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A agonia da especulação global (II)

Dando continuidade ao artigo publicado na edição anterior, o economista Nilson Araújo de Souza, presidente do Instituto do Trabalho Dante Pellacani, demonstra que "a recessão se generalizará a partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da crise", "pois além de terem os maiores déficits externos e a maior dívida externa do mundo, para completar, converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores recebedores de investimentos estrangeiros". "O tombo da economia norte-americana levará, inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de juros, como decorrência de uma provável retirada de capitais japoneses, os EUA enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da produção em todo o mundo", adverte Nilson. Segundo o economista, "o fortalecimento dos Estados nacionais é um instrumento decisivo para a construção da nova etapa do desenvolvimento", que "só não interessa aos parasitas que dominam o capital financeiro especulativo dos países centrais, que querem dominar o mundo a partir de seus próprios Estados nacionais"

Nilson Araújo de Souza

A brutal desvalorização desses ativos financeiros, que pode ocorrer a qualquer momento, será a vingança da economia real. Mas será uma vitória de Pirro. Incapaz de seguir sustentando o parasitismo ciclópico característico da especulação global, isto é, incapaz de seguir fornecendo os recursos que alimentam essa especulação, os limites, cada vez mais estreitos, da economia real forçarão uma gigantesca desvalorização dos ativos financeiros, mas essa pulverização da riqueza acabará por devastar mais ainda a economia real, como ocorreu em 1929. A pulverização da riqueza financeira, que já deu seus primeiros passos (só em julho e agosto de 1998, segundo a revista The Economist, o valor das ações, no mundo todo, já havia caído o correspondente a US$ 4 trilhões, cinco vezes o PIB brasileiro), destruirá da noite para o dia riquezas incomensuráveis que foram acumuladas nesses anos de parasitismo especulativo, mas, ao devastar a economia real e, portanto, o emprego, prejudicará, sobretudo, às massas trabalhadoras. Essas, ademais, terão enormes prejuízos porque, com a privatização dos sistemas previdenciários, foram lançadas nos braços de fundos privados de pensão, que também entraram na ciranda financeira (detêm US$ 6,5 trilhões dos recursos envolvidos na especulação internacional) e serão engolfados pelo furacão que varrerá a especulação. Os problemas sociais, que já são graves, em face do desemprego e do corte dos direitos sociais, ficarão ainda mais dramáticos.

Aliás, repetindo o que ocorreu em 1929, um outro sintoma de que uma violenta e nova recessão já bate às portas da economia norte-americana é a explosão de fusões - a maior da história - que ocorre atualmente no país: em 1997, os negócios de fusão montaram em US$ 957 bilhões, equivalentes a 12% do PIB e a todas as fusões realizadas de 1980 a 1990; os negócios em 1991 haviam sido de US$ 138 bilhões, apenas 2% do PIB. Com base nos quatro primeiros meses de 1998, estima-se que chegarão a 20% do PIB no ano. Neste século, as grandes crises nos EUA têm sido sempre precedidas por uma onda de fusões industriais, comerciais e bancárias. A onda do começo do século deu origem ao crash de 1904; a da década de vinte resultou na grande depressão de 1929; no bojo da onda dos anos sessenta, nasceu a recessão da década de setenta; a da segunda metade dos oitenta originou a recessão deflagrada em 1990.

Não é difícil perceber porque o recrudescimento das fusões antecedem as crises. As fusões são a forma como se manifesta a centralização dos capitais, isto é, a redistribuição dos capitais existentes entre os capitais maiores. Não significam, portanto, acumulação de capital, crescimento da massa de capitais. É diferente da concentração, em que os capitais crescem pela acumulação do excedente econômico, ou seja, pela conversão de lucro em novo capital. Ora, a briga dos grandes grupos econômicos para abocanhar os demais se intensifica precisamente quando o mercado total pára de crescer, deflagrando a luta por um mercado cada vez mais estreito. E isso ocorre precisamente na mudança do auge da economia para a crise. A situação é mais grave nestes tempos de decadência do imperialismo, em que o capital financeiro dos países centrais só conseguia crescer à custa do arrocho salarial de seus próprios trabalhadores e da devastação da capacidade produtiva e, por decorrência, do mercado dos países da periferia.

