Em entrevista ao jornal The New York Times cinco dias após bombardear a Venezuela e sequestrar o presidente Maduro, rasgando a Carta da ONU, além de ameaçar a Groenlândia, a Colômbia e Cuba, o chefe da Casa Branca, Donald Trump, afirmou “que não precisa do direito internacional” e definiu “sua própria moralidade” como o único limite ao seu poder de “comandante-em-chefe” do império.
Uma grotesca exibição de fascismo, obsessão neocolonial e deformações de alguém que já foi descrito pela sua chefe de gabinete, Susie Wiles, em entrevista à Vanity Fair, como uma “personalidade de alcoólatra, embora não beba”, que age com a convicção de que “não há nada que não possa fazer”. E que, em um comício há nove anos, disse que poderia “matar alguém” na Quinta Avenida de Nova York e, mesmo assim, não perderia votos.
Nas palavras do NYT, “o presidente Trump declarou que seu poder como comandante-em-chefe é limitado apenas por sua ‘própria moralidade’, ignorando o direito internacional e outros mecanismos de controle sobre sua capacidade de usar a força militar para atacar, invadir ou coagir nações ao redor do mundo.”
“Questionado em uma entrevista abrangente ao The New York Times sobre se havia algum limite para seus poderes globais, Trump disse: ‘Sim, há uma coisa. Minha própria moralidade. Minha própria mente. É a única coisa que pode me impedir.’”. “Não preciso do direito internacional”, completou.
Depois, cinicamente, alegou não querer “ferir alguém” – isso depois de matar só no sábado 100 civis e militares venezuelanos e, desde agosto, executar extrajudicialmente mais de 110 pessoas no Caribe e no Pacífico, além de ter bombardeado sete países desde sua posse e dado sustentação ao genocídio cometido por Israel em Gaza.
SEM DIREITO INTERNACIONAL
Quando os repórteres do NYT insistiram sobre se seu governo precisava obedecer ao direito internacional, Trump disse “sim”, para em seguida, conforme o jornal novaiorquino, “deixar claro que ele seria o árbitro quando tais restrições se aplicassem aos Estados Unidos”. “Depende da sua definição de direito internacional”, alegou.
Como até o NYT admitiu, para Trump é o uso da força, “e não leis, tratados e convenções, que deve ser o fator decisivo em conflitos de poder”. Note-se, ainda, a petulância em falar de moralidade vindo de quem, dentro dos próprios Estados Unidos, vem sendo questionado por encobrir os arquivos do pedófilo – e ex-parceiro de noitadas – Jeffrey Epstein.
Ainda segundo o jornal, “a avaliação que o Sr. Trump fez de sua própria liberdade para usar qualquer instrumento de poder militar, econômico ou político para consolidar a supremacia americana foi o reconhecimento mais direto, até o momento, de sua visão de mundo”.
GROENLÂNDIA NO MENU
Inquirido sobre seus planos para a Groenlândia e, em especial, sobre qual era sua maior prioridade, obter a Groenlândia ou preservar a OTAN, Trump se recusou a responder diretamente, mas reconheceu que “pode ser uma escolha”. Aos repórteres, ele asseverou que a Otan era essencialmente inútil sem os EUA.
Trump argumentou que não bastava exercer o direito dos EUA, garantido por um tratado de 1951, de reabrir bases militares há muito fechadas naquela vasta ilha, reiterando que “a propriedade é muito importante”.
Quando questionado sobre por que precisava possuir o território, ele respondeu: “Porque é o que eu sinto ser psicologicamente necessário para o sucesso. Acho que a propriedade te dá algo que você não consegue, seja por meio de um arrendamento ou de um tratado. A propriedade te dá coisas e elementos que você não consegue apenas assinando um documento.”
Diante da chiadeira dos europeus sobre a ameaça de anexação da Groenlândia, que faz parte da Dinamarca, Trump disse querer que “eles se comportem”. “Fui eu quem os convenceu a gastar mais, você sabe, mais PIB na OTAN”, ele se gabou, acrescentando que a Rússia “não está nem um pouco preocupada com nenhum outro país além de nós.”
“Tenho sido muito leal à Europa. Se não fosse por mim, a Rússia teria toda a Ucrânia agora.”
Até vassalos europeus de carteirinha começam a se preocupar. O presidente alemão [cargo cerimonial], Frank-Walter Steinmeier, admitiu que “há uma quebra de valores por parte do nosso parceiro mais importante, os EUA, que ajudou a construir essa ordem mundial”.
