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A luta da Humanidade contra o neocolonialismo (II)

Nesta segunda parte do seu artigo A luta da Humanidade contra o neocolonialismo, o economista Nilson Araújo de Souza, presidente do Instituto do Trabalho Dante Pellacani, afirma que "se esgotam as bases econômicas para manter uma situação em que a economia do mundo tem de sujeitar-se a produzir para alimentar um pequeno núcleo de parasitas, enquanto milhões morrem de fome. Nunca, no passado, o imperialismo, para sobreviver, teve de praticar uma política de devastação tão arrasadora como a atual". Segundo Nilson, "as lutas dos povos contra o processo de recolonização dos seus países anunciam o fim de um regime anti-social que já morreu e só falta ser sepultado, a fim de liberar a Humanidade da opressão a que é submetida e criar as condições para que ela conquiste sua efetiva emancipação"

NILSON ARAÚJO DE SOUZA

Na Coréia do Sul, a política entreguista do governo títere de Kim Young Sam levou o país à ruína. No período recente, as manifestações pela reunificação com a República Popular Democrática da Coréia foram as maiores de todos os tempos. Em dezembro de 1997, realizou-se uma greve geral contra a "lei das demissões facilitadas" imposta pelo FMI, que foi a maior greve geral dos últimos dez anos. Em junho de 1995, o governo havia perdido as eleições nas principais prefeituras, inclusive na capital, Seul. E, em 1997, foi fragorosamente derrotado nas urnas pelo oposicionista Kim Dae Jung, que havia amargado prisão nos cárceres da ditadura e que apresentava, como um dos principais pontos de sua plataforma política, a luta pela reunificação coreana. A mobilização popular, incluindo uma greve geral dos trabalhadores, continuou depois da posse do novo presidente a fim de se contrapor à pressão do FMI para a adoção de seu programa desnacionalizante, recessivo e gerador de desemprego.

A reunificação da Coréia é o grande sonho do povo coreano do norte, do sul e de ultramar. Antes de morrer, o líder da libertação do país do jugo nipônico, Kim Il Sung, formulou dez pontos com vistas a orientar esse processo, que propugnam, no essencial, as idéias de "um país, dois sistemas" e de independência nacional. A Coréia unida certamente converterá esse país num dos mais fortes e prósperos da Ásia. A Coréia do Norte, apesar de muito castigada pelas recentes secas e inundações, que têm devastado suas colheitas (diga-se que só 15% de seu território são cultiváveis), tem uma indústria bastante desenvolvida, que foi construída ao longo de cinco décadas de desenvolvimento independente. Sua indústria pesada é, seguramente, uma das mais avançadas da região. O país conta também com uma base educacional bastante desenvolvida e um importante desenvolvimento científico e tecnológico.

Derrubar o muro que separa as duas Coréias, construído, mantido e vigiado pelos EUA, é tarefa primordial de seu povo, mas que conta com a simpatia e apoio de todos os povos do mundo. Com a vitória de Kim Dae Jung no sul, as negociações já foram retomadas e todas as condições estão dadas para o seu sucesso. Até porque a postura do governo norte-americano, que sempre foi o principal obstáculo à reunificação, tem estado mais branda durante a administração Clinton.

A economia filipina afundou a partir de julho de 1997. Foi o resultado da política entreguista implementada pelo presidente Fidel Ramos desde o ano anterior. Eleito em 1992, chegou a apresentar posturas avançadas, como, por exemplo, ao anistiar os guerrilheiros comunistas e muçulmanos. No entanto, a partir de 1996, começou a abrir as portas do país para os produtos e capitais estrangeiros, entregando, inclusive, a indústria petrolífera e deflagrando um importacionismo desvairado na área de produtos agrícolas, que arrasou a agricultura local. Combinou-se, então, uma enorme vulnerabilidade externa com uma crise de abastecimento de gêneros alimentícios, que explodiu em 1997. Nesse clima, o presidente tentou um golpe reeleitoreiro, mas foi barrado nas ruas por uma manifestação de mais de 500 mil pessoas. Em maio de 1998, seu candidato à presidência foi massacrado nas urnas, obtendo não mais que 16% dos votos.