A economia norte-americana está no fio da navalha. Qualquer mudança de sinal da política monetária, comandada pelo Federal Reserve, pode precipitar uma crise sem precedentes. O desastre de 1929 foi precedido pela decisão do Fed de subir, a partir de meados de 1928, a taxa de desconto e, em consequência, as taxas de juros, o que provocou o estouro da bolha especulativa em outubro de 1929. A cautela atual do Fed, que, em outras circunstâncias, já teria elevado os juros, revela claramente seu temor em provocar uma grave recessão no país. Mas a situação é tão delicada que, mesmo sem adotar qualquer medida, meras advertências de seu presidente têm provocado fortes abalos nas bolsas, como ocorreu a partir do final de julho de 1998.

Não é por mera coincidência que o clima de euforia que vinha predominando na mídia (a matéria da The Economist foi uma exceção) reproduzia o mesmo clima que precedeu a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Em junho daquele ano, escreveu a revista Forbes: "Nos últimos cinco anos temos estado numa nova era industrial neste país. Estamos progredindo industrial e economicamente não só muito rapidamente, mas numa escala perfeitamente heróica".

Para agravar a situação da economia norte-americana, vem ocorrendo no período recente um enorme processo de valorização do dólar em relação às principais moedas do mundo, particularmente em relação às moedas européias e asiáticas. A valorização perante o iene, nos últimos três anos, chegou a ser de 82,5%, passando de 80 ienes por dólar no primeiro semestre de 1995 para 146 em junho de 1998. Em relação a várias moedas da Ásia, à exceção da chinesa, o dólar teve esse nível de valorização em menos de um ano, a partir de agosto de 1997. Esse processo não decorreu de uma decisão unilateral do governo norte-americano. No caso da Europa, seus governos decidiram conscientemente desvalorizar suas moedas, como forma de melhorar suas contas externas e favorecer a unificação. A Ásia, por sua vez, teve de realizar uma desvalorização desordenada, no bojo da crise financeira e cambial que a vem atormentando. O barateamento dos produtos importados pelos EUA e o encarecimento dos produtos exportados, decorrentes da valorização do dólar, tendem a aumentar, ainda mais, o deficit comercial desse país, estimando-se que pode superar os US$ 300 bilhões por ano. E, com isso, aumenta a necessidade de financiamento externo do país, justamente num momento em que as fontes estão secando.

Vê-se que os EUA viraram um império sui-generis: maiores déficits externos e maior dívida externa do mundo e, para completar o quadro, converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores recebedores de investimentos estrangeiros. Em 1996, havia no país um estoque líquido de investimentos estrangeiros diretos (descontados os investimentos que tinham no exterior) de US$ 870,5 bilhões (ONU - CEPAL, Economic Survey of the United States in 1996, Washington). Isso significa que, além da obrigação de remeter juros para o pagamento de uma gigantesca dívida externa, os EUA passaram a ter que remeter também lucros e dividendos para as matrizes das empresas estrangeiras instaladas no país. Em face do enorme peso das transnacionais norte-americanas no resto do mundo e das maiores taxas de lucros que elas obtêm, comparadas com as que as de outros países recebem na economia norte-americana, esse balanço ainda é positivo (a conta que reúne o pagamento de juros, lucros e dividendos ainda tinha um saldo positivo de míseros US$ 3 bilhões em 1996), mas a tendência é se tornar rapidamente negativo, em face do vertiginoso crescimento da dívida, que resultará dos gigantescos déficits comerciais.

Ironia do destino! Um país imperialista passando a viver o mesmo drama que tem caracterizado os países dependentes: vulnerabilidade e sangria externas. Não há melhor sinal do que esse para o fato de que o imperialismo norte-americano atingiu sua fase terminal, como ocorreu no final da Antiguidade com o Império Romano e, no final da Idade Média, com o poderoso Império dos Habsburgos, que chegou a dominar quase toda a Europa, as Américas e partes da Ásia e da África.

E a realidade mais uma vez se encarrega de enterrar as ilusões daqueles que, baseados em circunstâncias do momento (o curto crescimento do período Reagan, o baixo crescimento do período Clinton ou a derrocada da URSS e do Japão), passaram a propugnar que os EUA estavam fadados a liderar uma nova ordem mundial, já que haviam retomado a iniciativa. Bem que tentaram, mas as contradições dessa fase parasitária e apodrecida do imperialismo são mais fortes do que a vontade dos chefes e apaniguados do império.

