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Al Gore: “Visão de Bush, além de errada, é anti-americana”

O candidato vitorioso nas eleições usurpadas por Bush faz uma serena, completa e perfeita síntese da natureza hostil aos interesses do país da ação de Bush. Houve quem dissesse que ele “atacou a integridade de Bush”. Não. Ele expôs fatos. Aliás, não se pode atacar o que não existe

Em palestra na Universidade de Nova Iorque, no útimo dia 7, o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, expôs o totalitarismo, a mentira, o uso do Estado em prol de negocistas, o desprezo pelo povo e a fraude que levou à agressão e ao rumo do desastre no Iraque. A seguir, os principais trechos.

Já havíamos afirmado que o pedido do presidente para autorizar uma guerra urgente, preventiva e unilateral no Iraque foi menos do que convincente e precisava ser questionado. Agora, à luz do que ocorreu desde então, podemos assumir que a coisa certa a fazer hoje é discutir o que nos levou a entrar em guerra.

A direção em que nossa nação está sendo levada é profundamente preocu-pante, não apenas no Iraque, mas aqui no país, no que diz respeito à política econômica e à política de meio ambiente.

Milhões de americanos agora compartilham do sentimento de que algo muito básico andou errado em nosso país e de que alguns valores importantes estão sendo colocados em risco. E esses milhões querem que as coisas sejam colocadas no devido lugar.

Os americanos deveriam poder trabalhar com os fatos colocados sobre a me-sa, poder falar sobre as alternativas antes de tomar uma decisão. Mas isso realmente não aconteceu com essa guerra – não na forma com deveria ter ocorrido -, e como resultado disso muitos de nossos soldados estão pagando o mais alto dos preços pelas falhas  estratégicas, sérios erros de julgamento e erros históricos que colocaram os EUA no caminho do dano.

 A GUERRA 

Vimos afimações de Bush como:

1 - Que Sadam estava prestes a construir bombas nucleares....e, uma vez que a única coisa que impediria Sadam de obter um arsenal nuclear era o acesso ao urânio enriquecido, e que nossos espiões perceberam que ele comprara a tecnologia necessária e estava tentando adquirir urânio na África, tínhamos pouco tempo disponível.

Portanto era imperativo – especialmente na última campanha eleitoral de outono – colocar de lado questões urgentes como a situação econômica e concentrar-se na aprovação, pelo Congresso, da guerra contra o Iraque.

2 - Que nossos soldados seriam recebidos sob aplausos por iraquianos de braços abertos, que os ajudariam a, rapidamente, estabelecer a segurança pública e, portanto, nenhum risco haveria para os soldados de serem atingidos por uma guerrilha urbana.

3 - Que, ainda que o resto do mundo majoritariamente se opusesse à guerra, todos seriam rapidamente enquadrados depois que vencêssemos e contribuiriam com mais tropas e dinheiro para nos ajudar, de forma que os contribuintes americanos não teriam de pagar uma conta gigantesca.

 A MENTIRA 

Agora, todos sabem que estas afirmações estavam mortalmente erradas.

Especificamente na questão nuclear, ficou comprovado que se tratavam de documentos forjados.

Quanto às multidões de ira-quianos, essas realmente não apareceram, e hoje os nossos soldados estão numa situação feia e perigosa.

Além disso, enquanto o mundo, como todos vêem, certamente não está aderindo ao nosso esforço de guerra do jeito que esperávamos, nossos contribuintes estão sendo onerados em um bilhão de dólares por semana.

Em outras palavras, quando colocamos tudo junto vemos que foi um erro depois de outro, uma afirmação errônea depois de outra. Muitas delas. E não apenas no que diz respeito à política externa. O mesmo está acontecendo na política econômica, onde temos outra confusão gigantesca e ameaçadora.

Estou convencido de que os erros também aqui são baseados em pressupostos que não são reais, como, por exemplo:

1 - Que os cortes de impostos liberariam uma grande quantidade de novos investimentos e poderiam criar muitos novos empregos.

2 - Que não precisaríamos nos preocupar com o retorno de novos e grandes déficits públicos, porque todo novo crescimento da economia causado pelo corte nos impostos levaria à entrada de muitas novas receitas.

3 - Que muitos dos benefícios iriam para as famílias de classe média, e não para os mais ricos, como diziam alguns contrários aos cortes.

Desafortunadamente também neste caso cada uma dessas crenças mostrou-se errada. Ao invés de criar empregos, por exemplo, estamos perdendo milhões de postos. Perdas acumuladas por três anos consecutivos, o que não acontecia desde a Grande Depressão.

E o que se vê é que a maior parte dos benefícios estão indo para os americanos de melhor situação, que infelizmente é o grupo que menos gasta dinheiro em termos de garantir a criação de empregos. A economia está fraca, e o desemprego está crescendo.