Um outro dos novos "tigres asiáticos", a Malásia, depois de afundar sua economia no desastre neoliberal, começou a reagir. Seu primeiro-ministro, Mahathir Mohamad, depois de desancar os "especuladores de moeda" e de criticar o FMI por impor "condições tão severas aos países da Ásia que acabam impedindo a recuperação de suas economias", adotou um programa econômico radicalmente diferente das receitas preconizadas por esse órgão. Através da centralização do câmbio, da restrição da conversibilidade da moeda local, o ringgit, do bloqueio a transformar em dólar o produto da venda de ações nas bolsas, além de outras medidas semelhantes, o governo pretende impedir que os especuladores sigam promovendo ataques especulativos ao país. Antes de mudar de orientação, o premier havia derrubado a direção do Banco Central, que, como se sabe, tem sido antro de abrigo dos representantes dos especuladores.

Nem a mais longa e violenta ditadura da face da terra, a de Suharto, que, há 32 anos, massacrou 1 milhão de pessoas e deteve na Indonésia o processo de construção de uma economia independente, que vinha sendo dirigido, desde 1949, pelo líder da independência do país, Sukarno, nem essa ditadura conseguiu sobreviver à sua recente adesão ao neoliberalismo. Como esse país, em face das políticas neoliberais que vinha adotando, também foi levado à insolvência pelo vendaval financeiro que varreu o sudeste asiático a partir do segundo semestre de 1997 (o poder de compra de sua moeda foi literalmente pulverizado), o ditador Suharto terminou submetendo o país ao programa do FMI, que impõe, entre outras coisas, a entrega de suas principais empresas ao capital estrangeiro, a redução dramática de suas tarifas de importação e o aumento dos juros e dos preços e tarifas públicas.

Os protestos contra essas medidas, que passaram a ocorrer quase que diariamente desde o início de 1998, foram, inicialmente, puxados pelos estudantes, mas se tornaram cada vez mais massivos, com o engajamento de outros setores da sociedade. O país se sublevou. E formou-se, para comandar a luta e exigir a renúncia do ditador, o Conselho do Mandato Popular, reunindo líderes estudantis; a líder oposicionista e filha do líder da independência Sukarno, Megawati; o líder muçulmano Amien Rais, da sociedade Muhammadiyah; ex-ministros, generais e brigadeiros da reserva. No final, até generais das forças armadas, o presidente do subserviente parlamento do país e o próprio partido que Suharto havia criado para sustentar a ditadura, o Golkar, pediram a renúncia do ditador. No dia 20 de maio, depois de mais um dia de intensos protestos, ele entregou os pontos e renunciou.

Desponta na região a pujança econômica da República Popular da China, que obteve em 1º de julho de 1997 uma importante vitória, com a reintegração de Hong Kong, que havia sido surrupiada pelo império inglês, durante as chamadas guerras do ópio no século passado. Essa reunificação permite que a China, que vem crescendo a um ritmo acima de 10% ao ano desde 1979, passe a ter um peso ainda maior na arena mundial. Se medido pelo poder de compra interno de sua moeda, e não pela taxa de câmbio em relação ao dólar, seu PIB já é equivalente ao do Japão. Suas reservas cambiais depois da reintegração de Hong-Kong, em torno de US$ 230 bilhões, já superam as do Japão, que eram as maiores do mundo.

Mantendo, no fundamental, em mãos do Estado a propriedade dos meios de produção, a RPC permitiu a instalação de empresas privadas em determinadas áreas previamente selecionadas, com o objetivo de gerar capacidade exportadora a fim de viabilizar a importação de máquinas, equipamentos e tecnologias mais modernas que ainda não possuía. Essas empresas pertencem, no fundamental, aos próprios chineses: 62% de todos os investimentos estrangeiros na China provêm de Hong Kong, que acaba de se reincorporar ao país (cf. MITI, Nomura Research Institute, 1994), e não se disseminam por toda a economia; ao contrário, concentram-se em Zonas Econômicas Especiais, como as de Shenzen, Shuhai, Shantou e Xiamen, que ficam próximas a Hong Kong, Formosa e Macau, que já integram ou virão a integrar a grande nação chinesa.