O tombo da economia norte-americana levará, inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de juros, como decorrência de uma provável retirada dos capitais japoneses, os EUA enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da produção em todo o mundo. Esse aumento dos juros, ademais, deteriorará mais ainda a situação dos países endividados, não apenas porque vai piorar suas contas externas, sobrecarregadas de juros, mas também porque, como todos eles, em face das políticas neoliberais, se encontram com enormes déficits externos, dependendo, por isso, de capitais especulativos externos para financiar esses déficits, serão levados à insolvência se esses capitais fugirem para os EUA. Por outro lado, com a deflagração de uma recessão no principal mercado do mundo, o norte-americano, tornar-se-á ainda mais difícil a situação dos demais países, que passaram a depender, em grande medida, desse mercado. Mesmo sem que o Fed haja elevado os juros, a recessão já começou a se insinuar nos EUA, como consequência da queda das taxas de lucro das empresas, da queda das exportações resultante da recessão já deflagrada em outras partes do mundo e da queda das rendas que decorre da pulverização das riquezas empenhadas nas bolsas. Uma provável retirada dos capitais japoneses agravaria muito mais esse quadro já difícil.

Sintomaticamente, foi essa a avaliação que fez o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, durante conferência internacional sobre a crise na Ásia realizada em Bancoc, na Tailândia, em junho de 1998: "A recessão econômica da Ásia está prestes a se estender por todo o mundo (...) Não se pode dizer ainda qual será o impacto". Tem esse mesmo significado o discurso proferido no Congresso dos EUA, em fins de julho de 1998, pelo presidente do Fed, Alan Greenspan. Eles só ainda não perceberam foi que, independentemente do agravamento da crise asiática, a recessão se generalizará a partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da crise.

É curioso como, ao mesmo tempo em que, no começo de 1998, a economia norte-americana parecia ter chegado ao seu momento de "auge", também começaram a aparecer os primeiros indícios de recessão. A queda da taxa de lucro, o aumento dos estoques invendáveis e a queda das exportações não são mais que a preparação para o tombo. Os sinais são bastante visíveis: a taxa de desemprego voltou a aumentar, de 4,3% para 4,5% da força de trabalho, de abril para maio deste ano; o Index of Leading Economy, do Conference Board, permaneceu inalterado em 105,2 de abril para maio; os investimentos do setor de construções, que vinham puxando o crescimento da economia, caíram 1,5% em maio; o índice nacional de atividade da produção, medido pela National Association Purchasing Management, caiu pela primeira vez em dois anos, de 51,4 em maio para 49,6 em junho (um índice inferior a 50 é considerado um sinal de contração da economia). Assim foi que, depois da "explosão" de 5,4% no primeiro trimestre de 1998, o PIB dos EUA só cresceu míseros 1,4% no segundo trimestre. Mas a situação seguiu piorando: a produção industrial, depois de cair 1,1% em junho, voltou a cair 0,6% em julho, levando a capacidade ociosa para cerca de 20% da capacidade instalada, maior nível depois da recessão do começo da década.

Ainda não chegamos aos momentos mais dramáticos da crise, mas as dificuldades da economia mundial já são tão grandes que conseguiram imobilizar o principal instrumento que, tradicionalmente, o império norte-americano tem utilizado para impor seu receituário para o resto do mundo, particularmente para os países subdesenvolvidos: o famigerado FMI. Depois de aportar mais de US$ 100 bilhões no "socorro" das nações da Ásia que naufragaram, ao mesmo tempo em que lhes exigia condições impossíveis de cumprir, como ocorreu na Indonésia, o FMI não conta hoje com mais de US$ 15 bilhões para emprestar. Não é por acaso que, apesar da grave situação financeira da Rússia, ele resistiu até o limite a emprestar-lhe alguns trocados, mesmo sabendo das inevitáveis consequências internacionais de uma explosão financeira naquele país. Para fechar o pacote, além de raspar o próprio tacho, dependeu do aporte dos bancos centrais de vários países.

