11ª Mostra de Cinema Italiano da UMES desafia o streaming e ensina que qualidade atrai público

Claudia Cardinale em “Os Indiferentes” (1964), de Francesco Maselli

Programação da Mostra Permanente homenageia Claudia Cardinale e promete oferecer ao público “um cinema verdadeiramente pulsante e livre”. “Prezamos mais pela qualidade dos filmes do que pela quantidade de público. E dessa forma, o público veio”, celebra a curadora Luisa Lopes

Todas as segundas-feiras, uma tradição se mantém no Cine-Teatro Denoy de Oliveira, no Bixiga. Desde 2016, o local sedia a Mostra Permanente de Cinema Italiano, promovida pelo Centro Popular de Cultura da UMES e que chega à sua 11ª edição em 2026, consolidando-se como um dos eventos mais relevantes da programação cultural da capital paulista.

Em entrevista à Hora do Povo, Luisa Lopes, que integra a equipe de curadoria da Mostra, afirma que o Cine-Teatro se transformou em um local para o público que busca obras de qualidade e complexidade narrativa. 

A edição deste ano é marcada por uma homenagem à atriz Claudia Cardinale, falecida em 2025, e traz uma programação de 39 filmes de 20 diretores, que vai dos clássicos da commedia all’italiana a raridades como o filme mudo “A Santanotte” (1922), com acompanhamento de piano ao vivo.

Luisa detalha como a mostra evoluiu para um evento tradicional da cidade e discute a importância de apresentar obras menos conhecidas do grande público, mas fundamentais, de ícones como Cardinale e Elvira Notari (a primeira cineasta italiana), e explica por que acredita que “o melhor do cinema italiano atual está sendo elaborado principalmente pelas mulheres”.

ANDRÉ SANTANA

Leia abaixo a entrevista:

A Mostra Permanente de Cinema Italiano acontece todas às segundas-feiras no Bixiga há 11 anos e sempre com a casa cheia. A que você atribui essa fidelização do público, ainda mais em um momento em que o streaming parece ocupar este espaço?

A cada ano, observamos uma procura maior pela nossa mostra, incluindo o público mais jovem, geralmente menos habituado ao espaço de cinema. Isso se deve, em parte, à dificuldade crescente de encontrar filmes clássicos, já que os serviços de streaming tendem a não priorizar esse tipo de conteúdo.

Além disso, as plataformas de streamings muitas vezes pecam pelo excesso de produções grandiosas em orçamento, mas de baixa qualidade no que se refere ao roteiro e à verdadeira diversidade que o cinema pode servir à sociedade. 

Quando falo em verdadeira diversidade, não me refiro apenas às diferentes culturas, mas também à variedade de linguagens cinematográficas, às narrativas e à complexidade de roteiros de um cinema verdadeiramente pulsante e livre. As plataformas de streaming têm atuado de forma a saturar o público com um conteúdo imenso de produções de pouca autenticidade e roteiros rasos. Acredito que nossa programação se tornou um refúgio para esse público. 

A edição deste ano é uma homenagem à atriz Claudia Cardinale, falecida em 2025. Além dos filmes mais famosos, a programação inclui títulos “menos conhecidos” da atriz. Como foi o processo para essa homenagem?

Quando Claudia Cardinale morreu, nós sabíamos que essa homenagem precisava ser feita. Cardinale foi uma das últimas representantes da era de ouro do cinema italiano, e atuou em alguns dos melhores filmes de todos os tempos. Nosso processo de curadoria define como um “clássico” não apenas os filmes mais populares mas também aqueles que, muitas vezes, não tiveram o merecido destaque no cinema mundial. É o caso, por exemplo, dos filmes de Francesco Maselli, “Os Indiferentes” e “Os Delfins”, ambos com Claudia Cardinale. “Os Indiferentes” é baseado no romance de mesmo nome do escritor Alberto Moravia, um dos grandes nomes da literatura italiana. Nele, Moravia faz uma crítica à burguesia italiana da década de 20, completamente esvaziada de sentido moral e, enfim, indiferente a qualquer acontecimento. O importante é manter os seus privilégios. 

Claudia Cardinale atuou em mais de 120 filmes, portanto, nossas homenagens ainda podem continuar por muito tempo.

Este ano haverá uma sessão especial do filme silencioso “A Santanotte” (1922), com acompanhamento de piano ao vivo. O que podemos esperar dessa sessão? 

“A Santanotte” é dirigido por Elvira Notari, primeira mulher cineasta da Itália. Ela possui mais de 60 longas-metragens e muitos curtas, e ficou conhecida também por ser a cineasta italiana que mais produziu até hoje. Esse é o primeiro filme silencioso que vamos exibir nesta mostra e acho que tudo isso torna essa sessão realmente especial. Para essa experiência ficar ainda mais bonita, uma composição original está sendo criada pela pianista Dudah Lopes para este filme. Com certeza, será uma noite inesquecível.

Serão 39 filmes de 20 diretores de diferentes gêneros e períodos da cinematografia italiana. Existem obras que você tem um carinho especial e queira destacar?

Nosso filme de estreia, “Uma Vida Difícil” retrata a vida italiana durante vários anos após a 2ª Guerra Mundial. Ele mostra a difícil escolha que uma pessoa precisa fazer para manter seus valores, em uma sociedade que preza pelo consumo, pela propaganda e cujo espírito se deteriora mais a cada instante. “Vermiglio” e “A Quimera” dão um gostinho da qualidade do cinema contemporâneo na Itália e, além disso, são filmes dirigidos por mulheres. Eu acredito que o melhor do cinema italiano atual está sendo elaborado principalmente pelas mulheres.

“Os Amantes de Florença” marca o início do fascismo na década de 20 e mostra que poucas pessoas notaram o perigo que estava por vir. Temos, claro, alguns queridinhos da commedia all’italiana, não só representada por Dino Risi mas também por Mario Monicelli e Pietro Germi.  

Como você vê a evolução da mostra ao longo desta primeira década? E, olhando para frente, quais são os planos ou desejos para as próximas edições?

A Mostra Permanente de Cinema Italiano deixou de ser uma mostra do bairro do Bixiga e se tornou uma Mostra tradicional de São Paulo. Nós crescemos porque nos envolvemos em um processo que é acima de tudo, coletivo e pensando no coletivo. Aprendemos muito sobre cinema italiano porque prezamos mais pela qualidade dos filmes do que pela quantidade de público. E dessa forma, o público veio. A programação de cinema do Cine-Teatro Denoy de Oliveira acompanhou esse crescimento e, em todas as nossas mostras, nos tornamos sinônimo de boa programação. Para os próximos anos, desejamos apenas continuar pensando, estudando e exibindo bons filmes para quem gosta de bons filmes. E não falo somente de filmes italianos…

SERVIÇO

11ª MOSTRA PERMANENTE DE CINEMA ITALIANO

02 de Feveiro a 30 de Novembro

Cine-Teatro Denoy de Oliveira

Rua Rui Barbosa, 323 – Bela Vista – São Paulo – SP

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