O sistema hídrico de São Paulo, sob a administração da Sabesp, agora privatizada, está para entrar em colapso. Em entrevista exclusiva à Hora do Povo, Renê Vicente, presidente da CTB-SP (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e ex-presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto de São Paulo), denuncia que “o principal sistema de abastecimento, que é o Cantareira, já se encontra em níveis pré-crise hídrica de 2021”.
Segundo o dirigente sindical, a demissão de seis mil trabalhadores, entre os quais, trabalhadores com 10, 20, 30 anos de experiência, está paralisando a empresa. “Ligações simples de água ou esgoto estão demorando semanas por falta de mão de obra qualificada”, afirma. Para Vicente, “é o resultado da prática predatória de um monopólio privado, sem concorrência”.
O maior investimento da Sabesp nesse momento, pós-privatização, é um contrato bilionário de R$ 3,4 bilhões com a Vivo. Esse contrato é um plano piloto, em São José dos Campos, onde eles irão automatizar todos os relógios do sistema de abastecimento e de cobrança, com os chamados “relógios inteligentes”, que permitem o corte imediato da água diante do não pagamento. Esse sistema vai permitir que, com um simples comando digital, a água seja cortada automaticamente”, denunciou Renê. Leia a seguir, na íntegra, a estarrecedora entrevista.
HP – A população de São Paulo revive o pesadelo de uma crise hídrica?
Renê – Sim. O principal sistema de abastecimento, que é o Cantareira, se encontra em níveis pré-crise hídrica de 2021. Os demais reservatórios têm abaixado, semana a semana, sua capacidade de reservação. A Sabesp tem praticado o que eles chamam de controle de pressão, que é uma forma de rodízio, das 21h até as 7h da manhã. Ela vem fazendo isso de forma ampliada na região metropolitana e em todas as áreas: Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro.
HP – Mas não dava pra prever essa crise?
Renê – Você tem que ter um planejamento a longo prazo. Infelizmente isso não foi feito. E, mais do que isso, não foi feita a discussão sobre o uso desse bem natural, que é a água. Hoje, os dados demonstram o seguinte: 70% da água vai para o agronegócio, 20% para a indústria e apenas 10% para o consumo humano. Querem passar que o grande vilão é o desperdício da população. O que nós temos que debater é de que maneira e de que forma nós vamos utilizar os recursos hídricos para atender à demanda da população e fazer com que todos tenham acesso a esse bem inalienável, esse direito humano que é a água.
HP – Então você acha que é um problema de gestão?
Renê – É gestão, com certeza, mas sobretudo decisão política. A Sabesp atua em 379 municípios no estado de São Paulo, abastece 46 milhões de habitantes e fornece água no atacado para municípios. Infelizmente, o processo de privatização coloca a empresa numa lógica de atender à demanda do mercado e buscar o lucro incessantemente. Para se ter uma ideia, o maior investimento da Sabesp, nesse momento, pós-privatização, é um contrato de R$ 3,4 bilhões com a Vivo. Esse contrato é um plano piloto, em São José dos Campos, onde eles vão automatizar todos os relógios do sistema de abastecimento e de cobrança, com os chamados “relógios inteligentes”, que permitem o corte imediato da água diante do não pagamento. Esse sistema vai permitir que, com um simples comando digital, a água seja cortada automaticamente, sem discutir a capacidade de pagamento, sem se preocupar se o trabalhador está desempregado ou inscrito no Cadastro Único.
A Sabesp negociava parcelamento de débitos com trabalhadores e comércios. Hoje, com apenas um mês de atraso, a água já está sendo cortada.
HP – E o impacto disso na qualidade do serviço?
Renê – Hoje, ligações simples de água ou esgoto estão demorando semanas por falta de mão de obra qualificada. O principal impacto é a precarização do atendimento à população. Falta equipe, falta experiência. A Sabesp caminha para o mesmo cenário da Enel, que perdeu mais de 50% da sua mão de obra após a privatização e não consegue responder às crises.
HP – A Sabesp também cortou na mesma proporção?
Renê – A Sabesp já chegou a ter 24 mil funcionários próprios na década de 80 e início dos anos 90. Antes da privatização, nós tínhamos em torno de 12 a 13 mil trabalhadores. Pós-privatização, houve três Programas de Demissão Incentivada. Somando todos, chegamos a quase seis mil trabalhadores demitidos. Isso provocou uma queda drástica no número de funcionários próprios e um avanço enorme da terceirização e da precarização.
Você está demitindo trabalhadores com know-how, com 10, 20, 30 anos de experiência no saneamento básico, e contratando novos trabalhadores com salários muito menores. Um trabalhador de estação de tratamento de água que ganhava em torno de oito mil reais está sendo substituído por outro que ganha três mil e duzentos. Quando houve a enchente no Rio Grande do Sul, os trabalhadores da Sabesp foram lá ajudar, religar bombas, consertar sistemas, graças ao know-how técnico. Isso está se perdendo.
HP – Quem mais perdeu com a privatização?
Renê – Quem perdeu mais foi a população. Esse é o grande dilema da privatização. Entregaram a maior empresa de saneamento da América Latina por R$ 67 a ação, e três meses depois essa ação já valia R$ 98. Alguém ganhou muito dinheiro com isso. O Estado manteve 18% das ações porque, quando a crise apertar e forem necessários grandes investimentos, quem vai pagar será o contribuinte, enquanto os acionistas mantêm o lucro garantido.
HP – E as tarifas?
Renê – O governo prometeu que a tarifa não aumentaria, mas vimos um reajuste de 6,11%. A tarifa social praticamente dobrou. Antes, o trabalhador do CadÚnico pagava cerca de R$ 26 por 10 metros cúbicos. Hoje, esse valor aumentou mais de 50%. Além disso, agora existem equipes com metas diárias de corte: realizar 40 visitas por dia e arrecadar, no mínimo, cerca de R$ 3.700. Se a pessoa não pagar na hora, a água é cortada imediatamente.
CARLOS PEREIRA