“Trata-se de evitar que o mundo se transforme em um antro de ladrões, onde os mais inescrupulosos tomam o que querem, onde regiões ou países inteiros são tratados como propriedade de algumas grandes potências.”
Ele acrescentou: “Estão sendo feitas tentativas para empurrar até mesmo estados de médio porte — e isso nos inclui — para as margens da história, enquanto estados pequenos e mais fracos ficam completamente desprotegidos.”
“SE EXPIRAR, EXPIROU”
No registro do NYT, Trump “pareceu despreocupado com o fato de o último grande acordo de controle de armas nucleares com a Rússia estar prestes a expirar em quatro semanas, deixando as duas maiores potências nucleares do mundo livres para expandir seus arsenais sem limite, pela primeira vez em meio século”.
“Se expirar, expirou”, disse Trump. “‘Simplesmente faremos um acordo melhor’, acrescentou, insistindo que a China, que tem o arsenal que cresce mais rapidamente no mundo, deveria ser incluída em qualquer acordo futuro.”
A Rússia propôs que Moscou e Washington se comprometam com os limites estabelecidos pelo Tratado Novo Start, até que se chegue a um novo acordo, mas Trump se manteve em silêncio.
Ao NYT, Trump também asseverou que não se tornará um precedente que possa ser alegado pela China sobre Taiwan o uso da força que perpetrou na Venezuela, supostamente porque “não há drogas entrando em massa na China”, nem “prisões de Taiwan abertas e pessoas entrando em massa na China”, como ele acusa a Venezuela, esta “uma ameaça real”.
“Quando um repórter observou que o Sr. Xi considerava Taiwan uma ameaça separatista à China, o Sr. Trump disse: “Isso depende dele, o que ele vai fazer. Mas, sabe, eu já lhe disse que ficaria muito infeliz se ele fizesse isso, e não acho que ele fará. Espero que não faça”.
INTERESSES EGOÍSTAS X MULTILATERALISMO
A entrevista ocorreu poucas horas depois de Trump e o Secretário de Estado Marco Rubio terem retirado os Estados Unidos de dezenas de organizações internacionais destinadas a fomentar a cooperação multinacional, depois de já ter abandonado a Organização Mundial da Saúde, o Acordo do Clima de Paris e a Unesco.
A respeito, a porta-voz da diplomacia chinesa, Mao Ning, observou que a saída dos EUA de órgãos internacionais “já não é novidade”. “De fato, a razão de ser das organizações internacionais e multilaterais reside em seu compromisso de salvaguardar os interesses compartilhados de todos os Estados-membros, em vez de servir aos interesses egoístas de um único país.”
“É justamente por essa razão que o sistema internacional centrado na ONU tem, nas últimas oito décadas e mais, sustentado a paz e a estabilidade mundiais, promovido o desenvolvimento econômico e social, e salvaguardado os direitos e interesses iguais de todos os países.”
Mao disse que o atual cenário internacional provou mais uma vez que somente garantindo o funcionamento eficaz do sistema multilateral podemos evitar a propagação da lei da selva e evitar que a ordem internacional seja dominada pela lógica de que “a força faz o direito e a força representa justiça.”
DOUTRINA DONROE
O ataque dos EUA à Venezuela ocorreu poucas semanas após a publicação da Estratégia Nacional de Defesa de 2025, que declarou o Hemisfério Ocidental uma “esfera de influência americana” na qual os Estados Unidos “não tolerariam” a presença de “potências extra-hemisféricas.”
Na véspera da entrevista de Trump, seu conselheiro Stephen Miller disse a um repórter que “o mundo real é governado pela força. Essas são as leis de ferro do mundo que existem desde o início dos tempos”.
“Estamos no comando [da Venezuela] porque temos as forças armadas dos Estados Unidos estacionadas fora do país. Temos um embargo total sobre todo o petróleo deles e a capacidade deles de fazer comércio. Então, para que eles façam comércio, precisam da nossa permissão. Para que possam administrar uma economia, precisam da nossa permissão. Então os Estados Unidos estão no comando. Os Estados Unidos estão governando o país durante esse período de transição.”
Segundo um dos patrocinadores da resolução no Senado para frear a intervenção de Trump na Venezuela, o republicano Rand Paul, foi a declaração do próprio Trump sobre permanecer na Venezuela “por anos” que facilitou sua aprovação. O próprio Trump conquistou o segundo mandato mentindo contra as “guerras eternas” desencadeadas por seus antecessores, aliás com pretextos análogos, com as “armas de destruição em massa de Sadam” substituídas agora pelas “drogas de Maduro”.