Evidentemente, não se trata de um "socialismo de mercado", coisa impossível de existir. Até porque o mercado, como vimos anteriormente, além de tender a desaparecer no próprio capitalismo, é incompatível com o avanço do socialismo, que exige, não o uso da anarquia mercantil, mas da consciência coletiva na sua regulação econômica. O que ocorre na China é algo semelhante ao que Lenin propôs na URSS na década de vinte: é a utilização pelo socialismo, em sua fase inicial e de forma transitória, de determinados mecanismos mercantis em áreas em que esse recurso ainda pode favorecer o desenvolvimento das forças produtivas.

Essa expansão acelerada da economia chinesa favorece a mudança do panorama político na Ásia e, certamente, também ajuda na melhoria da correlação de forças mundiais a favor da independência, do progresso e do socialismo.

As lutas travadas pelo povo árabe, em que se destaca a tenaz resistência dos iraquianos liderados por Saddam Hussein e dos palestinos vanguardeados por Yasser Arafat, produziram uma importante conquista no período recente: a constituição da Autoridade Nacional Palestina. Mesmo que ainda não signifique a constituição do Estado Palestino, é um importante passo nesse sentido. A despeito da resistência da direita israelense, representada por seu atual primeiro-ministro, tudo indica que, já em 1999, será criado o Estado Palestino. Até a primeira-dama dos EUA, Hilary Clinton, declarou-se a favor desse Estado em recente entrevista à imprensa. A recusa do governo israelense em cumprir os acordos nesse sentido está levando a grandes mobilizações dos palestinos que vivem nos territórios ocupados. Os enfrentamentos com a polícia e o exército israelenses têm sido diários durante este ano de 1998. Em maio, por ocasião do 50º aniversário da al-Nakba, dia da expulsão dos palestinos de suas terras e da criação do Estado de Israel, 1 milhão de palestinos foram às ruas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em defesa do Estado Palestino e da retirada israelense dos seus territórios.

Demonstração do avanço das lutas na região é o fato de que a política belicista e truculenta da direita israelense, representada atualmente por Benyamin Netanyaho, tende a se isolar cada vez mais dentro do próprio Israel. Cada vez mais, cresce entre o povo israelense o sentimento de que é melhor buscar uma convivência pacífica com o povo árabe e, em particular, com os palestinos, do que, em nome de uma suposta autodefesa, seguir servindo de instrumento do imperialismo na região. Tudo aponta para uma vitória eleitoral, nas próximas eleições, dos setores que procuram um acordo com o mundo árabe, representados pelo Partido Trabalhista.

A resistência do povo iraquiano é inédita. Em 1991, teve sua economia e sua infra-estrutura praticamente dizimadas pelos criminosos bombardeios norte-americanos. Foram jogadas bombas com potencial destrutivo maior do que os bombardeios realizados sobre a Alemanha na segunda guerra mundial. Mesmo assim, o imperialismo, depois de batido na histórica batalha de Basra, teve que admitir a derrota em seu principal intento: derrubar o governo de Saddam Hussein.

Depois disso, o Iraque vem sendo submetido a um cruel bloqueio externo, que o impede de comprar até remédios no exterior. Essa agressão imperialista, que tem vitimado milhares de crianças, tem sido repudiada por constantes e massivas manifestações populares. A última delas, ocorrida em 26 de abril deste ano, contou com a participação de 300 mil pessoas. Menos de dois anos antes, no final de 1996, Saddam Hussein era reeleito presidente com 98% dos votos. A reconstrução econômica também tem caminhado rapidamente. A infra-estrutura foi praticamente toda reconstruída, a produção industrial vem crescendo, avança a substituição de produtos importados por produção interna e o país caminha para a auto-suficiência na produção agrícola. Durante esse período especial, o governo garante uma cesta básica para todas as famílias.

