
Lula afirma que não vai “ficar mendigando” e que “homem que se respeita não rasteja para outro”. Ordem é buscar novos mercados para as empresas afetadas pelo tarifaço de Trump
No dia em que o governo autorizou a abertura do processo para aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica (15.122 de 2025) contra os Estados Unidos, que impôs sobretarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não pretende “ficar mendigando”, enfatizando que “homem que se respeita não rasteja para outro”, sobre o fato de ligar ou não para o atual inquilino da Casa Branca, Donald Trump.
“Não pensem que o Lula vai ficar mendigando uma conversa, não. O Lula vai procurar outros parceiros […] Eu não vou ficar chorando, cara, eu vou trabalhar para que o Brasil tenha outros mercados que queiram comprar o que a gente vende. E a hora que os Estados Unidos quiserem conversar, nós estaremos prontos para conversar”, sustentou Lula.
Nesse sentido, o Ministério das Relações Exteriores já submeteu à Camex (Câmara de Comércio Exterior) uma análise das medidas econômicas implementadas pelo governo Trump, acionando os trâmites do decreto 12.551 – que regulamenta a lei.
A Camex terá 30 dias para avaliar se as medidas norte-americanas se enquadram na lei. Se aprovar, discutirá contramedidas. Caso decida aplicar a Lei da Reciprocidade, será a 1ª vez que o instrumento será usado no Brasil.
A legislação, aprovada pelo Congresso em 2 de abril já em reação ao tarifaço de Trump permite a suspensão de concessões comerciais em resposta a medidas unilaterais que impactem negativamente a competitividade brasileira. As contramedidas devem ser proporcionais ao prejuízo causado.
Durante a análise da Camex, os EUA poderão se manifestar no processo. A avaliação do Brasil é que isso mantém aberto o canal de diálogo entre os 2 países.
Nesta sexta-feira (29), o governo norte-americano será formalmente comunicado. A decisão foi confirmada ao final do dia pelos ministérios envolvidos no processo. A medida foi discutida ao longo desta semana, com a decisão sendo amadurecida nos últimos dias.
“A China, na medida que adotou reciprocidade, é que trouxe os Estados Unidos para a mesa de negociação”, diz Alckmin
Por sua vez, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou esperar que o processo com a Lei da Reciprocidade “ajude a acelerar o diálogo e a negociação” com os norte-americanos. Alckmin usou o exemplo da China como referência.
“A China, na medida que adotou reciprocidade, é que trouxe os Estados Unidos para a mesa de negociação”, afirmou a jornalistas antes de retornar do México. A medida se dá num momento de acirramento das tensões entre Brasil e EUA.
Trump impôs as taxas sobre produtos brasileiros alegando “perseguição” contra e Jair Bolsonaro (PL), que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. O vice-presidente citou orientações de Lula quanto a isso. “Primeiro, soberania nacional. O país não abre mão da sua soberania, no Estado democrático os Poderes são separados”, declarou.
Apesar das tensões, Alckmin destacou a parceria histórica entre os países e afirmou “uma boa complementaridade econômica” em setores como o siderúrgico.
Ainda nesta 5ª feira (28), Lula voltou a criticar Trump. O petista disse que ninguém dos Estados Unidos quer conversar com o governo brasileiro sobre o tarifaço e que o republicano se acha o “dono” do mundo. Declarou que não ficará “mendigando”, mas que, quando o norte-americano estiver disposto a dialogar, o “Lulinha paz e amor está pronto”.
CONTESTAÇÃO JUDICIAL E MOBILIZAÇÃO DA BASE
A Advocacia Geral da União (AGU) tomou a iniciativa nesta semana de contratar o escritório norte-americano Arnold & Porter Kaye Scholer LLP para contestar judicialmente as sanções impostas pela Casa Branca.
Já o presidente Lula, após acionar a Lei da Reciprocidade, mobilizou integrantes de sua base política e reuniu-se com ministros para definir estratégias diante da persistência das sanções, quando adotou um novo slogan de governo: “Do lado do povo brasileiro”, substituindo “União e reconstrução”, com pilares na defesa da soberania e da justiça social.
Trata-se de uma resposta política aos ataques do governo norte-americano e à conspiração dos bolsonaristas contra a democracia e a soberania nacional.