
Uma greve geral paralisou a Bélgica na segunda-feira (31), contra a reforma previdenciária e o plano de austeridade anunciados pelo governo conservador do primeiro-ministro Bart De Wever, a segunda desde janeiro. Em fevereiro, mais de 100 mil foram às ruas em Bruxelas.
A greve geral foi convocada pela Federação Geral do Trabalho da Bélgica (FGTB) e pela Confederação dos Sindicatos Cristãos (CSC), atingindo o transporte público, ferrovias, aeroportos, portos, escolas, lojas e fábricas. Nos hospitais, só os serviços de emergência funcionaram. A coleta de lixo foi suspensa e os bombeiros da capital aderiram à paralisação.
Também cruzaram os braços os metalúrgicos da siderúrgica ArcelorMittal em Ghent. Bem como as fábricas e depósitos da cervejaria AB InBev em Lovaina, Hoegaarden e Jupille, De Pinte e Hasselt. Com os sindicatos reclamando da “alta carga de trabalho”, “subinvestimento” e “ambiente de trabalho tóxico”.
Os dois aeroportos de Bruxelas tiveram os voos cancelados. Os ferroviários, que tinham feito uma paralisação de sete dias contra cortes no setor, emendaram com a greve geral. O sindicato dos pilotos marítimos ACOD disse que os navios foram mantidos nos portos, incluindo 30 navios à espera na manhã de segunda-feira no Porto de Antuérpia-Bruge, um dos maiores da Europa.
“A escala e o número de cortes sociais planejados pelo governo federal não têm precedentes”, advertiu o sindicato FGTB. “Estou impressionada com a diversidade de setores e colegas que estão em greve. Podemos ver claramente que todos os setores são afetados por uma grave deterioração da capacidade de trabalhar em boas condições”, declarou Marie-Hélène Ska, secretária-geral da Confederação dos Sindicatos Cristãos (CSC) ao jornal belga L’Echo.
“Esta é a maior greve em 10 anos”, comemorou o oposicionista Partido Trabalhista da Bélgica em comunicado.
AUSTERICÍDIO INFAME
A coalizão “Arizona” – que recebeu essa denominação devido às cores dos partidos integrantes serem as da bandeira do estado norte-americano – quer impor cortes de € 2,7 bilhões anualmente às aposentadorias do setor público, rebaixando-as ao patamar dos trabalhadores do setor, o que atinge desproporcionalmente os servidores de baixa renda em comparação ao sistema anterior.
No total, o arrocho orçamentário pretendido chega a € 18 bilhões, o que terá um impacto brutal na classe trabalhadora, com quase 20% da população já exposta ao risco de pobreza ou exclusão social. Austeridade que está sendo exigida pela União Europeia (UE).
Em junho passado, a Comissão Europeia da UE acionou seu procedimento de déficit excessivo contra Bruxelas por violar o limite de 3% do PIB — e dívida pública total igual ou superior a 60% do PIB. O déficit orçamentário da Bélgica deve ser reduzido em 0,5% do PIB. Com o governo De Wever comprometido em cumprir por meio de cortes drásticos nos gastos públicos.
O plano de arrocho também limita o seguro-desemprego a um ano e estabelece condições rigorosas para extensões. A coalizão, durante as negociações para sua formação, aventou a supressão da correção dos salários pela inflação, deixada mais para a frente.
A “Arizona” – cujo nome deve ter se inspirado na fracassada coalizão “Jamaica” na vizinha Alemanha – é composta por três partidos de Flandres de língua holandesa: o conservador N-VA de De Wever, os democratas-cristãos centristas e o social-democrata Vooruit (Avante) e mais o democrata-cristão Les Engagés e o Movimento Reformista de direita da Valônia de língua francesa.
REARMAMENTO À VISTA
O arrocho também visa inserir a Bélgica na corrida insana de rearmamento na Europa, convocada pela Comissão Europeia, a pretexto da “ameaça russa” – na verdade, o iminente colapso da guerra por procuração dos EUA contra a Rússia para anexação da Ucrânia à Otan.
Questão que o jornal Brussels Times já admitira na greve de janeiro, em que assinalou que “priorizar a previdência social em detrimento dos gastos com defesa é um tema recorrente no repúdio dos manifestantes, assim como a repressão planejada do Arizona ao direito de protestar”.
Em fevereiro, o Ministério da Defesa belga anunciou que aumentaria os gastos militares em € 4 bilhões nos próximos meses, com o objetivo de torná-los até 2029 equivalentes a 2% do PIB (como Trump exigira no primeiro mandato). Atualmente, é de 1,3%.
O que torna imprescindíveis ataques ainda mais brutais às famílias trabalhadoras, trabalhadora, com o ministro da Defesa, Theo Franken, alardeando que “não vai parar por aí”. “No médio prazo, até 2034, no máximo, a Bélgica está mirando em gastos de defesa no valor de 2,5% do nosso PIB”, acrescentou.
“IRREVERSÍVEL”, ARROTA O PREMIÊ DE WEVER
Nos grandes protestos de fevereiro, o primeiro-ministro insistiu, aos grevistas, em que “o curso é irreversível”.
Agora, seu ministro das Finanças e Pensões, Jan Jambon, asseverou em meio à greve geral desta segunda-feira que “temos que fazer essa reforma, temos que engolir a bala por um tempo… Somos um governo reformista que está implementando grandes reformas em muitas áreas, e isso sempre traz algum atrito.”
Certas organizações patronais saíram em defesa do arrocho – isso com a Europa mergulhada na estagnação autoinfligida -, alegando que era necessário “para impulsionar a competitividade das empresas belgas e estabilizar os sistemas sociais e econômicos do país”.
Já a emissora estatal VRT passou recibo sobre o alcance dos protestos, atribuindo a entidades patronais a reclamação de que já haveria “88 dias de greve em 2025″ e que a Bélgica estaria se tornando “cada vez mais conhecida como um dos países mais propensos a greves na Europa”.
De acordo com o boquirroto Franken, adepto de mergulhar Bruxelas no atoleiro criado pela Otan na Ucrânia, o arrocho viabilizaria “disponibilizar uma segunda brigada para a Otan a longo prazo” e reforçar “com aeronaves de caça adicionais” — além dos 34 caças F-35As encomendados da empresa norte-americana Lockheed Martin em 2018 para substituir uma frota de 54 F-16s.