E, claro, o déficit orçamentário é o mais alto já visto, e com o pior ainda por vir. É de longe o mais perigoso, por duas razões: primeiro, não é temporário e tem aspectos estruturais e de longo prazo e, em segundo, tende a crescer ainda mais se mantida essa política.

O ganhador do Prêmio Nobel de Economia, George Akerlof, foi mais longe e em suas declarações na Alemanha afirmou que: ‘este é o pior governo que tivemos em mais de 200 anos de história’. Ao descrever o impacto da política de Bush no futuro da América, afirmou: ‘o que temos é uma forma de pilhagem’.

 A MANIPULAÇÃO 

Além de tudo isso, devido ao fato de que a dívida média pessoal é a mais alta de todos os tempos, muitos americanos estão vivendo no limite.

Parece óbvio que questões dessa grandeza e importância deveriam ter sido mais debatidas; esse desencontro entre mito e realidade de repente tem se tornado lugar comum e causa grande dificuldade de fazermos boas opções sobre o nosso futuro.

Quando nos perguntamos como pudemos haver tido tantas falsas crenças em tão curto tempo, lembro que todos estavam perguntando quem era o responsável – há um mês – pelas falsas declarações de Bush, e vemos hoje que ele próprio é o responsável, e, no ano que vem, é necessário que o povo o demita e coloque outro em seu lugar.

Não se tratam apenas de erros. Estamos diante de um esforço sistemático para manipular os fatos a serviço de uma ideologia totalitária, que para eles é mais importante do que as exigências básicas da honestidade.

Essa é a fonte comum para a frustração da saúde e da normalidade da vida democrática. O povo norte-americano acredita e quer preservar o direito de saber a verdade, e acredita no princípio básico de que a verdade nos libertará.

A administração de Bu-sh, de forma rotineira, mostra desrespeito por essas regras básicas, talvez por a-charem que a verdade lhes pertence e, portanto, não se interessam em estudar qualquer fato que os contradiga. Assim agem eles e os grupos que pertencem a essa ideologia.

 PROTOCOLO DE KYOTO 

Grupos e indivíduos poderosos e ricos que conseguem penetrar no círculo interno do poder – através de apoio e grandes contribuições financeiras – são capazes de adicionar seus próprios e estreitos interesses à lista dos objetivos favorecidos, sem que eles sejam sopesados ou sujeitos às regras da razão, nem verificados de acordo com o interesse público. E, quanto maior o conflito entre o que eles querem e o que é bom para o resto de nós, tanto mais se sentem impelidos a passar por cima dos procedimentos normais e mantê-los secretos.

Isso foi o que aconteceu quando o vice-presidente convidou a todos os executivos da indústria de gás e de petróleo a se encontrar em sessões secretas com ele para colocar os seus desejos no pacote legislativo enviado no início de 2001.

Quando aquele grupo quis se livrar do protocolo de Kyoto, a administração de Bush saiu fora dele imediatamente.

A lista das pessoas que os ajudaram a escrever a política atual de meio ambiente e energia ainda é secreta, e o vice-presidente se nega a dizer se a Halliburton, que anteriormente lhe pertencia, faz parte dela.

Aliás, como praticamente todo mundo sabe, a Halliburton foi agraciada com um gigantesco contrato (sem teto de valores) para tomar e dirigir os campos de petróleo do Iraque, sem precisar disputar com outras companhias através de licitação.

 AS EVIDÊNCIAS 

Em segundo lugar, devemos observar que quando líderes se decidem por uma política sem se sentir na obrigação de responder a duras questões sobre se ela é boa ou ruim para o povo americano como um todo, podem rapidamente entrar em situações em que se torna realmente desconfortável para eles defender o que fizeram com explanações simples e verdadeiras. É aí que se sentem tentados a confundir os fatos e criar falsas crenças e, quando os fatos começam a vir à tona e minam as crenças que tentavam manter, se sentem incentivados a esconder a verdade ou a distorcê-la.

Por exemplo, há duas semanas atrás a Casa Branca ordenou que sua própria agência de meio-ambiente cortasse importantes informações científicas sobre os perigos do aquecimento global de um relatório público. No lugar disso, subs-tituiram essas informações por outras parcialmente pagas pelo Instituto Americano de Petróleo.

 OS CARTÉIS 

Esta semana analistas do Departamento do Tesouro informaram a um repórter que estão sendo rotineiramente ordenados a mudar seus relatórios e suas análises mais acuradas sobre as conseqüências da política fiscal de Bush sobre o cidadão médio norte-americano.