Uma grande conquista dessa resistência iraquiana é a desmoralização crescente da "ordem mundial" dos EUA. Além de não haver conseguido derrubar Saddam Hussein, que era seu objetivo maior, o governo norte-americano não tem mais conseguido unir as demais potências imperialistas para novas tentativas de agressão ao Iraque. Isso permitiu que a ONU, que vinha sendo basicamente um instrumento da política imperial dos EUA, pudesse recuperar, pelo menos em parte, sua autonomia, como ocorreu com as negociações patrocinadas pelo secretário-geral da Organização, Kofi Anan, a propósito das últimas tentativas do setor belicista dos EUA no sentido de voltarem a bombardear o Iraque. Esse setor também não conseguiu apoio, entre os demais membros do G-7, para sua política de retaliação da Índia, depois que o governo desse país realizou alguns experimentos nucleares.

A Líbia de Muammar Khadhafi também resiste às agressões e ao bloqueio econômico imposto pelos EUA. Demonstração disso vem sendo a construção acelerada, apesar do bloqueio, de um rio artificial que deverá percorrer 4.200 quilômetros das escaldantes areias do deserto e está convertendo importantes áreas costeiras do país em campos férteis e verdejantes, o que permitirá não apenas a auto-suficiência alimentar do país, mas, inclusive, a exportação de grãos para outros países da região.

Além disso, o governo líbio conquistou importantes vitórias no plano internacional. Em primeiro lugar, a Corte Internacional de Haia, órgão vinculado à ONU, aprovou sua competência, que fora solicitada pela Líbia, para julgar os dois cidadãos líbios que os EUA e a Inglaterra acusam de haver explodido, em 1988, em Lockerbie, Escócia, o jumbo da Panam. Apesar das evidências de que a bomba fora colocada por agentes da CIA, os governos dos EUA e da Inglaterra insistem em acusar, e querer julgar em seus próprios tribunais, os cidadãos líbios. Como o governo líbio se recusa, justamente, a entregá-los para "julgamento" num tribunal parcial, mantêm um odioso bloqueio econômico ao país, além de haver tentado assassinar Khadhafi com um criminoso bombardeio em sua residência, que terminou vitimando uma filha sua. Em segundo lugar, muitas empresas européias estão passando por cima da "lei" D’Amato, que visa impedir que empresas estrangeiras invistam mais de US$ 30 milhões na área de energia na Líbia. Por último, revelando o isolamento dessa política arrogante do império norte-americano, Nelson Mandela esteve em recente visita ao país, e a Liga Árabe e a Organização da Unidade Africana declararam apoio à Líbia, sendo que a OUA realizou nesse país uma das suas últimas reuniões.

Certamente, o principal acontecimento na África, no período recente, foi o fim do apartheid na África do Sul. A realização, em 1993, das eleições vencidas por Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano, a aprovação da primeira constituição democrática que permitiu a expressão política da maioria negra e a passagem, em maio de 1998, do comando das Forças Armadas para as mãos dessa maioria representaram a formação do poder popular capaz de mudar o destino do país. Isso não se refletiu, ainda, nas indispensáveis transformações econômico-sociais, mas criou as condições necessárias para essas transformações. A visita recente do presidente Clinton ao país, que reconheceu o significado da luta patriótica de Mandela, foi importante demonstração do respeito que o povo sul-africano granjeou no mundo.

Os acordos obtidos com a guerrilha contra-revolucionária, que a forçaram a depor as armas, em Angola e Moçambique, também representaram um importante avanço nas lutas do povo africano. Ao mesmo tempo, a Frente Patriótica derrotou, em Ruanda, em 1995, o regime genocida apoiado pela França, que havia massacrado cerca de um milhão de oposicionistas. No Zaire, a guerrilha liderada por Laurent Kabila, que iniciara sua luta desde o início dos anos sessenta, depôs, em maio de 1997, o ditador Mobutu Sesse Seko, anunciando o renascimento da República Democrática do Congo, fundada por Patrice Lumumba, assassinado pela CIA no começo dos anos sessenta. Logo depois, em outubro de 1997, levante popular liderado por Nguesso derrubava o governo títere na irmã República Popular do Congo.

