“Cessar-fogo, só com retirada de Kiev dos territórios cujas populações decidiram se unir à Rússia”, diz Putin

Putin denuncia novas sanções de Washington em meio a negociações pelo entendimento com a Ucrânia (Alexey Nikolsky/AFP)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin destacou, nesta quinta-feira (27), que só haverá cessar-fogo se as tropas de Kiev se retirarem dos territórios onde as populações locais já decidiram se integrar à Rússia, após sofrerem perseguições de diversos tipos perpetradas pelo regime de Zelensky. Para Moscou, apesar de ansiar pela paz, abrir mão destas condições, está fora de questão.

Putin referiu-se à insistência norte-americana em que as forças russas deternham seu avanço sem que as condições mínimas para o entendimento sejam estabelecidas. Nós ainda estamos recebendo chamdos por uma cessação das hostilidades aqui, ali e mais adiante. As tropas ucranianas vão se retirar dos territórios que ocupam e aí as hostilidades cessarão. Se elas não se retiram, nós alcançaremos isso por meios militares”, enfatizou o presidente russo em entrevista à imprensa no Quirguistão onde se encontra para uma reunião de cúpula do Tratado de Organização de Segurança Coletiva, uma aliança regional que reúne diversas nações que integravam a Uniõ Soviética.

A Rússia não descarta a possibilidade de a proposta dos EUA sobre a Ucrânia servir potencialmente como “base para futuros acordos”, assinalou o presidente Vladimir Putin.

Ele confirmou que o enviado especial do presidente norte-americano, Steve Witkoff, estará na próxima semana em Moscou para retomar as negociações sobre o conflito na Ucrânia.

Para Putin, até agora os norte-americanos apenas propuseram um conjunto de questões que ainda precisam ser discutidas e formuladas a fundo. Portanto, ainda é cedo para falar de qualquer projeto de acordo de paz neste momento.

“Inicialmente, havia um conjunto de questões propostas para discussão e formulação final. Discutimos isso com os negociadores americanos antes da minha visita aos Estados Unidos e ao Alasca. Posteriormente, com base nisso, os americanos elaboraram uma lista de 28 pontos com possíveis acordos. Nós a analisamos.”

“Mas esta semana ocorreram negociações entre as delegações americana e ucraniana em Genebra. Tudo isso nos foi comunicado. No entanto, ainda não há versões finais do acordo. Percebemos que o lado americano leva em consideração nossa posição. Portanto, precisamos nos sentar e discutir seriamente questões específicas.”

 “No Alasca, tive a impressão de que havíamos chegado a um entendimento claro sobre nossa situação e o que precisava ser feito para pôr fim às hostilidades”, apontou Putin, acrescentando que a seguir Trump e ele haviam considerado ser necessário “retornar às nossas capitais, refletir sobre a situação, consultar nossas equipes, ministérios, agências e aliados.”

“E então, de repente, os Estados Unidos anunciaram sanções contra duas de nossas empresas petrolíferas. Qual foi o motivo disso? Honestamente, eu nem entendi o que estava acontecendo. Bum! Com o relacionamento florescendo em perfeita saúde, sanções que o destroem! Então, repito, não entendemos que tipo de sinal é esse”.

Quanto às pressões por um cessar-fogo sem atender às razões de fundo do conflito, trata-se, segundo Putin, de que “quando as tropas ucranianas se retirarem dos territórios que ocupam, aí sim os combates cessarão. Se não se retirarem, conseguiremos isso pela força das armas. É só isso.”

Para o presidente russo, a perspectiva de assinar um acordo com as autoridades de Kiev é “legalmente impossível”. Ele classificou a recusa de Zelensky de realizar eleições presidenciais em maio de 2024 como um “erro fundamental”, e seu mandato expirou há um ano e meio, faltando legitimidade para quaisquer acordos.

Sobre o vazamento de conversas entre o assessor presidencial russo Yuri Ushakov e Steven Witkoff , para Putin elas podem ser falsas ou sido realmente grampeadas. “Não sei a natureza dessas escutas telefônicas. Mas acredito que elas decorrem do conflito de opiniões em curso dentro do Ocidente e nos próprios Estados Unidos sobre o que está acontecendo e o que precisa ser feito para acabar com a guerra.”

No caso, trata-se das transcrições de duas conversas telefônicas que ocorreram em outubro publicadas pela Bloomberg. A primeira foi entre Whitkoff e o assessor presidencial russo Yuri Ushakov. A segunda foi entre Ushakov e o assessor presidencial russo Kirill Dmitriev.

COLAPSO IMINENTE EXPLICA ANSIEDADE

Putin traçou, então, um quadro da linha de frente, capaz de explicar a ansiedade sobre a questão. “Vejamos, comecemos pela área de responsabilidade do nosso grupo do Centro: Krasnoarmeysk e Dimitrov estão completamente cercadas, assim como Kupyansk. 70% do território de Krasnoarmeysk está em nossas mãos. Ao sul de Dimitrov, nossas tropas avançam rumo à destruição sistemática do grupo inimigo.”

“O que vem a seguir? Se você olhar para nordeste no mapa, encontrará Komsomolsk. Mais ao norte estão Kupyansk, Slavyansk e, um pouco mais a nordeste, Seversk. Os combates estão em andamento em Komsomolsk, dentro da cidade. Mais ao norte está Volchansk, que está quase inteiramente em nossas mãos.”