A sobrevivência do FMI passou a depender da implementação do mecanismo especial conhecido como Acordos Gerais de Empréstimo, integrado por 22 países, dentre eles os Estados Unidos, que prevêem o aporte de recursos da ordem de US$ 50 bilhões, em casos considerados extraordinários. A crise mundial é tão grave que, ironicamente, esse organismo internacional, que costuma "socorrer" os países em dificuldades (isto é, emprestar-lhes algum dinheiro em troca de concessões ao capital financeiro internacional, particularmente o dos EUA), agora está de pires na mão. E sem qualquer garantia de que será socorrido. É que há uma enorme resistência, sobretudo do Congresso norte-americano, em aportar-lhe novos recursos, devido ao rotundo fracasso de suas interpretações e conseqüentes terapias para as nações asiáticas. Pouco antes da explosão de 1997, as análises do FMI pintavam a região de cor-de-rosa e elegiam suas economias como modelo a ser copiado. Depois da emergência da crise, impôs à Indonésia um receituário que quase levou o país à guerra civil. Situação semelhante ocorreu em relação à Rússia. E, assim, foi para o espaço a credibilidade que o Fundo desfrutava junto aos especuladores internacionais, que, em grande medida, se baseavam em suas análises e terapias para eleger seus campos de aplicação.

É sintomática a declaração do presidente do Comitê Econômico Conjunto do Congresso dos EUA, deputado Jim Saxton: "O programa do FMI fracassou completamente para estabilizar os mercados financeiros russos e sua situação política". No que é secundado por David Hale, economista-chefe de uma dessas arapucas de agiotagem, o grupo norte-americano Zurich Insurance: "Há crescentes sinais de que está se rompendo o apoio para políticas ortodoxas orientadas pelo mercado nas perturbadas economias da Ásia". É essa também a opinião do jornal "Financial Times", ao dizer que "o presente sistema, baseado no FMI e no G-7, falhou na prevenção de crises e também está fazendo um trabalho muito pobre para resolvê-las".

O que esses porta-vozes dos especuladores não perceberam foi que a tão decantada quanto ilusória competência dos técnicos do FMI naufragou diante de uma devastadora crise que não se enquadra, nem de longe, em seus surrados manuais. Não que as crises menos dramáticas possam se enquadrar nesse receituário, mas, nesses casos, os credores internacionais pelo menos têm alguma garantia de que receberão de volta alguma coisa do que aplicaram.

Sem fundos e com um receituário desgastado, não é de estranhar que, em reunião no começo de setembro com ministros da Fazenda da América Latina e dos EUA, os dirigentes do FMI tenham se limitado a elogiar o trabalho desses ministros e a recomendar que prossigam nesse mesmo caminho. Não nos esqueçamos que, pouco antes de explodir a situação na Ásia, o FMI havia se desmanchado em elogios aos chamados "tigres asiáticos", com destaque para a Indonésia.

A essa altura dos acontecimentos, quando já se foi longe demais no caminho da especulação global, é praticamente impossível evitar uma catástrofe global. A oligarquia financeira dos países centrais, preocupada apenas com o ganho rápido, elevado, fácil e aparentemente seguro, e totalmente despreocupada com as novas gerações, isto é, com o futuro da Humanidade, já comprometeu demasiadamente nosso futuro. Até um dos principais porta-vozes do mundo financeiro, a revista britânica The Economist, já admite que caminhamos para uma depressão global: "Pela primeira vez desde o início dos anos 80, uma depressão global é um desenlace imaginável, até mesmo plausível".

Talvez tenha sido por isso que o diretor-geral da Unctad (órgão das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento), o brasileiro Ruben Ricúpero, em reunião internacional com sindicalistas, patrocinada pela OIT, por ocasião da comemoração dos 50 anos do GATT, tenha começado sua intervenção pela leitura do "Manifesto Comunista", que completava 150 anos, sendo que, ao final da leitura, declarou: "o Manifesto é uma descrição muito atual do mundo contemporâneo". Elementar, meu caro Watson. Ricúpero foi secundado pelo principal jornal do mundo financeiro, o ultraconservador "Financial Times". Em um artigo chamado O Capital revisitado, afirma: "Claramente lições devem ser aprendidas". Com O Capital, claro.

Os povos do mundo não permitirão que a devastação a ser provocada pela depressão global se converta em barbárie, e abrirão um novo caminho de construção de seu futuro. Os movimentos que já estão ocorrendo em todos os quadrantes do planeta revelam, não apenas uma profunda e crescente indignação em relação aos rumos - ou melhor, à falta de rumos - que vêm sendo impostos ao mundo, mas também uma tentativa de trilhar um novo caminho.

