – O senhor disse a Yagoda que Menjinski poderia lutar contra a morte por um prazo indeterminado?

Levine – Perdão, não ouvi sua pergunta.

Vychinski – Eu perguntei: à questão de Yagoda sobre o estado de saúde de Menjinski, o senhor não lhe informou que Menjinski poderia ainda lutar por um período de tempo indeterminado?

Levine – Sim, certamente.

Vychinski – E o que Yagoda lhe respondeu?

Levine – Ele me disse: “Segundo as minhas informações ele é um morto-vivo”.

Vychinski – Ele não disse, de outra maneira: “Qual a vantagem”?

Levine – Disse.

Vychinski – E ele não disse que era preciso apressar isso?

Levine – Disse. Eu chego lá. Estava dizendo que, desde 1932 ele era um fervoroso adepto do doutor Kazakov, e que se a questão se coloca assim...

Vychinski – Fale francamente, não se intimide.

Levine – Estou falando francamente.

Vychinski – Yagoda não lhe disse que era necessário matar Menjinski?

Levine – Disse.

Vychinski – E então, o senhor disse a ele quem deveria ser recrutado para isso?

Levine – O doutor Kazakov.

Vychinski – O senhor chamou Kazakov para que? Para tratar ou para assassinar?

Levine – Para a segunda dessas coisas.

Vychinski – E por que justamente Kazakov?

Levine – Ele tratava à base de lisados. Ora, esses lisados Kazakov os preparava em casa, no seu laboratório.

Vychinski – Então ele podia preparar tudo o que ele quisesse?

Levine – Ele podia preparar lisados que, ao invés de fazer bem, fizessem mal.

Vychinski – Ou seja, venenos.

Levine – Perfeitamente. Sobre isso falei com Yagoda: “Como há interrupções, pausas no tratamento, que durante elas eu visito Viatcheslav Roudolphovitch Menjinski, posso combinar os lisados com um cardiopático qualquer que, combinado aos lisados, poderia ser nocivo”.

Vychinski – O senhor explicou isso a Yagoda?

Levine – Sim, a Yagoda.

Vychinski – E Yagoda, o que disse?

Levine – Ele me disse que falaria com Kazakov e lhe daria as instruções necessárias. Quando encontrei Kazakov, no final de 1933, soube que Yagoda o havia chamado para um encontro; ele sabia o que tinha de fazer e me explicaria como seriam preparados os lisados. Ele me perguntou quais cardiopáticos eu iria receitar quando de minha visita.

Vychinski – Acusado Kazakov, o senhor confirma as declarações que Levine acaba de fazer?

Kazakov – No essencial sim.

Vychinski – O senhor confirma que Levine conversou com o senhor?

Kazakov – Sim.

Vychinski – O que ele lhe disse exatamente?

Kazakov – Estive com Levine três vezes e, aos poucos, ele acabou me recrutando. Nós tivemos um encontro em maio, um outro em junho e, finalmente, um outro em outubro.

Vychinski – De que ano?

Kazakov – De 1933.

Vychinski – Então, em 1933, houve três encontros?

Kazakov – Três.

Vychinski – Durante seu primeiro encontro, em maio, sobre o que os senhores conversaram?

Kazakov – Ele expressou-me sua simpatia; disse que eu estava isolado entre os médicos, que os outros médicos me atacavam e que eu me encontrava em uma situação bastante delicada. Ele me recomendava aproximar-me mais dos outros médicos e acrescentou: “Tenho um assunto particular para tratar com o senhor”. Perguntei: “Sobre o que?” Ele respondeu: “Sobre a saúde de Menjinski”.

Vychinski – Ele recomendou que o senhor se aproximasse de algum médico em especial ou dos médicos em geral.

Kazakov – Eu me mantinha afastado, pois a luta estava encarniçada.

Vychinski – E Levine expressou simpatia ao senhor?

Kazakov – Durante a conversa de maio ele me disse: “É em vão que o senhor enfrenta as dificuldades do tratamento de Menjinski, ele é um morto-vivo”. Eu era da opinião de que Menjinski desenvolvia uma infecção bacteriana e que ela iria evoluir. Levine não se pôs de acordo comigo, e o resultado é que fui afastado. Eu lhe disse, de forma contundente, que não estava contente com a sua conduta em relação a mim. Ele me respondeu: “Sobre este assunto falaremos em particular”. É verdade que esta sua resposta cínica, de que Menjinski era um morto-vivo, que não valia a pena incomodar-se por ele me revoltara.

Vychinski – Por que ela revoltou o senhor?

Kazakov – Porque era cínica. Eu sabia que Menjinski, quando tinha seguido meu tratamento, havia se recuperado.

Vychinski – Em resumo, a declaração dele pareceu cínica ao senhor?

Kazakov – Evidentemente. Assim que ele tinha uma melhora eu era afastado.

Vychinski – Quem o afastava?

Kazakov – Levine. Em 5 de março, de novo me apresentei e de novo fui dispensado, até o mês de junho. Reclamei com ele.

