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"Nós militares de 92 fizemos uma rebelião com o apoio do povo"

Bem vindos todos que queiram investir e impulsionar esse projeto. Nós, alguns elementos desse projeto, vamos declarar, e declaro e convido a todos que o façamos, com sentimento e ação. A agricultura é um setor estratégico para o país e deve ser esse critério levado ao alcance constitucional, assim o esperamos da Assembléia Constituinte que será eleita nos próximos meses.

Por enquanto, temos selecionado para o curto e médio prazo, quatro projetos abrangentes na agricultura: um projeto arrozeiro - a Venezuela tem um potencial gigantesco para o arroz -, um projeto de palma africana, outro dos grandes projetos onde há muitos estudos a respeito, tem faltado vontade, capital e tecnologia para fazê-lo; nós queremos reunir tudo isso, e injetá-lo nos projetos de desenvolvimento nacional. Um projeto de cana-de-açúcar e um projeto pesqueiro, ao menos esses quatro projetos centrais. Os estudos de nossos técnicos indicam que neles temos imensas vantagens comparativas e que podem ser competitivos para o desenvolvimento, para criar emprego.

Como pode ser que estejam morrendo de fome as crianças de Apure, à margem do imenso Apure, do imenso Arauca? Ou as crianças do Oriente, ao lado do Orinoco ou os de Guayana? E os povos da costa, com tanta riqueza pesqueira, tanta riqueza marítima? E as pessoas dos campos? Temos que voltar aos campos, mas de verdade.

Eu, que camponês também sou, fui, e assim me criei e me formei, estarei à frente desses projetos, até onde o tempo e a força me permitam, mas vocês, mais que dizê-lo, afirmo perante Deus, irão ver. Eu serei um soldado, o primeiro da batalha, tratarei de estar em todas as partes, falando com o camponês, com o operário, com o governador, com o prefeito, com o empresário, com o político, com o soldado, com o comandante, com o general, com todos, para darmos as mãos, e que esses projetos, quando tenha de entregar o governo, dentro de cinco ou dez anos, não sei quantos, ou um ou dois, pode ser um, pode ser dois, eu não sei, ninguém sabe quantos, um ou dez, eu não quero vir aqui a ler ou dizer-lhes: "Fiz até onde pude, mas o país está arruinado". Não, eu prefiro de verdade, lhes digo, entregar o governo, que é o que menos importa, acreditem, aos dois anos, ao primeiro ano, se esse ano, se esses seis meses ou se esses dois anos, servirem para deixar para trás o passado e afundá-lo, e que de verdade, de partida ao novo motor nacional. Um novo projeto de longo prazo, como o navegante que vai e não vê o porto, mas a cada milha, a cada quilômetro que navega, sabe que vai na direção correta, porque tem uma bússola e um mapa para navegar.

Precisamos de um mapa nacional, precisamos de uma bússola, precisamos de um timoneiro, aqui estou eu, pretendo ser timoneiro por um tempo, peço ajuda a todos. Peço ajuda a todos porque todos vamos no mesmo barco, e o mais terrível, é que conosco vão os nossos filhos e netos. Temos que levar o barco adiante, é uma responsabilidade, e depois, que outros se encarreguem de navegá-lo.

Agora, dentro dessa concepção social, eu, ante a Venezuela e o mundo, e sendo intérprete - como quero ser sempre - do sentimento do povo venezuelano, que está em sua imensa maioria vivendo abaixo de um patamar mínimo de sobrevivência, interpretando essa realidade. Eu, como faria um capitão de um barco ou de um avião frente a uma emergência, declaro ao mundo que a Venezuela está em emergência social. Nós temos que enfrentar a emergência social, mas não para restringir ou eliminar garantias. Afinal, quem vai eliminar garantias se já estão todas eliminadas na Venezuela? Como vamos suspender o que já está suspenso? Que garantias mais vamos tirar de nossos povos? No meu critério, esse é um dos desvios da Constituições moribunda do Pacto de Ponto Fixo; essa Constituição prevê a emergência com toda formalidade, eu não me utilizo dessa formalidade, eu me utilizo de uma realidade neste caso.