Mesmo entre os que haviam aderido a esses tempos obscuros que elegeram um mercado inexistente, isto é, uma quimera, como o deus do momento, já cresce a convicção de que, sem o Estado, não se vai a lugar algum. Na reunião do G-7 de 1997, destacaram-se dois temas: a necessidade de políticas de combate ao desemprego e de controle da especulação financeira mundial, certamente a serem implementadas pelo Estado. O FMI, por sua vez, estuda a criação de um imposto para regular o movimento internacional do capital especulativo. Em sua reunião com o Banco Mundial, de abril de 1998, esse tema ocupou o centro do debate. Igualmente, o banco central dos bancos centrais, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede na Suíça, exigiu em seu relatório anual divulgado em junho de 1998 uma maior regulação dos mercados financeiros. Até o megaespeculador George Soros, talvez apavorado diante da perspectiva de perder tudo, tem advertido contra os prejuízos da ausência de controle para o movimento especulativo internacional.

Não é um mero acaso que, depois de haverem decretado a morte de Keynes, esses adoradores do mercado agora ressuscitam a antiga tese keynesiana de que se deveria impor freios, "em primeiro lugar, à movimentação livre dos capitais financeiros na órbita internacional" (cit. in Belluzzo, L.G. O novo papel do estado frente à globalização, Recife, Sudene, 1997, p.87). A crise cobra seu preço e faz a realidade se impor sobre os arremedos de ideologia construídos sem qualquer fundamento no mundo real.

Na realidade, até esses adoradores do mercado nunca abdicaram do papel do Estado. O problema é que o têm usado, não para alavancar a economia real, mas para aumentar e proteger a riqueza financeira dos especuladores, como foi o caso do PROER adotado pelo governo de FHC no Brasil.

O programa adotado no Japão - investimento público, redução de juros, redução de impostos de empresas produtivas, aquisição de ações dos bancos, desvalorização da moeda - indica uma direção mais próxima de um caminho capaz de abrir um novo horizonte de desenvolvimento. O problema é que, ao não criar um dique contra a especulação financeira global em que se meteram os bancos e as grandes empresas do país, essas medidas terminam desaguando em mais dinheiro nas burras dos especuladores. Para controlar essa sanha especulativa, não basta, portanto, reduzir os juros, injetar dinheiro na economia ou adquirir ações dos bancos privados, pois eles usam esses recursos para aplicar no mercado financeiro internacional. Parece que o governo japonês começa a dar-se conta dessa verdade, ao decidir criar um banco público, com capital de US$ 125 bilhões, para garantir o financiamento das indústrias tidas como saudáveis e assumir o controle de parte dos bancos em dificuldades. Além disso, segundo o jornal inglês "Financial Times", cresce no partido governista japonês (PLD) a convicção de que se deve controlar a saída de capitais do país. O deputado Yuji Tsushima declarou ao jornal: "a maioria dos parlamentares do PLD sente que há necessidade de controles sobre a saída de capital para evitar um círculo vicioso de desvalorização da moeda".

Isso prova que só os Estados nacionais que conseguirem controlar, efetivamente, seu sistema financeiro (em lugar de serem controlados pela oligarquia financeira, como atualmente) poderão construir um dique contra a especulação. O saneamento financeiro que daí se derivaria teria, ademais, a faculdade de liberar o Estado da imensa carga financeira a que vem sendo submetido, além de liberar os recursos para o investimento produtivo. E ainda com a vantagem do desaparecimento da oligarquia financeira, coisa que, aliás, certamente ninguém lamentaria, pois se trata de um setor de classe que já não tem qualquer função social, vivendo do parasitismo sobre o conjunto da sociedade.

A saída, portanto, é mais, e não menos, Estado. O Estado não realizará a salvação definitiva do capitalismo - até porque isso é impossível -, mas permitirá que ele possa seguir funcionando pelo tempo que lhe resta, ao mesmo tempo em que ajudará a preparar dias melhores. O keynesianismo - isto é, a ação do Estado sobre a economia -, como necessidade intrínseca do capitalismo, antes e agora, não morreu, como apregoaram os arautos do caduco neoliberalismo. A realidade, ao contrário, exige mais keynesianismo, uma espécie de ultrakeynesianismo, já que os Estados nacionais, hoje altamente endividados, só poderão voltar a cumprir seu papel se controlarem seus respectivos sistemas financeiros.

