
Fundos – inclusive participantes do Focus – e fintechs, que deveriam ser fiscalizadas pelo BC, agiram livres, leves e soltos na lavanderia da Faria Lima
A Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, desmantelou, nesta última semana, um grande esquema criminoso de lavagem de dinheiro através do uso de fintechs e fundos de investimento da Faria Lima, principal centro financeiro de São Paulo. O esquema, utilizado pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), envolvia falsificação e distribuição de combustíveis e movimentou cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Dos 350 alvos da operação, 42 são fundos de investimento, gestoras e corretoras, além de fintechs, com sede na Faria Lima. Segundo a Receita Federal, pelo menos 40 fundos de investimentos, com patrimônio de R$ 30 bilhões, eram controlados pelo PCC. De acordo com a Receita, as operações de lavagem de dinheiro aconteciam no mercado financeiro paulista. “Esses fundos de investimentos foram utilizados como estruturas de ocultação de patrimônio”, afirmam os auditores federais.
O dinheiro ilícito era investido em negócios através de fundos de investimentos que recebiam recursos da fintechs. Em sua maioria, são fundos fechados com um único cotista, geralmente outro fundo de investimento, dificultando a identificação do investidor. E as fintechs, depois que o deputado bolsonarista, Nikolas Ferreira, espalhou fake news contra sua fiscalização, passaram a ser usadas intensamente pelo crime organizado.
“Os indícios apontam que as administradoras dos fundos estavam cientes e contribuíram para o esquema, inclusive não cumprindo obrigações com a Receita Federal, de forma que sua movimentação e a de seus cotistas fossem ocultadas da fiscalização”, diz a Receita.
Os fundos faziam aquisições bilionárias. Entre elas estão um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool (mais duas usinas em parceria ou em processo de aquisição), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis, entre os quais seis fazendas no interior do estado de São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma casa em Trancoso/BA, adquirida por R$ 13 milhões. Ou seja, o sistema financeiro sendo utilizado impunemente para o crime.
A Reag Investimentos, gestora independente de recursos com ações negociadas na Bolsa de São Paulo, está sendo investigada pela operação. A Reag se define como a maior gestora independente do Brasil, com R$ 299 bilhões sob gestão. Já o Banco Genial S.A., uma das instituições financeiras que integra a lista que divulga o Boletim Focus, ou seja, um seleto grupo que opina sobre taxas de juros no Brasil, foi outro que entrou no radar da Operação Carbono Oculto.
Também sediada na Faria Lima, a empesa financeira está na mira da polícia por sua atuação como administrador de um fundo de investimento que, segundo as investigações, teria sido usado para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A apuração não aponta um envolvimento direto do banco, mas cita sua função na administração de fundos que se tornaram centrais na investigação. Os primeiros dias da operação mostraram uma intimidade enorme entre estruturas do PCC e o sistema financeiro.
Em suma, fundos de investimento e fintechs viabilizando não só a lavagem do dinheiro criminoso como também operações que enriqueceram ainda mais as facções criminosas. A pergunta que vem de imediato e que não quer calar é “onde estava o Banco Central numa situação como esta?” Ele é o órgão responsável pela fiscalização e o controle de todas as operações e do funcionamento das instituições financeiras do país. Como uma quantia bilionária como essa é lavada desta forma e o BC não sabe de nada?
O Banco Central tornou-se independente no Brasil durante o desastre Temer/Bolsonaro. Alguns defendem essa independência com unhas e dentes, mas o que se constata mesmo é que o BC ficou independente foi do país, do governo eleito ou de qualquer controle social e tornou-se uma instituição totalmente dependente e intimamente ligada e submissa aos bancos e aos monopólios financeiros.
E o que este episódio todo do PCC e dessa escandalosa lavagem de dinheiro revela é que o Banco Central, na verdade, é tão intimamente ligado aos bancos que não fiscaliza absolutamente nada. Passaram embaixo de suas barbas cerca de R$ 52 bilhões de lavagem e a instituição não viu nada. E vejam que o Ministério da Justiça diz que isso é só a ponta do iceberg. Ou será que o BC viu e desviou o olhar? No mínimo o que ocorreu foi negligência. Mas os fatos apontam mais para conivência. E o pior é que essa gente ainda quer mais autonomia, através da PEC 65/2023.
SÉRGIO CRUZ
agora pra onde vai todo esse dinheiro aprendido? tem que haver transparência.