Dessa forma, o que vejo é que o presidente está sendo seletivo e escondendo as melhores evidências do perigo que corremos no Iraque, do mesmo jeito com que intencionalmente distorceu as evidências de que se dispunha sobre as mudanças no clima, e rejeitou as melhores evidências acerca das ameaças que se colocam para a economia norte-americana, por causa das intenções de seu governo referentes a impostos e orçamento.

Em cada caso o presidente parece que escolheu políticas além dos fatos – políticas definidas para beneficiar amigos e apoiadores –, e usou a tática de negar ao povo norte-americano qualquer oportunidade de sujeitar seus argumentos ao tipo de escrutínio que é necessário ao nosso sistema de verificação e ponderação das decisões.

 ESPIONAGEM A LEITORES 

A administração de Bush desenvolveu uma máquina de propaganda com a capacidade de imbuir a mente do público da mitologia, que cresceu no centro de sua doutrina, de que todos os interesses particulares são concordantes e que – em sua forma mais pura – o governo é sempre algo muito ruim, e que deve ser afastado tanto quanto possível – exceto naquilo em que pode repassar dinheiro, através de grandes contratos, às indústrias que conseguiram penetrar no círculo interno do poder.

Pela mesma razão que eles incutem a crença de que governo é ruim, eles também promovem o mito de que não existe algo como interesse público. O que é importante, segundo eles, é o interesse privado. E o que eles realmente querem dizer é que aqueles que amealharam riquezas devem ser deixados em paz, ao invés de serem obrigados a reinvestir na sociedade, através de impostos.

Enfim, sejam quais forem as razões que levaram o presidente a cometer as recentes falhas, e pelas quais deve ser responsabilizado, a América tem uma necessidade premente de rapidamente respirar uma nova vida dentro do sistema gerado por seus fundadores, de verificação e ponderação, porque algumas decisões extremamente importantes sobre o nosso futuro estão para ser tomadas, e é imperativo que paremos de basear essas decisões em mais crenças falsas

Os procedimentos aparentemente caóticos com que os documentos forjados sobre o Níger foram manuseados, certamente evidenciam que há espaço para melhorar a forma como a Casa Branca está trabalhando com os memorandos da inteligência.

As comissões do Congresso devem ter acesso a todos os documentos sobre o assunto tratados na gestão anterior, e o presidente Bush deve permitir o acesso aos dcumentos que leu.

Depois de tudo, esse presidente se proclamou com o direito, e a seu gabinete executivo, de enviar seus assistentes para dentro de todas as bibliotecas públicas da América e monitorar secre-tamente o que todos nós estamos lendo. Essa tem sido a lei desde que o Ato Patriótico foi sancionado. 

Se nós temos que permitir uma tão vasta e extrema invasão em nossos direitos de privacidade em nome da prevenção do terrorismo, seguramente deve-se encontrar um caminho para que a Comissão Nacional possa saber como ele e seu staff trataram um alerta específico sobre uma ação, 36 dias antes de 11 de setembro.

 GOVERNO ANTI-AMERICANO 

E, ainda, por falar do ato patriótico, o presidente deve assumir o comando sobre John Ashcroft (procurador-geral) e parar com os grosseiros abusos dos direitos civis que foram duas vezes documentados por seu próprio Inspetor Geral.

A administração se apressou, desde o começo, a nos persuadir de que defender a América contra o terror não pode ser feito sem seriamente atropelar as garantias constitucionais dos cidadãos americanos, chegando até, e inclusive, a colocar estas garantias em uma espécie de  limbo, totalmente fora dos tribunais. Essa visão é, além de totalmente errada,  anti-americana.

Agora, a Administração quer que embarquemos em novos mitos como, por exemplo, o de que o Tratado Abrangente de Banimento de Testes Nucleares foi um esforço feito para produzir uma barganha entre os Estados possuidores de armas nucleares e todos os demais, que seriam instados a se refrear de desenvolvê-las.

Esta administração – com base nisso – rejeitou o tratado e, de forma incrível, embarcou em um novo programa de construção de menores (e, segundo acredita, mais utilizáveis) bombas nucleares. Na minha opinião, isso é verdadeira loucura, e o ponto de não retorno do tratado.

 INDÚSTRIAS DE PETRÓLEO 

De forma similar, o tratado de Kyoto seria um esforço histórico de impor uma grande barganha entre o capitalismo de livre-mercado e a proteção do meio-ambiente, agora gravemente ameaçado pela aceleração do aquecimento da atmosfera terrestre, e a conseqüente ruptura dos padrões climáticos que persistiram durante toda a história da civilização.

Essa administração tem tentado proteger as indústrias de carvão e petróleo de qualquer tipo de restrições, ainda que as decisões de Kyoto tenham se tornado legalmente efetivas para as relações globais, mesmo sem a participação dos EUA.

Redação

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