Mas a Constituição disse que se poderá decretar a emergência nacional, e com base nela, suspender garantias. É uma visão nefasta de emergência, é uma visão unilateral repressiva, prevista nas leis. Assim como suspendem as garantias constitucionais dos povos da fronteira, dada a situação difícil na fronteira com a República da Colômbia... e aproveito para fazer um reconhecimento muito especial, de coração, ao seu presidente, o doutor Andrés Pastrana, que apesar da dor do povo colombiano pela tragédia de dias atrás, está conosco. Irmão, meu abraço e nosso abraço para ti e para teu povo, somos amigos da Colômbia, porque a Colômbia é terra bolivariana. Nosso pesar, nossa dor, nosso apoio para ti e para teu povo, que é também parte de nosso povo, de nossa essência.

Na Colômbia temos que fazer todo o possível para que haja paz; eu lhe havia dito, eu disse ao presidente Pastrana, disse publicamente, e conversamos em Havana com o presidente Fidel Castro. Eu estou disposto Andrés, permita-me chamar-lhe assim, como nos tratamos informalmente, a ir onde houver que ir, e a falar com quem tiver que falar para tratar de colocar um grãozinho de areia; um grãozinho de areia que bem pode poupar uma gotinha de sangue desse povo tão querido, como é o povo colombiano.

Estendo esta mesma saudação que fiz em nome do povo bolivariano da Venezuela ao presidente colombiano, igualmente, a todos e a cada um de vocês. Temos que reconhecer o esforço que vocês têm feito, porque as tragédias são muito parecidas: o doloroso terremoto da Colômbia, o mesmo doloroso terremoto financeiro pelo qual está passando o nosso povo irmão do Brasil, causa pela qual o presidente Cardoso não pôde vir aqui hoje. Igual a todos vocês da Nicarágua, de todos esses povos e países aqui representados por seus presidentes, seus chefes de governo, ou primeiros-ministros; a presidenta guianesa Janeth Jagan, nosso afeto às suas lutas, ao seu esforço, às suas dificuldades. A todos, o presidente Banzer, nosso amigo, todos amigos; o presidente Dominicano Leonel Fernández, o presidente cubano, ratifico minha amizade e nossa solidariedade com o povo irmão de Cuba. O Papa bem o disse, Cuba é parte desse mundo, Cuba é um povo irmão, é um povo bolivariano. Assim, igual a todos, vai meu abraço e meu afeto ao povo cubano, ao povo de Martí, e a todos os povos e nações.

Mas volto à emergência social, que proclamo como presidente da Venezuela, essa emergência social, irmãos, não é para suspender mais garantias. Não. É para tomar ações emergenciais que restituam as garantias. Essa seria uma de minhas sugestões à nova Constituição ou à Constituinte dentro de poucos meses. Acredito que este cenário seja muito bom para que a Constituinte trabalhe, se vocês, senhores do Congresso, o permitirem. Creio que isso seria o mais adequado. Vocês também podem, como alguns já falaram, renunciar para concorrer ao processo Constituinte; porém onde seja, onde quer que se reúna a Assembléia Constituinte, acredito que isso é algo que deve ser discutido ali. Uma emergência para restituir garantias. Nem toda emergência pode servir para suspender garantias constitucionais.

E nessa ordem de idéias, para dar, imediatamente, o sinal de largada no social, não podemos esperar nem uma hora. Não há sábado nem domingo para nós que estamos em emergência e temos tão grande responsabilidade, tão gigantesca responsabilidade, com tantos milhões de seres humanos que neste mesmo instante, enquanto estamos aqui, não têm o que comer, não têm escola para ir, não têm um parque para brincar e nem um teto para dormir em paz. Dizia José Martí, o grande, quando falava dos seres honrados: "para ser honrado não basta sentir ou dizer que não se faz mal a ninguém". Não, isso não basta. Para ser honrado de verdade um homem, uma mulher, um ser humano, se sabe que alguém está sofrendo perto dele, tem que fazer tudo o que puder para evitar esse sofrimento a esse ser humano. É a única forma de ser honrado. E mais! De ser cristão! Porque a primeira Lei de Deus diz assim: "ama ao teu próximo como a ti mesmo".

Eu, às vezes, me atrevo a dizer um pensamento que eu recomendaria que fosse a primeira Lei de Deus, que Deus me perdoe; nesse momento de emergência, nós, os católicos e cristãos, deveríamos dizer melhor: ama a teu próximo mais que a ti mesmo.