Além disso, dados os riscos inerentes às pesquisas nas áreas de tecnologias de ponta, que afugentam as empresas privadas, só o Estado poderá bancar os investimentos necessários às novas descobertas e, portanto, aos avanços tecnológicos indispensáveis à retomada do crescimento. E só a ação estatal consciente e planejada poderá, também, fazer com que os avanços tecnológicos e os recursos existentes e a serem criados - hoje esterilizados na especulação financeira e na corrida armamentista - possam ser canalizados para o desenvolvimento da produção e para o desenvolvimento do ser humano, isto é, para o bem-estar da Humanidade. Em suma, fazer a economia voltar-se a favor do ser humano, e não contra ele, como ocorre nestes tempos de domínio dos monopólios e da oligarquia bélico-financeira.

Em suma, o mercado está desaparecendo e seu lugar está sendo ocupado pelos monopólios, que, em sua sanha de enriquecimento a qualquer custo, estão comprometendo o futuro da Humanidade. Chegou o momento de o Estado, como instrumento da consciência coletiva, ocupar o lugar dos monopólios e iniciar a construção de um novo mundo.

Só a ação estatal, por não estar limitada pela ganância do lucro, será capaz de canalizar para a produção a imensa massa de recursos excedentes que existem hoje no mundo e ao mesmo tempo fazer desabrochar o imenso potencial tecnológico já acumulado, permitindo um amplo processo de desenvolvimento econômico e garantindo, a partir daí, uma melhora substancial do bem-estar da Humanidade. A tecnologia será utilizada, não para desempregar o trabalhador e trazer mais tormentos para suas famílias, mas para garantir a melhoria de seu padrão de vida. Sendo um Estado da maioria e não de um punhado de magnatas das finanças, como sucede hoje, ensejará um amplo processo de democratização da sociedade. E, assim, seriam liberadas as amarras, expressas na ganância de uns poucos parasitas, que estão bloqueando um amplo processo de desenvolvimento econômico, social, político e cultural da Humanidade.

Vimos, por outro lado, que, em sua busca ensandecida de monopolizar os mercados, as fontes de matérias primas e a força de trabalho do mundo, a oligarquia financeira dos países centrais está promovendo a devastação das nações menos desenvolvidas, ao mesmo tempo em que fortalece seu próprio Estado nacional, que pretende transformar em Estado de toda a região que quer monopolizar. Esse processo, se num primeiro momento vem a favorecer os monopólios dos países centrais, termina por prejudicar o conjunto da economia mundial, na medida em que, ao destruir as economias menos desenvolvidas, estrangula ainda mais o já limitado mercado mundial.

Um desenvolvimento duradouro, que beneficie os povos do mundo, exige, portanto, o fortalecimento das nações do Terceiro Mundo, e não o seu desaparecimento, como querem os apóstolos do neoliberalismo. Isso significa reconstruir as bases econômicas nacionais - indústria, estatais, empresas nacionais, institutos tecnológicos, etc. - que estão sendo destruídas por essa sanha dos cartéis imperialistas. Não se trata, evidentemente, de isolar cada nação do resto do mundo. O que leva ao isolamento é precisamente a política de destruição das nações mais débeis, pois, certamente, é impossível a confraternização do lobo com o cordeiro. O justo anseio de aproximação dos povos passa pelo fortalecimento - e não pelo debilitamento - de suas nações. Só nações fortes podem realizar um justo intercâmbio entre si, o que será uma importante mola propulsora do desenvolvimento.

O fortalecimento das nações mais débeis e de seus respectivos Estados, isto é, o fortalecimento dos Estados nacionais, é um instrumento decisivo para a construção da nova etapa do desenvolvimento. Isso só não interessa aos parasitas que dominam o capital financeiro especulativo dos países centrais, que querem dominar o mundo a partir de seus próprios Estados nacionais. O isolamento crescente dessa oligarquia e a crescente consciência e unidade dos povos, que já vêm ocorrendo nesse período de putrefação da ordem imperial de pós-guerra, é a base fundamental para a construção de um novo mundo. A contradição do mundo de hoje é esta: de um lado, a Humanidade e, de outro, a moribunda oligarquia bélico-financeira especulativa que parasita o mundo; em suma, entre a vida e a morte.

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