A troca de mensagens entre o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Stoere – em que o atual inquilino da Casa Branca expressa seu despeito por não ter sido agraciado com o “Nobel da Paz”, dizendo não se sentir mais obrigado a uma solução pacífica para sua obsessão pela Groenlândia – continua a provocar espanto e incredulidade mundo afora – além de alguns deboches.
Diante da situação, o primeiro-ministro norueguês tomou a iniciativa nesta segunda-feira (19) de divulgar o teor completa da inusitada troca de “pontos de vista” de domingo e momento exato em que ocorreu.
“Caro Jonas: Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido 8 Guerras ou mais, não sinto mais a obrigação de pensar puramente na Paz, embora ela sempre predomine, mas agora posso pensar no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América.”
“A Dinamarca não pode proteger essa terra da Rússia ou da China, e por que eles têm um ‘direito de propriedade’ afinal? Não há documentos escritos, é só que um barco desembarcou lá há centenas de anos, mas também tínhamos barcos desembarcando lá.”
Fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde sua fundação, e agora, a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos. O mundo não é seguro a menos que tenhamos Controle Completo e Total da Groenlândia. Obrigado! Presidente DJT”.
PREMIÊ STOERE PEDE DESESCALADA
A resposta de Trump ocorreu às 15h15 GMT. Menos de meia hora antes, o líder norueguês se dirigira a Trump, pedindo uma desescalada em relação à Groenlândia e ao tarifaço aos países que enviaram meia dúzia de militares à ilha ártica no final de semana em solidariedade à Dinamarca. Mensagem também assinada pelo presidente finlandês, Alexander Stubb.
A ameaça de tarifaço de 10% contra oito países – Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia – a partir de 1º de fevereiro, que passaria para 25% a partir de junho, foi anunciada no sábado por Trump.
“Prezado Senhor Presidente, caro Donald – sobre o contato do outro lado do Atlântico – sobre Groenlândia, Gaza, Ucrânia – e seu anúncio tarifário ontem. Você conhece nossa posição sobre essas questões. Mas acreditamos que todos devemos trabalhar para derrubar isso e desescalar – tanta coisa está acontecendo ao nosso redor que precisa ficar unida”, disseram o premiê norueguês e o presidente finlandês.
“Estamos propondo uma ligação com você mais tarde hoje – com nós dois ou separadamente – nos dê uma dica do que prefere! Alex e Jonas”.
O FURIBUNDO TRUMP
A tentativa do premiê norueguês de explicar repetidamente a Trump que um comitê independente é que concede o prêmio, e não a própria Noruega, só tornou o capo MAGA mais furibundo.
Trump disse à NBC que a Noruega “controla totalmente a região, apesar do que dizem”, prometendo seguir adiante os planos de aplicar tarifas às nações europeias caso um acordo sobre a anexação da Groenlândia não seja alcançado. De quebra, se recusou a comentar quando perguntado se usaria a força para tomar o território aliado.
MEDALHA DE CORINA NÃO VALE, DIZ COMITÊ
Na quinta-feira (15), a golpista venezuelana Corina Machado havia ido até a Casa Branca para vexatória e pessoalmente entregar a Trump a medalha do Nobel da Paz que recebera em Oslo, depois da CIA lhe dar uma carona em dezembro. Aliás, um Nobel “da Paz” abertamente parido pelo Departamento de Estado, e no qual sequer as convocações de Machado a que os EUA invadissem a Venezuela atrapalharam seu amedalhamento.
A oferenda de Machado levara os organizadores do Nobel a dizerem publicamente que o prêmio é intransferível, o que deve ter soado a Trump como uma ofensa pessoal. “Não pode ser revogado, compartilhado ou transferido”, se pronunciaram o Comitê Nobel Norueguês e o Instituto Nobel Norueguês.
A trocação também ocorreu após uma grande manifestação na Groenlândia, em que a população reagiu à ameaça de anexação, adaptando o slogan MAGA do próprio Trump para um zombeteiro “Make America Go Away” [Faça a América Ir Embora].
Diante dessa atitude patética e ressentida de Trump, há quem veja nisso um presidente à beira do colapso mental. Ou um idoso profundamente deformado que, como um decrépito bebezão mimado, ameaça a todos em volta pelo brinquedo que diz ser dele.
Outros vêem na fixação de Trump com o Nobel da Paz pura inveja e racismo: o presidente negro, Obama, armou para receber seu Nobel da Paz, e ainda bombardeou a Líbia e curtiu suas “terças-feiras da morte”.
RUMO AO PRECIPÍCIO
Há também a enorme repercussão na grande mídia, com The New York Times advertindo que “Trump empurra a aliança EUA-Europa para o precipício”. Já o jornal britânico The Independent tentou adivinhar “o que o líder da Noruega disse a Trump para justificar a furiosa reação sobre o Prêmio Nobel da Paz e a Groenlândia”.
O Wall Street Journal registrou que “Trump liga as ameaças à Groenlândia à perda do Prêmio Nobel” e estampu na manchete que “a Europa enfrenta uma grande nova ameaça: os EUA”. Em outra chamada apontou que “Trump quer a Groenlândia. Os mercados não sabem o que pensar disso”.
Examinando o significado, para os EUA, de uma ruptura com a Europa, o WSJ observou que esta “é o maior parceiro comercial dos EUA, maior investidor e aliado financeiro mais próximo”.
Acrescentou que a maioria dos governos na Europa “busca desescalar o confronto e quer adiar o dia em que desvinculem a segurança e a economia da região dos EUA”. Disse, ainda, que “após a destituição bem-sucedida do líder venezuelano, o presidente dos EUA emergiu ainda mais disposto a testar as normas da política externa”.
“A CULPA É DA NORUEGA”…
“O motivo pelo qual Donald Trump quer anexar a Groenlândia é… culpa da Noruega. Por não ter concedido o Prêmio Nobel da Paz ao presidente americano”, espantou-se o El País, esclarecendo que “não é uma paródia, embora possa parecer”. É o que “ele próprio afirma” em uma mensagem ao primeiro-ministro norueguês e também encaminhada a diversas embaixadas europeias em Washington: sem o prêmio, “não se sente mais obrigado a buscar a paz”. Trump – acrescenta – está deixando claro “seu ressentimento por não ter recebido o troféu que tanto deseja”.
O El País ainda lembrou a argumentação de Trump de que só interessa se os EUA forem os donos da ilha, porque, “não é a mesma coisa que algo que se aluga” – uma “questão psicológica”, como alegou ao The New York Times. Afinal, a ilha já é território da Otan, os EUA já possuem uma base lá, a Estação Espacial Smurfburg; os acordos assinados com a Dinamarca permitem que o país estabeleça quantas bases e forças militares quiser na ilha; e Copenhague oferece todo tipo de facilidade a Washington.
Aliás, uma coisa de que os europeus não podem ser acusados é de excesso de vértebra.
Também na segunda-feira, Trump voltou à carga, agora por sua plataforma Truth Social: “A Otan vem dizendo à Dinamarca há 20 anos que ela ‘precisa eliminar a ameaça russa da Groenlândia’. Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada a respeito. Agora é a hora, e isso será feito!”. Não existe nem ameaça russa, nem chinesa, como os dinamarqueses já sublinharam. Na quinta-feira, os governos europeus voltam a se reunir para discutir o imbróglio. Na véspera, Trump estará de volta ao Fórum Econômico de Davos, onde pode dizer qualquer coisa, por mais absurda ou contraproducente que seja.
Aeguindo a sequência de provocações, agora há pouco, Trump postou uma foto sua simulando o gesto de fincar a bandeira americana em solo groenlandês.











