Agentes do FBI invadiram a casa da repórter Hannah Natanson, do Washington Post, na Virgínia, na quarta-feira (14) e apreenderam seu telefone e notebooks, alegadamente a pedido do Pentágono, no mais recente episódio de fricção do governo Trump com a mídia, apesar do dono do Post, o biliardário Jeff Bezos, ter sido convidado de honra à posse dele em janeiro do ano passado.
Natanson, vencedora do Prêmio Pulitzer de 2022 pela cobertura da invasão do Capitólio pela malta trumpista em 6 de janeiro, vinha realizando uma investigação sobre a demissão em massa de servidores pelo governo Trump, e chegara a se denominar, ironicamente, no mês passado, como “a sussurradora do governo federal’” do Washington Post.
“Tem sido brutal, fim de aspas”. Ela disse que suas reportagens levaram a mais de mil novas fontes, que eram funcionários federais atuais ou ex, “que queriam me contar como o presidente Donald Trump estava reescrevendo suas políticas no local de trabalho, demitindo colegas ou transformando as missões de suas agências”.
O suposto “vazador” seria um funcionário terceirizado do Pentágono, Aurelio Perez-Lugones, que foi preso na semana passada, e acusado de “imprimir ilegalmente informações oficiais de defesa nacional e compartilhar com a imprensa”.
Com Trump violando diuturnamente a lei norte-americana e a lei internacional, em escala industrial, não se sabe exatamente de que trata tal “acusação”.
Uma ação tão acintosa que até mesmo a direção do Post se pronunciou considerando “extremamente incomum e agressivo que as autoridades realizem uma busca na casa de um repórter”.
VIOLAÇÃO DA PRIMEIRA EMENDA
A ação “sinaliza um ataque crescente ao jornalismo independente e mina a Primeira Emenda”, disse Tim Richardson, diretor do grupo de defesa da liberdade de expressão PEN America.
Para Jameel Jaffer, diretor executivo do Knight First Amendment Institute da Universidade Columbia e ex-diretor da União Americana pelas Liberdades Civis (Aclu, na sigla em inglês), a operação do FBI é “um esforço para intimidar não apenas jornalistas, mas também as fontes que se comunicariam com eles”.
“É um momento terrível para a liberdade de imprensa. … Precisamos da imprensa para informar o público sobre as ações e decisões do governo e para nos ajudar a responsabilizar os funcionários do governo”, ele acrescentou.
Por sua vez, o diretor executivo do Post, Matt Murray, disse que “jornalistas têm o direito, garantido pela Primeira Emenda, de questionar, coletar e publicar tais segredos, e o Post também tem um histórico de luta por essas liberdades.”
SETH HARP INTIMADO
A perseguição aos jornalistas que expõem os desmandos de Trump também ocorre via o Congresso, com deputados trumpistas impondo intimações a jornalistas para depor, como a Câmara de Representantes acaba de aprovar contra o jornalista investigativo Seth Harp, que nomeou o comandante da unidade de elite da Força Delta que realizou o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, violando a lei internacional.
Ex-veterano da Guerra do Iraque, Harp é o autor do best seller “The Fort Bragg Cartel” [O Cartel do Fort Bragg], que expõe as ligações da Força Delta do exército americano com o tráfico de drogas. Na terça-feira, uma coalizão em defesa da liberdade de imprensa, em carta aos líderes da Câmara, advertiu que a intimação “representa um grave perigo à garantia de liberdade de imprensa da Primeira Emenda”.
“Não há dúvida nenhuma de que as ações de Harp estavam totalmente e diretamente dentro das proteções da Primeira Emenda, bem como fora do escopo de quaisquer estatutos criminais federais”.
ESCRUTÍNIO JORNALÍSTICO LEGÍTIMO
Harp postou na plataforma X uma biografia já pública do Coronel Chris Countouriotis e o identificou como ”o atual comandante da Delta Force, cujos homens acabaram de invadir um país soberano, mataram um monte de inocentes e sequestraram o presidente legítimo.”
Harp afirmou que as identidades dos oficiais militares que “participaram deste ato ilegal e provocativo de guerra” contra a Venezuela são “legítimo alvo de escrutínio jornalístico.” “Não sou o único que eles estão atacando com essas falsas alegações de ‘doxxing’, “mas eles teriam que reestruturar radicalmente a arquitetura fundamental da lei dos EUA para criminalizar a cobertura dos nomes de funcionários do governo envolvidos em notícias de última hora”, acrescentou.
NADA DE “CONFIDENCIAL“
Na carta, a ACLU, Freedom of the Press Foundation, PEN America, Repórteres Sem Fronteiras, Defending Rights & Dissent, e mais de uma dúzia de outras organizações enfatizaram que, embora “jornalistas tenham o direito, sob a Primeira Emenda, de publicar até mesmo informações confidenciais… nenhuma das informações publicadas por Harp era confidencial”.
Chip Gibbons, diretor de políticas da Defending Rights & Dissent, denunciou a tentativa de intimação de “um jornalista que faz algumas das reportagens investigativas mais significativas sobre as Forças Especiais dos EUA. Este é um ataque perigoso à liberdade de imprensa, assim como ao direito do povo dos EUA de saber. É vergonhoso que tenha passado no comitê”.
Não é o único choque entre Trump e a chamada mídia do establishment. Em episódios anteriores, o apresentador da CBS, Stephen Colbert, teve fim de seu programa anunciado para este ano e a ABC chegou a afastar Jimmy Kimmel. A CBS News censurou um episódio do “60 Minutes”, que expunha a penintenciária de El Salvador para onde Trump deporta imigrantes ilegais.
Trump também se enfureceu com a cobertura do New York Times e até do Wall Street Journal sobre suas conexões com o pedófilo Epstein e, mais recentemente, processou a BBC por ter, em 2024, relembrado sua conclamação a assaltar o Capitólio (“lutar até o inferno”) no 6 de janeiro. Em outro confronto, jornalistas credenciados junto ao Pentágono se recusaram a se submeter às novas regras impostas pelo atual secretário “de Guerra”, o tatuado Pete Hegseth.











