O governo Trump e a “desordem mundial”

O ditador dos EUA, Donald Trump, anuncia tarifas contra os países que não o apoiarem na anexação da Groenlândia (foto RS/Fotos Públicas)


DAVIDSON MAGALHÃES

O segundo governo Trump, iniciado em 20 de janeiro de 2025, tem adotado um conjunto de ações para reposicionar os EUA no atual contexto global, diante da perda de posição e dinamismo da economia americana. Acrescente-se, ainda, as limitações dos americanos em exercer o poder unipolar que, até então, impunham ao mundo.

As contestações ao dólar como moeda padrão de reserva internacional, os históricos déficits fiscal e comercial, a deterioração da sua infraestrutura interna, a desindustrialização, as crescentes desigualdades e problemas sociais em seus territórios e as derrotas sucessivas no campo de batalha da Ucrânia, são exemplos desta realidade com novos centros de poder econômico e militar.

Registra-se um importante movimento de deslocamento do eixo do poder global do Ocidente para o Oriente. O Neoliberalismo e sua ordem global esgotou-se.

As organizações internacionais e as regras criadas no pós-guerra,sob a direção dos EUA e dos seus aliados ocidentais, foram esvaziadas ou extintas pelo próprio governo americano.

Trump, representante do império em declínio, move-se em ataque, para realizar mudanças no funcionamento do Estado norte-americano e na geopolítica do poder global. No tabuleiro da batalha, a estratégia americana é vencer seu mais forte concorrente, a China, nos âmbitos econômico, financeiro, militar e comercial e submeter o conjunto dos povos aos seus interesses.

PROTECIONISMO E GUERRA TARIFÁRIA

As primeiras medidas do governo Trump foram de protecionismo comercial, restrição comercial, imposição de tarifas. O aumento unilateral de tarifas, mesmo para países como o Brasil, que têm déficit comercial com os EUA. Proibição de exportação de insumos e máquinas de indústrias de alta tecnologia para países concorrentes, especialmente a China.

É um pacote extenso, diversificado e usado como instrumento do poder político e econômico. Esta tentativa desesperada de reverter o enorme déficit comercial, de proteger a indústria americana e incentivar a transferência de plantas industriais para os EUA, não lograram êxito.

Além das imposições comerciais, o presidente Trump ameaçou com retaliações os países que adotassem medidas contra o dólar, ou iniciativas de pagamentos com moedas próprias, que enfraquecem o dólar como moeda de reserva mundial. Apesar de toda a pressão americana,o dólar tem perdido o seu espaço e coloca em xeque a sua condição de moeda da reserva mundial, uma das importantes fontes de poder dos EUA.

Diante da insuficiência e ineficácia das medidas formulou-se a nova estratégia de segurança nacional,em novembro 2025.

A ESTRATÉGIA DE SEGURANÇA NACIONAL

A nova estratégia de segurança do governo Trump é uma adaptação do imperialismo americano à sua fase de declínio relativo. Busca reorganizá-lo em termos mais favoráveis frente à nova realidade global. As políticas do pós-guerra: o globalismo, o “livre comércio” e instituições transnacionais são vistos como fatores que enfraqueceram a soberania, a indústria e a classe média americana.

O interesse nacional dos EUA enquanto potência hegemônica, e dos seus capitais(complexo industrial-militar, capital financeiro e setores de alta tecnologia e energia),só serão garantidos pela substituição do neoliberalismo global por um nacionalismo imperial direto, como afirma o documento: o foco desta estratégia é a política externa, e esta é motivada, acima de tudo, pelo que funciona para os Estados Unidos — ou, em resumo, “América Primeiro”.

O documento rejeita o discurso liberal de “valores universais”, mantém intacta a lógica imperialista. Agora sob uma forma mais explícita e menos ideológica. Sem retórica, expõe claramente a necessidade de expansão do seu capital, manutenção do dólar como moeda de reserva internacional, controle de mercados, matérias-primas e rotas estratégicas.

A doutrina propõe hegemonia regional direta (Hemisfério Ocidental, leia-se América Latina), com o Corolário Trump à Doutrina Monroe (América para os Americanos). “Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério. Os termos de nossos acordos, especialmente com os países que mais dependem de nós e, portanto, sobre os quais temos maior influência, devem ser contratos de fornecimento exclusivo para nossas empresas. Ao mesmo tempo, devemos fazer todo o possível para expulsar as empresas estrangeiras que constroem infraestrutura na região.

Voltamosao exclusivismo comercial dos tempos coloniais. A China aparece como principal ameaça.

Ao articular Estado, indústria e tecnologia de forma eficaz, transformou-se na manufatura do mundo, desafia a supremacia do capital financeiro ocidental e controla cadeias produtivas estratégicas. Portanto, na compreensão do governo Trump, é necessária uma contenção seletiva da China. Segundo o documento, os Estados Unidos não podem permitir que nenhuma nação se torne tão dominante a ponto de ameaçar interesses do seu país. Portanto, toda iniciativa deve ser no sentido de isolar a China de fontes de matéria – primas e mercado.

O novo momento indica que ao imperialismo dos EUA não basta reconfigurar zonas de influência, mas é necessário criar zonas de ocupação, protetorados como na fase colonial.

A agressão militar dos EUA à soberania venezuelana e o sequestro do presidente Maduro, as ameaças de anexação da Groenlândia e de um novo ataque ao Irã, indicam um novo momento de agressividade do imperialismo estadunidense. E que coloca em risco a paz mundial e a soberania dos povos.

Uma característica histórica relevante é que o império americano, devido às suas capacidades militares, é o único que no crepúsculo pode levar o mundo, tal como o conhecemos, junto.

Mais do que nunca, a luta em defesa da soberania nacional, contra o imperialismo e pela paz mundial estão na ordem do dia. No Brasil, a vitória de Lula e a derrota da extrema direita bolsonarista que apoia o trumpismo ganha relevância estratégica. É a questão fundamental do momento.

Davidson Magalhães édirigente nacional do PCdoB, doutor em desenvolvimento regional e mestre em economia.

Artigo publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois.

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