Para dar sinais de que está começando uma verdadeira guerra contra esses males sociais, uma verdadeira batalha, eu dei instruções ao novo ministro da Defesa, a partir de hoje, o general Raúl Salazar, aos novos comandantes de força e aos meus irmãos das Forças Armadas, a quem saúdo com também especial deferência e a quem, inclusive, pedi perdão lá em nossos espaços militares, e o faço agora diante da nação: perdão pelas dores causadas, perdão por tantos anos juntos. Graças a Deus e ao povo da Venezuela estamos juntos de novo, retornamos com a cabeça erguida; mas agora eu regresso como comandante-em-chefe. Aprendi de alguns dos que estão aqui, a ser comandante e creio que tenha sido medianamente. Um verdadeiro comandante tem que estar ali, compartilhando com sua gente, um verdadeiro comandante tem que estar comprometido com o cumprimento da missão e com o bem-estar de sua gente, de seus comandados. Eu aspiro ser agora muito melhor comandante que antes. Espero que estes sete anos que transcorreram desde que deixei o comando do meu batalhão de pára-quedistas, me tenham ensinado, me tenham dado mais condições, me tenham dado mais vigor para ser melhor comandante que antes.

Agora venho como comandante-em-chefe não mais a comandar pára-quedistas - me honrou comandá-los -, mas impulsionar um processo de incorporação dos homens e mulheres de uniforme da Venezuela a este processo de emergência e recuperação social. Nesse sentido, dei instruções para que depois de amanhã, 4 de fevereiro, façamos o desfile da unidade, o desfile do futuro. Não é, como alguns têm dito por aí, para saudar a rebelião armada. Não, isso não é verdade, isso ficou para trás, é para caminhar juntos, é um desfile para o futuro e nesse mesmo dia, vou ativar novamente os Batalhões de Pára-quedistas que devem seguir mantendo os nomes que sempre tiveram, Antonio Nicolás Briceño e José Leonardo Chirinos, mas mais do que isso, vamos ordenar a formação de uma Brigada Especial, que será ativada neste mesmo mês de fevereiro, uma Brigada Especial para o desenvolvimento, porque o desenvolvimento é parte da defesa. Nossos irmãos de armas não podem estar encerrados em quartéis, em bases navais e em bases aéreas com a grande capacidade, com o grande material humano, com a grande quantidade de recursos que estão ali desativados, como se fizesse parte de outro mundo, separados de uma realidade dramática, uma realidade assombrosa, uma realidade sangrenta, que clama por uma injeção de recursos, de moral e de disciplina.

Pedi ao general Salazar, noites atrás, que me conseguisse uma lista de todos os militares na ativa que são engenheiros. A lista nos surpreendeu, tanto a ele, quanto a mim: centenas de oficiais que são engenheiros, desde engenheiros nucleares - há vários nas Forças Armadas -, até engenheiros civis, eletrônicos, elétricos, de diversos setores. Não é que estar em um quartel todos os dias seja algo indigno, não. Comandar um pelotão, comandar um batalhão, é algo digno para um oficial, para isso nos formamos. Porém, nesse momento, um tenente-coronel que seja, ao mesmo tempo, engenheiro nuclear; um coronel ou um capitão que tenha um grande conhecimento sobre produção agrícola, especialista em búfalos, por exemplo, que tenha tido cursos no exterior durante anos, ou um sargento que seja perito em telecomunicações, neste momento crítico para o país, eu acredito, e essa é a orientação como comandante-em-chefe, que sem abandonar, obviamente, as funções básicas do militar, se incorporem, boa parte deles, a projetos de desenvolvimento através de Unidades Especializadas.

Em Barinas funcionará, dentro de pouco tempo, uma Brigada Especial onde haverá um corpo de engenheiros militares onde poderão se incorporar para o serviço voluntário, os venezuelanos que queiram, onde poderão se incorporar homens e mulheres das diversas áreas técnicas. Pouco fazemos com um lote de máquinas de engenharia aqui em Caracas. Dei a ordem que no 12 de fevereiro, quando haverá um desfile na Vitória novamente, que nesse dia deve sair uma coluna, não de tanques - nunca mais deverá sair uma coluna de tanques -, mas uma coluna de máquinas de trabalho, manejadas por soldados, rumo aos campos e aos povoados da Venezuela, o Dia da Juventude, e assim começamos. Igualmente, formaremos batalhões agrícolas e batalhões de saúde, não para atender um dia e voltar daqui a seis meses, mas para abrir operações de guerra contra a miséria, contra a desnutrição, contra a desmoralização de um povo.

