Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam organização para movimentar e dissimular recursos do Banco Master, aponta relatório sigiloso
Em um dos capítulos mais sensíveis da investigação sobre a derrocada do Banco Master e seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro, a Polícia Federal encontrou mensagens que, segundo o relatório da Operação Quasar, “sugerem” o uso de gestora de recursos como “instrumento para movimentar e ocultar dinheiro”, com o próprio Vorcaro apontado como beneficiário final da estrutura.
O material, apreendido no celular de Artur Martins de Figueiredo, ex-diretor da gestora Trustee DTVM, está inserido no inquérito que apura manobras com fundos de investimento e contas contábeis destinadas, de acordo com a PF, a blindar patrimônio e mascarar transferências de recursos que, em tese, teriam origem e destino obscuros.
MENSAGENS SOB SIGILO, ESTRUTURA COMPLEXA
O relatório policial detalha diálogos entre Figueiredo e interlocutor identificado como elo entre Vorcaro e a gestora, ocorridos antes da liquidação do Master pelo Banco Central.
Para os investigadores, o teor das conversas indica “estrutura organizada” para a movimentação de recursos, com indícios de que Vorcaro seria o beneficiário último desses fluxos.
“A troca de mensagens sugere que havia uma coordenação deliberada de operações que fugiam à rotina normal de mercado, com propósitos que ainda estão sendo apurados”, disse agente federal, sob condição de anonimato, ao comentar partes do relatório ainda sob sigilo.
A PF já havia levantado suspeitas sobre o uso, por parte de Vorcaro, de gestoras associadas a fundos com aportes sob investigação, incluindo estruturas ligadas a operações suspeitas de lavagem de dinheiro por organizações criminosas.
DEFESAS NEGAM IRREGULARIDADES
As defesas de Figueiredo e da Trustee DTVM contestam as conclusões com base nas mensagens.
Em nota, a gestora declarou que “mesmo sem acesso ao conteúdo integral das conversas, não se identifica ato societário ou administrativo irregular” e que “as práticas mencionadas seguem a rotina de atendimento a clientes e cumprimento de ordens, sem indicar ilicitude”.
Advogados ligados a Vorcaro afirmam que “a interpretação policial das mensagens não traduz, por si só, qualquer prova de crime” e ressaltam que “eventuais comunicações precisam ser analisadas no contexto de práticas comuns do mercado financeiro”.
CONTEXTO: PRISÃO, TENTATIVAS DE FUGA E LIQUIDAÇÃO
A PF prendeu Vorcaro em novembro de 2025 durante a Operação Compliance Zero, que investiga, entre outros fatos, a emissão e negociação de títulos de crédito considerados “falsos” ou sem lastro pelo Master, além de possíveis crimes como gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.
No mesmo período, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, após tentativas de venda e injeções de capital que não convenceram o regulador.
Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava embarcar para o exterior no jato particular dele, apreendido pela PF, em meio à tentativa de fuga anunciada pelos investigadores.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Os autos da investigação indicam que operações complexas, envolvendo veículos de investimento e gestores da Faria Lima, podem ter sido usadas para tornar menos visível o percurso de recursos financeiros e, em tese, proteger ativos pessoais de Vorcaro e de terceiros interessados.
Autoridades financeiras e judiciais mantêm sigilo sobre grande parte das provas, mas os diálogos apreendidos têm sido considerados uma das peças-chave para entender o alcance e a finalidade dessas estruturas.
O caso segue sob segredo de Justiça, com diligências em curso e com possibilidade de novas fases da operação nos próximos meses.











