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“Vender livros não é crime”, diz Mahmoud Muna, um dos donos de livraria palestina fechada pela polícia de Israel em Jesusalém em invasão que traz à memória os tragicos dias do ascenso nazista com a queima de livros em praça pública
“A polícia veio até a livraria com um mandado de busca – o que não lhe dava o direito de nos prender. Logo chegou novo mandado mudando a acusação de ‘incitamento’ para ‘perturbação da ordem pública’, com esta acusação eles já podiam nos prender”, relata Mahmoud Muna, proprietário da “Livraria Educacional”, em entrevista desta segunda-feira, dia 24, ao Jornalista Elias Feroz, para o portal The New Arab.
A invasão se deu no dia 9 de fevereiro e a polícia levou presos Mahmoud e seu irmão Ahmed. Eles ficaram detidos por 48 horas e depois colocados sob prisão domiciliar por mais cinco dias e ficaram proibidos de pisar na livraria por mais 20 dias.
“A polícia também confiscou 250 livros”, denuncia Mahmoud.
SOLIDARIEDADE
Logo se instalou uma campanha solidária à livraria e seus donos com a chegada de jornalistas, artistas, escritores tanto palestinos como israelenses. Segundo o seu diretor “inclusive uma livraria de Tel Aviv chegou a fechar as portas em greve de um dia exigindo a reabertura da livraria palestina, situada na Jerusalém Oriental.
Diante da campanha contra a razia policial, lembrando o ataque aos livros durante a ascensão do nazismo, a polícia permitiu a reabertura do espaço por irmãos de Mahmoud e os livros foram devolvidos, embora oito ainda continuem sob custódia, inclusive um livro infantil para colorir e trazendo histórias palestinas.
Entre os que protestaram contra o vandalismo policial israelense, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Michel Gherman, que coordena o Núcleo Interdisciplinar de estudos Judaicos.
“Importante livraria em Jerusalém oriental, instituição a qual devo muito da minha formação no tema Israel-Palestina, foi invadida, teve livros confiscados e o dono preso pelas forças de ocupação de Israel”, diz o professor.
“Uma livraria fechada pela polícia. Frequento ela desde 1994. Contra o fascismo, mais livros e muita força”, prossegue Gherman.
Fania Oz-Salzberger, que é historiadora e escritora israelense, professora emérita de história na Faculdade de Direito da Universidade de Haifa, também protestou: “Nas prateleiras da livraria há livros israelenses, desde Amos Oz a David Grossman. Eu continuarei a apoiar a família Muna. O diálogo com eles é a minha melhor esperança de paz”.
Como afirma o jornalista Elias Feroz, na sua matéria ao The New Arab intitulada “Vender livros não é crime: Donos da Livraria Educacional de Jerusalém falam depois da invasão policial e prisão”, “algo assim nunca aconteceu em mais de 40 anos desde que a livraria foi fundada, um lugar onde Mahmoud atua quase que por sua vida inteira, com seus irmãos Ahmad, Murad e Iyad, estes dois últimos se dirigiram à livraria para manter o negócio familiar vivo durante a prisão de Mahmoud e Ahmad”.
“É RIDÍCULO CHAMAR DE INCITAMENTO TERRORISTA A VENDA DE LIVROS”
“É ridículo este comportamento macarthista de designar a venda de livros como ‘incitamento terrorista’”, protesta o dono da livraria.
A escritora e jornalista, Olivia Snaije, que vive em Paris e já teve artigos publicados no Guardian e New York Times, também se manifestou contra a barbárie israelense em artigo intitulado “Livros, Eventos e Boa Vontade”, no portal Publishing Perspetives, no artigo a escritora conta um pouco da história da livraria que expressa a sua importância:
“Em 1984, Ahmad Muna – um professor nascido em Jerusalém e que estava trabalhando para a UNRWA [Agência da ONU para Socorro e Ações, fundada logo após a expulsão de centenas de milhares de palestinos de seus lares em 1948] – abriu uma livraria na rua Salah Ad-Dine, na Jerusalém ocupada. Ele a chamou de Livraria Educacional para reviver o nome com o qual o escritor Wadie Said, pai do professor Edward Said, e seu primo Boulos denominaram a livraria Companhia Educacional Palestina na mesma rua. Em 1984, no entanto, o uso da palavra Palestina em títulos de negócios havia se tornado ilegal e assim tiveram que tirar a palavra e a livraria acabou ficando com o nome de Livraria Educacional”.
Os Muna abriram uma segunda loja com um café, “que passou a ser um centro de encontros, diálogo, debates, troca de ideias”, como ressalta Mahmoud.
A livraria também ensejou a realizações de atividades, entre elas o Festival Kalimat de literatura Palestina, de 2018, quando “escritores e jornalistas viajaram de Jerusalém a Nablus, Ramallah, Belém e Haifa”.
A lista de livros accessíveis nas livrarias da família Muna chega a 1.600 obras, com foco, diz Mahmoud, em “história, política e identidade nacional”.
“Quando nós começamos o nosso trabalho”, diz ainda Mahmoud, “havia já uma quantidade enorme de livros sobre a Palestina publicados mundo afora e que não eram accessíveis no mercado israelense”.
A escritora Olivia Snaije coloca a prisão dos donos da livraria em contexto histórico. “Este ano marca o 77º aniversário do deslocamento em massa de palestinos, chamado de ‘Catástrofe’. Os choques recentes entre israelenses e palestinos foram tema de coletiva no dia 7 de julho do ano passado, pelo porta-voz do secretário da ONU, Farhan Haq, que disse: ‘O apelo atual para atender as necessidades de mais de 2 milhões de pessoas em território palestino ocupado conseguiu apenas 20% de fundos propostos”.
Mahmoud destaca que, com os Acordos de Oslo, em 1993, “personalidades internacionais e jornalistas foram chegando. Vimos o aumento da necessidade de literatura sobre a Palestina. Também havia a onda de novos historiadores israelenses que começavam a ser publicados, tais como Avi Shlaim, Benny Morris e Ilan Pappe. E havia um fosso quanto a isso no mercado pois as livrarias israelenses não traziam nada disso em suas estantes e nós começamos a importar livros em inglês.
PONTE ENTRE LEITORES E ESCRITORES
“Sempre mantivemos uma relação muito forte com leitores e escritores e nos situamos entre eles. Somos como uma ponte entre pessoas que escrevem livros”, diz ainda Mahmoud, “ e aqueles que os leem e nós facilitamos o espaço onde esta conversação acontece. Acadêmicos, jornalistas e estudantes se tornaram parte de nossa base de clientes, incluindo palestinos que chegam a 50% dos frequentadores que chegam querendo se educar sobre sua identidade. Os israelenses perfazem 10% da nossa clientela”.
É neste contexto, com Trump propondo expulsar os milhões de palestinos assolados por ano e meio de bombardeio, para seu delírio de uma “Riviera” sob cadáveres em Gaza, que Mahmoud afirma: “Nós sobrevivemos duas revoluções, Intifadas, um processo de paz frustrado, uma pandemia. As pessoas sabem que temos atravessado tempos difíceis. Temos solicitações de escritores pedindo para lançar seus livros conosco. Nossa esperança é devolver à sociedade aquilo que recebemos com livros, eventos e boa vontade”.