Todos esses acontecimentos pelo mundo afora revelam o esgotamento da "onda direitista", isto é, neoliberal, que, no vácuo da derrubada do socialismo na URSS e no leste europeu, havia varrido o mundo anteriormente. Com base em mobilizações populares desencadeadas em todos os continentes, chegaram ao poder forças políticas que, de alguma forma, galvanizaram a indignação e o sentimento de mudança desses povos. Isso não significa que, necessariamente, essas forças políticas fossem portadoras de um caminho novo que rompesse com o descaminho neoliberal que vinha sendo implementado em todas as partes do planeta.

Na verdade, no fundamental, elas possuem uma orientação social-democrata. Essa posição tem se caracterizado, desde o começo do século, por tentar compatibilizar a manutenção do capitalismo com a realização de algumas reformas sociais. Foram os partidos com essa orientação que, depois da segunda guerra, pressionados pelo avanço do socialismo em várias partes do mundo e pelas lutas trabalhistas, procuraram proporcionar algumas conquistas sociais aos trabalhadores europeus, constituindo o que se passou a chamar de "Estado de Bem-Estar". No entanto, a pressão imperialista recente pelo desmonte dos direitos sociais terminou envolvendo a vários desses partidos, que chegaram, inclusive, a patrocinar diretamente esse desmonte, como ocorreu na Espanha ou no norte da Europa. Também, no fundamental, eles foram ganhos pela ideologia neoliberal.

A desagregação econômica e social implementada pelas políticas neoliberais, impostas pela oligarquia financeira dos "três grandes" em disputa pelo mercado mundial, terminou levando amplas massas da população mundial a se contrapor, ainda que sem uma consciência clara de um caminho alternativo, com essa trajetória de destruição. À falta de alternativas políticas mais conseqüentes, já que forças mais progressistas perderam totalmente o rumo com a derrubada do socialismo na URSS e no leste europeu, a indignação popular acabou por se expressar politicamente na oposição mais à mão, representada por esses partidos de orientação social-democrata. Os povos vêm usando esses partidos para expressar seu protesto contra o descalabro econômico e social de seus países.

Esses partidos, por sua origem, têm algum grau de relação com os trabalhadores de seus países e podem, por conseguinte, deixar-se influenciar pelo drama que vivem as massas trabalhadoras no momento atual, que se condensa no desemprego, no arrocho salarial e na perda dos direitos sociais. Assim, mesmo que ainda mantenham a intimidação diante do neoliberalismo, e terminem por praticar políticas com essa orientação ao chegarem ao poder, têm que assumir, até por razões de sobrevivência, a defesa dos direitos trabalhistas e do emprego. Algo impossível de compatibilizar com os programas de desmonte econômico e social patrocinados pelo neoliberalismo. Até onde conviverão com essa contradição, é difícil de se prever. Mas, como a ideologia neoliberal e seus programas estão desmoronando pelo mundo inteiro, não se pode descartar a possibilidade de avanços importantes por parte desses partidos.

A recente decisão do parlamento francês, por proposta do governo de Jospin, de reduzir a semana de trabalho de 39 para 35 horas, a vigorar a partir do ano 2000, se choca claramente com o programa neoliberal, na medida em que este assenta boa parte da sua busca de "competitividade" no desmonte dos direitos sociais, como forma de viabilizar a redução de custos.

Igualmente, a decisão do Parlamento Europeu, por 480 votos a 8, contra os termos do esboço de acordo ("Acordo de Investimento Multilateral") que, nos marcos da OCDE, pretende derrubar qualquer barreira à entrada do capital estrangeiro, inclusive com punição para os que não se submeterem a esse domínio estrangeiro exacerbado, constitui também uma reação, desta vez em bloco e de uma região mais desenvolvida, ao neoliberalismo decadente.

Até no império norte-americano, começam a ocorrer fatos de grande importância para o avanço das lutas dos povos. Não havendo conseguido impedir que Clinton chegasse ao governo, a direita mais raivosa dos EUA tem conspirado diuturnamente para derrubá-lo, recorrendo principalmente a mexericos sobre sua vida sexual, como se uma certa infidelidade não fosse uma espécie de tradição entre os ocupantes da Casa Branca, de ambos os sexos. Como diz o ditado popular, isso ocorre até nas melhores famílias de Londres. No entanto, dado o enorme prestígio popular de que desfruta o presidente Clinton, a direita não tem conseguido sucesso em seu intento.

