
A principal comemoração do 1º de Maio, esse ano, voltará a ser na Praça Campo de Bagatelle, Zona Norte de São Paulo, tradicionalmente realizada pela Força Sindical. Será, como sempre, desde que a Força Sindical foi fundada, em 1991, uma festa popular, comum como tantas outras, de fácil digestão, com sorteio de 10 carros da VW de São Bernardo (e da Alemanha), artistas requentados, sem necessariamente estarem interessados nas reivindicações do proletariado e do lupem proletariado, presentes.
A novidade, esse ano, é que, além da CTB, da UGT, da Pública, a CUT também vai participar, só que como convidada. Isso, depois do fracasso do ano passado, quando patrocinou um 1ª de Maio “engajado”, pelo menos na propaganda. Constrangido, o presidente Lula falou para 2 mil militantes, presentes por dever de ofício.
Tudo está redondo. As palavras de ordem – contra os juros altos, contra jornada 6 por 1, por trabalho igual salário igual, entre outras – não são problemas, visto que o público é mobilizado pelos artistas e, especialmente, pelo sorteio. Já os dirigentes sindicais, querem aproveitar a oportunidade, num período de vacas magras, para fotos e para falarem a um público de dezenas de milhares de pessoas. Os artistas participam na defesa do merecido cachê.
Daí, é que no dia seguinte tudo estará como d’antes no quartel de Abrantes. Qual é, então, o problema? Não tem problema. A Força tem razão. “Melhor isso, do que nada”.
Tem um porém. O mar não está para peixe. Nem para festinha descomprometida. A maioria das centrais parece que não se deu conta da gravidade do momento. O que, na prática, significa abandonar o governo (e os trabalhadores) à própria sorte.
A carestia dos alimentos está ficando insuportável e derrubando a popularidade do presidente. O salário mínimo é uma miséria. O emprego formal ficou raro. Metade da população, em idade de trabalhar, se vira com bicos, trabalho intermitente e nas plataformas, onde, para ganhar um salário de fome, cumpre uma jornada de 16 horas, sem direito algum.
O governo parece perdido, não tem dinheiro para nada. O ministro da Fazenda só pensa em cortar benefícios e investimentos. Haddad e Galípolo, presidente do Banco Central, usam o posto para garantir o pagamento dos juros aos rentistas. Em 2024, só de juros, o governo gastou quase R$ 1 trilhão, mais que o dobro dos orçamentos da Saúde, da Educação e do Bolsa Família somados. Enquanto o país está estagnado há décadas, se desindustrializando, o cartel dos bancos lucrou, no ano passado, R$ 100 bilhões.
As centrais vão deixar para lá? Fingir que não estão vendo? Que não é com elas? Justamente no 1º de Maio, vão perder a ocasião para denunciar o assalto aos cofres públicos?
É a oportunidade de ouro para realizar assembleias nas fábricas, afixar faixas, pintar os muros, fazer discursos e dar entrevistas. Há uma expectativa sobre o que as lideranças sindicais têm a dizer. E cabe ao movimento sindical a responsabilidade de virar esse jogo, de colocar o guizo no gato. A verdade está na flor da pele e não tem dia melhor que o 1ª de Maio para ser revelada. Aí sim, tanto esforço terá valido a pena.
CARLOS PEREIRA