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OCTÁVIO ALVARENGA DE SOUZA*
Na noite de 11 de fevereiro, fui ao cinema assistir ao filme “Ainda Estou Aqui”, estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello. E que obra prima do cinema brasileiro. Todos os aplausos e prêmios são mais do que justos para esse filme, que retrata de maneira tão singular o período mais sombrio da história recente do nosso país.
Caso você leitor tenha chegado aqui sem ter conhecimento de qual o contexto do filme e o que ele retrata, trago um breve apresentação. A obra retrata a história do deputado Rubens Paiva, sua esposa Eunice e seus filhos, no contexto da ditadura militar que vigorou no Brasil entre 1964-1985. O filme foi inspirado na obra de mesmo nome escrita por Marcelo Rubens Paiva, um dos filhos do casal interpretado por Fernanda e Selton.
Rubens foi mais um dos milhares de brasileiros que tiveram como destino a morte, sem que os seus tivessem a chance de velar seu corpo, de saber o seu paradeiro, de entender em quais circunstâncias perdiam uma pessoa amada. A grande atuação do elenco nos permite imaginar a angústia da ausência, o medo de também ser preso, torturado e brutalmente assassinado que muitos familiares sentiram.
Sob a direção de Walter Salles, as interpretações de Selton Mello (Rubens) e Fernanda Torres (Eunice), levaram o filme ao posto de quinta maior bilheteria da história do cinema nacional. A produção tem recebido diversas premiações nos mais variados eventos de prestígio do mundo cinematográfico, inclusive concorrendo ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2025. Não é pouca coisa.
Este texto não pretende ser uma crítica cinematográfica, já que tecnicamente falando, não tenho condição alguma de fazer qualquer tipo de avaliação. Entretanto, enquanto jovem revolucionário, defensor da democracia e da cultura brasileira, diversas reflexões passaram pela minha cabeça e vou apresentá-las nas próximas linhas.
A construção do texto a partir daqui, será dividido em seções que serão construídas, individualmente, a partir de cenas ou elementos do filme que mais me chamaram a atenção e deram origem a reflexões importantes. Caso você, leitor, ainda não tenha assistido ao filme, informo de antemão que descrevo, ainda que superficialmente, algumas cenas.
“QUANDO VOCÊ ENTERROU ELE?”
A frase que dá o título a essa primeira seção proferida por Maria Beatriz Paiva, já adulta (interpretada pela atriz Olívia Torres), para o seu irmão Marcelo (interpretado por Antonio Saboia), querendo saber do irmão mais velho quando a ficha dele havia caído de que o pai não voltaria mais.
Essa pergunta me chamou atenção porque o luto é um processo natural do ser humano. Cada pessoa tem o seu processo de entendimento da perda de alguém, mas em situações dentro da normalidade, existe a possibilidade de você encerrar um ciclo com a existência física de uma pessoa. O velório e o sepultamento são as dolorosas oportunidades que temos para uma última despedida, uma última homenagem. Esse momento é a confirmação material de que uma pessoa amada não estará mais do seu lado. No caso dos familiares e amigos de Rubens, e de tantos outros brasileiros, isso lhes foi negado. A incerteza da vida ou da morte, a ausência diária. Dor imensurável…
Talvez quando crianças, sem entenderem exatamente o contexto político pelo qual o Brasil passava, fosse difícil entender os motivos pelos quais seu pai tinha saído de casa pela manhã, num feriado, e nunca mais retornado. Contudo, mesmo sem entender, ou entendendo pouca coisa, também sofreram. Viram sua mãe passar dias e noites presa. Viram agentes da repressão vigiarem sua casa.
A ausência pode, e certamente o fez, provocar marcas que são inimagináveis naquelas pessoas, naquelas crianças.
O BANHO
Eunice passa alguns dias nas dependências de um batalhão do Exército no Rio de Janeiro, sendo interrogada e pressionada a entregar pessoas conhecidas. Como podemos imaginar, o ambiente era insalubre. As condições nas quais os presos eram mantidos ali, eram insalubres. Mal alimentados, sem condições de dormir, sem poder tomar banho, sem poder usar um banheiro decente.
Quando volta pra casa, Eunice vai direto para o chuveiro. Depois de 5 dias longe de casa, finalmente pôde tomar um banho. Vemos ali, então, uma pessoa retomando a sua dignidade.
Me chamou a atenção, a força com que a atriz esfregava a bucha contra seu corpo, deixando marcas, arranhões, com a intenção de limpar qualquer vestígio daquele ambiente hostil onde ela foi mantida por tanto tempo. A impressão que me passou, é que aquela cena, mais do que representar a necessidade de limpar o corpo daquela esposa angustiada da sujeira de uma prisão, representava a necessidade de que o Brasil se livrasse do governo militar.
A nação brasileira precisava se ver livre daquele terror, livre da truculência, limpo de qualquer resquício de sujeira que era deixada pelos militares. Os quartéis e bases onde tortura e assassinatos aconteciam eram os lugares mais sujos que haviam em nosso país. Eram o esgoto do regime que assolava o povo brasileiro.
Como não se lembrar das palavras de Ulysses Guimarães na Assembleia Nacional Constituinte? “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.”.
O nojo, que na cena é retratado através da sujeira, do porão, da necessidade de um banho urgente, corresponde às práticas dos militares e daqueles que apoiavam o regime. Violência, morte, sangue derramado, truculência. Rapinagem de tudo aquilo que era nacional.
A DITADURA NOS TIROU COISAS VALIOSAS
O regime dos militares, pela sua própria essência, não se preocupava com qualquer elemento que fosse minimamente humano. Humano, daquilo que traz humanidade às pessoas. Direitos, amores, sonhos, laços.
