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FH expõe ao país a sua psicopatia

Só ele importa a ele. Mesmo seu parceiro Motta não era mais do que um instrumento à disposição

CARLOS LOPES

Os atos dos indivíduos, sua coerência ou incoerência em relação ao que falam, pregam ou proclamam, sua atitude diante de amigos e adversários e, principalmente, diante da perda deles, é sempre o melhor juiz do que realmente são estes indivíduos - em suma, do seu caráter, da sua grandeza ou pequenez e de seu papel na história, isto é, na vida.

Nada mais revelador do caráter - precisamente: da doença - de Fernando Henrique, e de sua estatura verdadeiramente bacteriana, do que a maneira como se comportou perante a agonia e morte daquele que, supostamente, era seu amigo mais íntimo. Sérgio Motta foi durante anos o parceiro dele em negócios, negociatas, golpes e outras atividades igualmente edificantes. Aboletado no Planalto, Motta era quem se encarregava de torrar a principal parte do patrimônio público - a telefonia - sempre em prol de paquidermes estrangeiros que usassem seu próprio grupo como testa-de-ferro.

Mais do que isso, Motta era o encarregado da chantagem, extorsão, compra de votos e agressões rasteiras a adversários. Verdade seja dita, e ao contrário de Fernando Henrique, era daqueles escroques que sentem uma compulsiva necessidade de acreditar que estão sendo muito "ideológicos", muito "reformadores", muito "progressistas", e até mesmo muito "revolucionários", para levar à frente a escroqueria. Obviamente, a realidade era exatamente a oposta, e tão aguda que era impossível ignorá-la: existe um momento em que ou se admite que uma falcatrua não é mais que uma falcatrua, que falta de escrúpulos é somente falta de escrúpulos, ou se sucumbe. Motta sucumbiu. A embalagem "ideológica" que tinha confeccionado para esconder de si mesmo o significado real dos seus atos e dos do seu suposto amigo, não podia mais dar conta do recado.

Mas se Motta escondia-se atrás de uma ideologia de fancaria, Fernando Henrique se escondia atrás de Motta. E, no momento mesmo em que este entrou em agonia, o amigo revelou-se o que era. Ele, realmente, era "amigo" de Fernando Henrique, o que não quer dizer que Fernando Henrique fosse realmente seu amigo. Era muito útil, apenas isso. Dos vários defeitos, deformações e vícios de Motta o mais grave - e fatal - era acreditar em Fernando Henrique, que não acredita em ninguém.

Internado em São Paulo, só recebeu a visita do parceiro in extremis.

Cinco dias depois de Motta ter sido hospitalizado, sendo público que seu destino estava selado, Fernando Henrique passou o fim de semana em São Paulo e voltou a Brasília sem visitá-lo. Só o fez 10 dias depois do internamento - dois dias antes da morte -, quando Motta já estava inconsciente, e em seguida foi para o Chile.

Na volta, o suposto amigo íntimo, cúmplice em inúmeros casos tortuosos - da compra de uma fazenda por um único dólar até a chantagem e compra de votos reeleitoreiras, passando pela entrega da Banda B a alguns apaniguados - havia falecido. Fernando Henrique passou pelo velório de Motta, seguiu o cortejo fúnebre e, quando este passou em frente ao Aeroporto de Congonhas, escapou, indo rápido para a Espanha. Não ficou para o enterro daquele que, dizia, era o seu melhor amigo. Mas ficou muito "emocionado", verteu lágrimas, etc.

Sabe-se agora mais uma razão pela qual prefere os répteis - jacarés, crocodilos - ao invés dos seres humanos. Realmente, Motta não precisava ter arrumado, com suas agressões e histeria, tantos inimigos. Bastava-lhe Fernando Henrique como amigo.

Mais dois dias e a cena - porque se trata disso, ele não consegue mais do que algumas encenações mambembes - foi repetida quando do falecimento do deputado Luís Eduardo Magalhães.

Logo que recebeu a notícia, Fernando Henrique anunciou que iria continuar longe, na Espanha. Não viria ao Brasil para os funerais do jovem deputado, que lhe garantiu apoio como presidente da Câmara e cujo pai, imerso na dor da perda, é o presidente do Congresso - tendo-o sustentado mesmo com a falta de consideração manifestada por ele diversas vezes. Algumas horas depois, diante do espanto geral, que ameaçava transformar-se em revolta, voltou atrás.

Chegou no final do velório, ficou alguns minutos, falou algumas palavras meramente burocráticas e, a bem dizer, geladas, tentou utilizar a emoção que tomava conta de todos para seus objetivos políticos degradantes e foi-se, antes do sepultamento, pretextando "falta de segurança" no cemitério.

Toda a cúpula do governo, do Legislativo e do Judiciário estavam presentes. Só para ele "faltava segurança". E que "segurança" faltava? Desde o vice-presidente da República até os parlamentares mais destacados, ministros dos tribunais superiores, governadores e outras autoridades, o presidente da Rede Globo e de outros órgãos de comunicação, todos estavam lá e nada aconteceu. Fernando Henrique saiu para reaparecer em sua fazenda, no interior de Minas, onde, informou, está se recuperando do "desgaste emocional".

Alguém já definiu o psicopata como uma mistura patológica de "penúria espiritual com egocentrismo exacerbado". Nada poderia descrever tão precisamente Fernando Henrique. Só ele importa a ele. Mesmo Sérgio Motta, não era mais do que um instrumento à disposição. Não tem solidariedade alguma, muito menos diante de uma perda, até porque não a sente.

Naturalmente, psicopatas têm medo pânico da morte: como não vivem no sentido próprio da palavra, mas apenas como parasitas de outros, sem nada construir, apenas destruindo, se sentem - e estão - isolados dos outros. Como não enxergam no mundo mais do que a si mesmos, a morte é o fim do mundo - e não a conclusão de uma vida que continuará através de outros e do que se construiu. Daí, a sua imensa covardia diante da vida e, portanto, diante da morte. E não apenas da morte física.

Fernando Henrique evadiu-se do enterro de Motta e fugiu da sua agonia porque esta é a representação da agonia de seu "projeto político". Não por acaso o seu parceiro foi levado junto com sua bizarra "ideologia" - melhor dizendo, junto com a alucinação de que a destruição do país é a melhor forma de desenvolvê-lo. A alucinação de que "modernizar" o país é extorquir, chantagear, subsidiar mercadorias importadas, desindustrializar, sufocar o empresariado nacional com juros escorchantes, promover a recessão, provocar e ignorar o desemprego em massa, dar o Tesouro aos especuladores externos, desnacionalizar o sistema financeiro, eliminar direitos sociais, abandonar a Saúde, a Educação, a Defesa Nacional, doar incalculáveis riquezas naturais e o resultado do trabalho de milhões de brasileiros em décadas.

A alucinação, em suma, de que o atraso é progresso, de que banditismo é democracia, de que corrupção é ética, de que o melhor - e único - caminho para o Brasil é transformá-lo num deserto de famintos, sem indústria, agricultura, comércio ou sistema financeiro próprios.

É tão evidente, tão nítida e terminal a contradição entre a proclamada "ideologia", e os fatos, que nada pode mais escondê-la. É dessa constatação que Fernando Henrique tentou escapar, em meio ao cortejo fúnebre de Motta e durante a sua agonia. Por mais que faça o possível para não a perceber, ele, no fundo, não consegue, o que revela pelo pavor que tenta encobrir através da fuga.

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