Clinton, de certa forma, deixou-se intimidar pela pressão desses setores, como se revelou no corte de certos gastos sociais, na ameaça de voltar a bombardear o Iraque, no bombardeio covarde a uma fábrica de medicamentos no Sudão e no pedido do "fast track" (via rápida) para obter carta branca a fim de acelerar a constituição da ALCA. Mas isso não nega que tem, no essencial, tentado praticar uma política externa baseada na negociação, e não no "big steak" de Reagan e Bush. Terminou sendo assim no desfecho da crise com o Iraque no primeiro semestre de 1998, quando o secretário-geral da ONU obteve um acordo que respeitou os direitos iraquianos; processo semelhante ocorre com Cuba, na medida em que o governo de Clinton tem adiado a execução das cláusulas mais draconianas da "lei" Helms-Burton, que tenta reforçar o bloqueio através de punições a empresas ou pessoas de qualquer país que negociem com Cuba; é o caso também do processo de construção do Estado Palestino, em que a política do governo norte-americano procura, na prática, isolar o belicismo fascista da direita israelense; apesar de toda a pressão do "establishment" de seu país para enfrentar o Mercosul, quando veio ao Brasil, Clinton terminou por declarar apoio ao nosso mercado regional; no caso da extraterritorialidade da "lei" Helms-Burton, acabou negociando um acordo que exclui a Europa das arrogantes punições; e, finalmente, a despeito de toda a resistência da ultradireita norte-americana, encabeçada pelo Partido Republicano, que pretende isolar a China, Clinton realizou no primeiro semestre de 1998 importante visita àquele país, retomando a política de aproximação deflagrada por Nixon no começo dos anos setenta.

Cabe aqui o registro de que o Congresso norte-americano, ao rejeitar o "fast track", estava expressando o sentimento que cresce no país contra um projeto que seria a radicalização da aplicação das políticas neoliberais no continente americano, a criação da ALCA. Até parece contraditória essa decisão, na medida em que a ALCA favoreceria, fundamentalmente aos EUA, e não aos demais países, ao abrir os mercados da região para seus cartéis e, em decorrência, gerar mais emprego internamente. Na verdade, a central sindical norte-americana, a AFL-CIO, ao pressionar o Congresso contra o "fast track", não estava propriamente temendo a perda de empregos, já que os empregos que perderia pela eventual transferência de plantas industriais para outros países seriam mais do que compensados pelos que ganharia com o aumento das exportações. Seu temor, justificado, é outro. É que os cartéis usariam o fato de poderem instalar partes de suas plantas industriais em qualquer parte do continente, explorando a força de trabalho aviltada da região, com direitos sociais já em grande medida abolidos, para chantagear os trabalhadores norte-americanos a aceitarem condições semelhantes. É isso que já vem ocorrendo com a instalação das "maquiladoras" no norte do México e por isso os trabalhadores norte-americanos já começam a se movimentar contra o NAFTA.

É evidente que é melhor para o avanço das lutas dos povos que esteja à frente do governo dos EUA um dirigente que, em lugar da política de força, tenha que optar pela negociação, ao mesmo tempo em que leva em conta o crescente sentimento progressista de seu povo. Até Nixon, que vinha de uma tradição ultraconservadora, a do famigerado maccartismo, teve que agir de forma positiva na política exterior, num momento de grande avanço das lutas em seu país, particularmente contra a guerra no Vietnam. Esse comportamento, certamente, favorece a luta política dos povos. Não devemos, evidentemente, nos descuidar de que essa postura também pode favorecer a realização, de forma sorrateira, dos interesses imperialistas. Mesmo assim, é melhor para os povos travar nesse terreno a luta por sua emancipação.

De qualquer forma, a história deste século nos ensina que muitos dos processos de transformações mais profundas têm sido precedidos por um momento de transição em que personalidades ou forças reformistas, conciliadoras ou o que, no jargão político, se costuma chamar de moderadas têm tido um papel relevante. A chegada ao poder de forças desse tipo, nos principais países do mundo, pode ser, portanto, um significativo sinal de que transformações importantes estão por vir. O processo não é linear. Podem haver avanços e recuos, num país ou noutro, mas a tendência caminha na direção do progresso, até porque se esgotam as bases econômicas para manter uma situação em que a economia do mundo tem de sujeitar-se a produzir para alimentar um pequeno núcleo de parasitas, enquanto milhões morrem de fome.