Direitos de ir e vir foram cerceados, liberdade de expressão, censuraram artistas, censuraram jornais. Famílias foram destroçadas. As pessoas não podiam se reunir com os amigos, tinham medo de falar ao telefone. Os estudantes não podiam se reunir. O Congresso foi fechado.
Ao longo de todo o filme existem cenas que levam o público às lágrimas, já que cada elemento pode comover as pessoas de maneiras diferentes. As cenas de violência e tortura, a trilha sonora, a fotografia, as referências histórico-culturais. Mas a repressão foi além da perseguição aos “subversivos”.
Como não se emocionar com a cena em que a família Paiva encontra o cachorrinho de Marcelo morto na rua? Ao meu ver, essa cena, tão dura e tão delicada, tem um potencial de explicação do que foi o período: acabavam com tudo e qualquer coisa que encontrassem pela frente e achassem razoável, sem motivo aparente, sem razão alguma. Inclusive o cachorrinho de uma criança.
Brutalidade. Golpes baixos.
DITADURA NUNCA MAIS
Como já apresentado, o filme retrata um contexto histórico altamente sombrio, em que o povo brasileiro se viu diante de um governo que teve como método o derramamento de sangue. Mortes, sequestro, tortura, desaparecimentos, censura, cerceamento de direitos. O Estado brasileiro, sob a liderança do exército, passou a ser um agente promotor de barbárie. E é isso que o filme mostra. Momento de nossa história em que as ideias mais conservadoras e reacionárias ganhavam destaque e convenciam diversos setores da sociedade que aquele era o caminho para o desenvolvimento do Brasil.
Não nos deixemos enganar: o período era de muita violência e sofrimento do povo, mas também era de muita luta e resistência desse mesmo povo. Os brasileiros não assistiram as notícias pela TV e se acomodaram. Foi nesse momento tenebroso que uma geração de revolucionários pagou um alto preço na defesa da Democracia brasileira, inclusive com a sua vida. Esse é o caso de Rubens Paiva, de Stuart Angel e Helenira Resende, entre tantos outros e outras, que a verdade ainda há de prevalecer e nos revelar o paradeiro de cada um deles.
A luta não era individual. Ninguém, apesar do alto nível de consciência política, bravura e à pátria, agiu sozinho. Inúmeras organizações construíram a derrubada dos militares. Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), Aliança Nacional Libertadora (ANL), guerrilhas urbanas e rurais espalhadas por todo o território nacional, a União Nacional dos Estudantes (UNE). Exemplos de grupos que deixaram sangue em defesa de um Brasil democrático. A luta foi coletiva.
Esse doloroso momento da história brasileira precisa ser sempre relembrado. Ainda hoje, 40 anos depois da redemocratização, existem pessoas que falam em “revolução de 64”. Ainda hoje, existem pessoas que acreditam que ninguém foi assassinado e jogado ao mar, ou enterrado em valas ilegais. Ainda hoje, é comum encontrar pessoas que não acreditam que os militares tinham autonomia para prender, torturar e assinar quem quisessem, da maneira que bem entendessem. Não podemos cair nesse conto de fadas que tenta defender que o regime não foi assombroso.
CINEMA NACIONAL
Muito se fala sobre o cinema nacional, que é ruim, que não produz bons filmes. Não é incomum ouvir pessoas dizendo que se recusam a assistir filmes nacionais. Pois bem, “Ainda Estou Aqui”, bem como inúmeros outros filmes, tem plenas condições de enfrentar esse preconceito e estereótipo colocado sobre nosso cinema.
O longa-metragem que aqui debatemos é grandioso porque consegue retratar uma realidade vivida aqui em nosso país. Assistir esse filme nos possibilita despertar consciência, reconhecimento enquanto brasileiros. Esse é o papel do cinema.
A cultura nacional, através de qualquer uma de suas ferramentas (música, cinema, teatro, literatura, etc), deve servir ao povo brasileiro. É onde nós mesmos podemos contar a nossa própria história, sem a interferência dos lacaios imperialistas que tentam nos diminuir, que tentam nos enfraquecer. A nossa história é rica e precisamos conhecê-la, conhecer nossos heróis. “Ainda Estou Aqui” cumpre esse papel de maneira exímia.
CONCLUSÃO
“Ainda Estou Aqui” é mais uma das produções do cinema nacional que nos encantam, que retratam uma determinada realidade de maneira ímpar e comove os brasileiros. As indicações ao Globo de Ouro, ao Oscar e a diversas outras premiações internacionais, em mais de uma categoria, mostram sua grandeza.
O longa-metragem é o quinto filme nacional com maior bilheteria da história. Isso não é pouca coisa. Todo o nosso povo tem que tirar o chapéu para o brilhante trabalho da direção do filme e todo o elenco. Todos os aplausos, o esgotamento de bilheterias, os prêmios e reverências são mais do que justos.
O cinema, além da arte, do lazer, do entretenimento, é uma ferramenta de ensino, de pesquisa, de fomento ao debate e que pode e deve ser usado no processo de formação intelectual, humana e política. Precisamos garantir que a juventude brasileira tenha acesso ao cinema e às obras de qualidade aqui produzidas. Precisamos incentivar o debate crítico. Precisamos remar contra a maré que sucateia a formação da nossa juventude, que despreza o ensino das ciências humanas.
É fundamental que o povo brasileiro conheça sua história com a finalidade de nunca mais repetir as atrocidades. O povo brasileiro precisa conhecer aqueles que defenderam nossa pátria. Essa é uma etapa do longo caminho rumo à emancipação brasileira, da nossa libertação das amarras imperialistas.
Ainda estamos aqui. Ditadura nunca mais. Em lugar algum do mundo.
*Estudante do curso de Geografia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Rio Claro e militante da Juventude Pátria Livre (JPL).