Os militares sozinhos não chegariam muito longe, portanto eu convoco o espírito nacional, convoco a alma nacional, convoco a boa vontade de todos, a Igreja Católica. Vamos! Os padres, os bispos pelos caminhos, vamos! Pelos caminhos do povo que são os caminhos de Deus, a Igreja Evangélica, os empresários, a juventude, os estudantes de medicina, vamos! Um estudante do último ano de medicina já está capacitado para liderar a guerra contra as enfermidades que estão acabando com o nosso povo, os estudantes universitários! Vamos levantar a bandeira da luta, vamos sair das salas de aula e vamos à luta social, não podemos esperar para ter um diploma, ou para ver quem me dá um emprego. Busquemos emprego e busquemos trabalho! Esse é o sentido venezuelano, esse é o sentido, compatriotas, desse povo bolivariano, dessa emergência social a que me refiro.

Igualmente peço a todas as forças do país, os governadores, os prefeitos, às Assembléias Legislativas, aos representantes das diversas regiões, vamos, pelo povo! Que esse país recupere a credibilidade em nós mesmos. Eu lhes repito, serei o primeiro soldado em tempo integral nessa batalha, batalha que estou certo que vamos ganhar, contra o atraso, contra a miséria, contra a fome e, dentro dessa mesma visão, estaremos impulsionando mais ainda a Venezuela na ordem macropolítica da Constituinte, na ordem econômica de um processo de desenvolvimento e dinamização da produção nacional, de um projeto de estabilização macroeconômica, das quais o país já conhece algumas medidas, de sustentação sólida da disciplina fiscal e de um projeto internacional.

O tratamento prioritário e urgente de nossa política exterior estará orientado em primeira instância às regiões caribenha, andina e amazônica. Esse é o velho sonho de Bolívar, de Martí, de Sandino, de O’Higgins e de Artigas, a união de todos. A união de todos, a união dentro de cada país, a consolidação de todos nós, um a um, mas ao mesmo tempo a consolidação de um grande bloco de força nesta parte do mundo. Graças a Deus e à história, o mundo do século XXI não será bipolar nem unipolar, será multipolar e assim como a Europa unida dá exemplo ao mundo, demos exemplo nós também ao mundo, marchemos até um processo unitário, é meu chamado, é minha proclamação aos povos, países, amigos e irmãos a quem visite e a quem conheça.

As negociações entre a comunidade andina e o Mercosul devem continuar, nós defendemos que continuem, que se acelerem, mas tem que pisar no acelerador e dentro desse mecanismo de unidade nosso governo tem se proposto também a possibilidade de fazer algum acordo de livre comércio com o Mercosul, como fizeram o Chile e a Bolívia. Mas só com o interesse de acelerar os processos de união do subcontinente, da mesma forma que com a América Central e o Caribe. Eu serei um pregador e um acelerador, até onde possa, dos processos de integração. Dizia o senador Luis Afonso Dávila em suas palavras: é o sonho do Congresso do Panamá, desse Panamá que Bolívar via como os gregos viam ao Istmo de Corinto; o Istmo de Panamá para nós como o Corinto para os gregos. É o momento de retomar aquilo, é o momento de retomar o sonho de união entre nós, de estabelecermos uma moeda para a América Latina e o Caribe para a próxima década - busquemos e lutemos por ela -, momento de propor uma confederação de nações desta parte do mundo, de estabelecermos uma unidade que vá muito além do intercâmbio comercial, porque a alguns parece que tendem ou tendemos a ficar, às vezes, limitados apenas ao intercâmbio comercial. Não, a unidade é muito mais do que isto, muito mais completa, muito mais profunda. É a unidade do que já esteve unido.

Termino esta mensagem de hoje diante do povo venezuelano, diante de vocês termino por ora, sublinhando o que disse no começo, porque quando se fala da unidade latino-americana e caribenha, de relações com o mundo, de projetos sociais, quando se fala de projetos econômicos humanistas, de projetos políticos estáveis, estamos nós aqui nesta Venezuela caribenha, amazônica, andina, universal, simplesmente retomando o sonho bolivariano; estamos retomando o autêntico bolivarianismo. E assim dizia Bolívar: "para formar um governo estável, é necessário fundir o espírito nacional em um todo, a alma nacional em um todo, o espírito e o corpo das leis em um todo". Unidade, essa tem que ser a nossa bandeira. Que Deus nos acompanhe, não somente ao presidente Chávez, mas que Deus acompanhe a todo o povo de Venezuela neste momento estelar que estamos vivendo, neste momento de ressurreição. Um abraço para todos e muito obrigado por sua atenção. Um abraço solidário, um abraço bolivariano. E vamos adiante pelos caminhos, pois vacilar é perder-nos. Senhoras e senhores."

Redação

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