Cabe, nestas circunstâncias, às forças mais conseqüentes, não jogar de volta, nos braços da decrépita oligarquia financeira, os social-democratas ou forças assemelhadas que podem se desprender da sua influência, mas, ao contrário, de ajudá-los a trilhar um caminho de independência e de construção de um mundo melhor. Certamente, nem todos conseguirão trilhar esse caminho, mas isso não deve desanimar aos que estão comprometidos, sinceramente, com os interesses mais sentidos da Humanidade: a construção de um mundo melhor e mais humano.

Um fato muito importante do período recente foi o ressurgimento do Movimento dos Países Não-Alinhados, que já cumpriu importante papel no passado. Depois de quase duas décadas sem muita ação política, realizou no começo de setembro de 1998, na África do Sul, uma importante reunião com a presença de representantes de 114 países, quando a presidência do Movimento foi entregue a Nelson Mandela, hoje, certamente, um dos principais líderes e estadistas do Terceiro Mundo.

Nunca, no passado, o imperialismo, para sobreviver, teve de praticar uma política de devastação tão arrasadora como a atual. Com isso, está esgarçando a própria estrutura social que o sustenta, em todas as partes do planeta. Chega ao ponto de tentar destruir estruturas produtivas em países que já conseguiram construir uma economia razoavelmente desenvolvida, como o Brasil, a Índia (esta possui a segunda maior indústria de computadores do mundo), a Rússia ou os "tigres" do sudeste asiático. Esses países, dado o grau de desenvolvimento a que chegaram, se liberados das amarras que os estão prendendo, podem experimentar um rápido e espetacular desenvolvimento econômico, social e político e assumir um importante papel no mundo. As tensões que nascem dessa contradição podem deflagrar, a qualquer momento, um processo revolucionário em qualquer desses países, com condições de repercutir profundamente no resto do mundo, fato que, certamente, provocará a passagem da atual situação de resistência para um período de ofensiva revolucionária. As condições objetivas estão dadas. O tecido está roto em muitas partes. Por onde o processo vai se iniciar, dependerá, basicamente, das condições subjetivas, isto é, do papel da vanguarda revolucionária.

O Brasil está entre os que reúnem as melhores condições para, no quadro atual da emergência dos conflitos interimperialistas, sustentar uma política independente, que não apenas garanta o desenvolvimento nacional, mas também favoreça a luta dos outros povos. Dispondo das maiores reservas de recursos naturais e da nona base industrial do planeta, além de um mercado interno que pode se estender rapidamente para mais de 160 milhões de habitantes, conta ainda com a existência de um mercado regional em processo de integração - o Mercosul -, que pode se consolidar e ampliar para o conjunto da América do Sul. Além disso, o Brasil reúne todas as condições para mudar radicalmente o eixo de suas relações comerciais externas, passando a concentrar-se na África do Sul, na China, na Índia e na Rússia.

A disputa eleitoral deste ano no Brasil eleva a luta para um novo patamar. A exacerbação da dominação externa durante este período recente, em verdadeiro processo de recolonização do país, fez com que a questão nacional passasse a assumir a centralidade da luta. O que está em julgamento é essa política neocolonial que vem sendo imposta ao país. A derrota dessa política entreguista encabeçada por FHC é a condição para a reconquista da independência econômica nacional e a conseqüente retomada do desenvolvimento econômico, social, político e cultural do país.

A construção de um Brasil independente certamente ajudará a desabrochar as energias em outras partes do mundo, favorecendo o avanço das lutas dos povos contra a opressão imperialista. Essas lutas anunciam o fim de um regime social - ou melhor anti-social - que já morreu e só falta ser sepultado, a fim de liberar a Humanidade da opressão a que é submetida e criar as condições para que ela conquiste sua efetiva emancipação. Com isso, a pré-história ficará para trás e se começará a construir a verdadeira história humana. Será o nascimento do homem novo.

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