Vychinski – E o que ele respondeu?

Kazakov – Ele? Como sempre, com um leve sorriso...

Vychinski – E depois?

Kazakov – Eu o encontrei em junho. Ele ponderou que eu tinha razão quando fiz meu diagnóstico sobre a infecção que Menjinski desenvolvia como conseqüência da gripe. Um grupo de médicos presentes declarou não ter nada a objetar a que me fosse confiado o seu tratamento.

Vychinski – O senhor demora-se muito nos comentários. Nós ainda o interrogaremos à parte. Por hora conte-nos brevemente em que consistiu o segundo encontro.

Kazakov – Ele me disse: “Eu não me oponho a que o senhor comece a tratar Menjinski...”

Vychinski – Em uma palavra, ele deixou o senhor aproximar-se?

Kazakov – Sim. Comecei a tratar de Menjinski.

Vychinski – E isto não o espantou?

Kazakov – Ele me havia dito uma frase: “Acho que o senhor me entendeu.”

Vychinski – E o senhor o havia entendido?

Kazakov – Eu não tinha entendido nada.

Vychinski – Quando alguém não compreende quando lhe dizem “o senhor me entendeu”, pergunta: “O que?, Como?”. O senhor perguntou alguma coisa?

Kazakov – Havia em mim um grande negativismo.

Vychinski – Em russo isso significaria o que?

Kazakov – Inimizade com Levine.

Vychinski – Com mais razão ainda seria necessário perguntar o que ele estava querendo dizer.

Kazakov – É verdade, mas não perguntei nada.

Vychinski – Talvez o senhor o tivesse compreendido?

Kazakov – Não, não.

Vychinski – Então ele lhe disse: “O senhor me entendeu”. E o senhor, o que respondeu?

Kazakov – Fiquei só olhando, de olhos arregalados, não disse nada. Comecei a cuidar de Menjinski e ele se pôs em pé.

Vychinski – Fale menos de seus méritos e responda a questão de fundo que lhe foi posta. Por que o senhor não lhe perguntou: “O que? Não o compreendo.” Em geral, se alguém não pergunta é porque compreendeu, não é mesmo?

Kazakov – É.

Vychinski – Naquele momento o senhor não desconfiou de nada?

Kazakov – Não, não desconfiei. Mais tarde, no mês de outubro, ele me disse: “Tomei-lhe por mais inteligente, mas vejo que não me entendeu”.

Vychinski – E em que a sua inteligência deveria se manifestar?

Kazakov – Ele me disse, em tom firme: “Eu me admiro que o senhor se tenha dedicado com tanto zelo a cuidar de Menjinski e que tenha mesmo fortalecido a sua saúde; foi em vão que o senhor o fez voltar ao trabalho.” E depois acrescentou: “Fazendo isso, o senhor irrita Yagoda.”

Vychinski – E o senhor, o que disse?

Kazakov – Ele acrescentou que disso não resultaria nada de bom.

Vychinski – E o senhor?

Kazakov – Eu escutava, para ver aonde a coisa daria.

Vychinski – Por que o senhor escutava? Não estava claro ao senhor do que se tratava?

Kazakov – Eu desejava escutar, para saber a que ele vinha.

Vychinski – E a que ele veio?

Kazakov – Em outubro Levine me disse: “Compreenda que Menjinski é, de fato, um morto-vivo; porém, restabelecendo sua saúde, fazendo-o retornar ao trabalho, o senhor joga Yagoda contra o senhor. Compreenda que Yagoda está interessado em ver Menjinski fora, e se o senhor não se submeter a ele, Yagoda terá motivos contra o senhor.”

Vychinski – Ele intimidou o senhor?

Kazakov – Sim. Não diga uma palavra a Menjinski, pois ninguém escapa de Yagoda. Ele não recuará diante de nada, achará você em qualquer lugar.

Vychinski – Foi assim que ele o intimidou?

Kazakov – Ele se expressou nestes termos.

Vychinski – O senhor sentiu medo?

Kazakov – Fiquei sorumbático. Depois Levine me disse: “Saiba que Yagoda vai falar com o senhor”. Falando francamente, eu estava completamente desamparado, senti medo e não sabia o que fazer.

Vychinski – E o que o senhor respondeu a Levine?

Kazakov – Não respondi nada.

Vychinski – De sorte que nas três vezes o senhor não respondeu nada. O senhor por um acaso é mudo?

Kazakov – Eu não sabia o que responder sobre seus propósitos cínicos. Talvez Levine fosse um agente de Yagoda, porque ele não tinha absolutamente nenhum motivo para me falar com tanta franqueza.

Vychinski – Em suma, o senhor afirma que Levine o intimidou, o ameaçou?

Kazakov – Sim.

Vychinski – Acusado Levine, o que o acusado Kazakov expôs é exato?

Levine – Não sei se devo objetar agora, neste momento, ou depois. Há tanta confusão...

Vychinski – A tarefa da instrução judiciária é justamente esclarecer todas as confusões.  

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