“Na região de Zaporizhia, existe uma área fortificada construída pelo inimigo desde 2014. Nosso grupo Dnipro está operando lá e, graças ao heroísmo de nossas tropas, está rompendo as defesas em algumas áreas-chave. No entanto, nosso outro grupo, Vostok, também rompeu as defesas inimigas e está avançando rapidamente pela região norte de Zaporizhia. Isso significa que as tropas do grupo Vostok estão cercando essa área fortificada das Forças Armadas da Ucrânia pelo norte. De um lado, está o nosso grupo Dnipro, enquanto o grupo Vostok os cerca pelo norte. Tudo isso pode levar ao colapso da frente neste setor.”

“E aqui reside a diferença entre aqueles no Ocidente que desejam a paz, e a desejam o mais rápido possível, mesmo que isso signifique algumas concessões mútuas, inclusive por parte da Ucrânia. Se tudo o que aconteceu em Kupyansk continuar a se desenrolar nas áreas que acabei de mencionar, o colapso da frente será inevitável.”

“Como lembrete, em 4 de novembro, o chefe do regime de Kiev anunciou que Kupyansk cairia nas mãos das Forças Armadas da Ucrânia em 5 a 7 dias. Como agora se sabe, as forças inimigas foram completamente eliminadas e a cidade está totalmente em nossas mãos. Além disso, outros 15 batalhões, totalizando 3.500 soldados, estão entrincheirados na margem esquerda do rio Oskol.”

“Alguns dos nossos comandantes estão dizendo que alguns dos soldados do exército ucraniano nesta área já parecem moradores de rua. Isso não é brincadeira. Imagine, lançar comida, equipamentos de camuflagem e munição para 3.500 pessoas por meio de drones — é impossível. Eles estão nessa situação há semanas. Estão praticamente confinados agora.”

“Portanto, aqueles no Ocidente que entendem as consequências disso estão insistindo em acabar com os combates o mais rápido possível. Mesmo que isso exija algumas concessões do regime de Kiev.”

Porque compreendem que a frente começará a ruir em certas áreas e que as Forças Armadas da Ucrânia perderão toda a sua capacidade de combate, acrescentou o presidente russo. “‘Basta! Preservem o núcleo das forças armadas e a sua soberania. É nisso que precisamos pensar’, dizem os que defendem essa posição.”

ATÉ O “ÚLTIMO UCRANIANO”

“Há quem acredite que Kupyansk já retornou ao controle das forças armadas ucranianas e insista que os combates continuem até que o último ucraniano seja morto. É aí que reside a diferença de abordagens.”

“E aqueles que atacam o Sr. Whitkoff são representantes do segundo ponto de vista, que querem se juntar ao establishment ucraniano para roubar dinheiro e continuar a luta até que o último ucraniano seja morto. Mas eu já disse publicamente: em princípio, também estamos preparados para isso”, enfatizou Putin.

Putin acrescentou que os recentes avanços das tropas russas não passaram despercebidos por aqueles no Ocidente “que percebem as potenciais consequências” desses acontecimentos. Ele afirmou que essas vozes estão pressionando para acabar com o conflito o mais rápido possível antes que toda a linha de frente “desapareça”.

O presidente russo estimou que, somente em outubro, Kiev perdeu 47.000 soldados, mas mobilizou apenas cerca de 16.500, com a deserção desenfreada tornando a situação ainda mais grave para o exército ucraniano.

Afora a questão dos territórios que decidiram pela reunificação com a Rússia, parte das exigências de Moscou já é bastante conhecida: nada de anexação da Ucrânia pela Otan, nada de tropas estrangeiras e restauração do status neutro; desnazificação e limitação do tamanho da força armada; e restauração do direito constitucional à língua russa e à religião cristã ortodoxa. Ainda, fim das sanções e desbloqueio das reservas russas.

NÃO-AGRESSÃO RÚSSIA-EUROPA

Putin também se referiu à cláusula do plano de Trump que afirma que “a Rússia consagrará em lei sua política de não agressão contra a Europa”. “Uma coisa é dizer genericamente que a Rússia não tem intenção de atacar a Europa. Isso soa ridículo para nós; nunca tivemos essa intenção”, disse Putin.

Ao mesmo tempo, a Rússia está pronta para confirmar que não tem intenção de atacar a Europa. “Há pessoas, creio eu, um pouco desvairadas, que dizem publicamente ao seu próprio povo, aos seus próprios cidadãos, que ‘a Rússia está se preparando para atacar a Europa e precisamos fortalecer imediatamente nossas capacidades de defesa’. Ou estão servindo aos interesses da indústria bélica e de empresas privadas, ou estão tentando aumentar seus índices de aprovação política interna nesse contexto… Do nosso ponto de vista, isso é um completo absurdo, uma mentira descarada”, disse o presidente russo.

 “Talvez seja esse o ponto, se todos quisermos conversar e resolver as questões de segurança pan-europeia. Talvez seja, nós mesmos já propusemos isso. Mas ambos entendemos que precisamos sentar e discutir isso seriamente; cada palavra importa.”

A pedido de um jornalista, Putin também se deteve sobre a proposta de que a Rússia retorne ao G8. “Em primeiro lugar, não pedimos para ir. Fomos convidados uma vez. E trabalhamos muito. Mas você reparou que eu parei de ir lá antes mesmo dos trágicos acontecimentos na Ucrânia?”

“E depois que os eventos na Ucrânia começaram, eles nos disseram: ‘Não estamos esperando vocês’”. Bom, ainda bem! E mesmo na situação atual, não consigo imaginar como vamos interagir com eles. Você consegue imaginar? Vamos simplesmente aparecer, dizer olá e depois ficar nos encarando com cara feia?”.

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