Ditador instalado na Casa Branca ameça retaliar a França com tarifas de 200% sobre vinhos e champanhe
A França se recusou a aderir ao ‘Conselho da Paz’ proposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, definido para, supostamente, supervisionar a governança pós-guerra, com a promessa de reconstrução em Gaza, mas que, conforme os recém anunciados “estatutos”, mais parece um clube privé do mandatário norte-americano, uma “ONU fake”, onde tudo depende do egomaníaco de Mar-a-Lago e a última palavra é dele.
Falando na Assembleia Nacional na segunda-feira (19), o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noel Barrot, anunciou o “Não” de Paris, explicando que “a carta deste ‘Conselho da Paz’ vai além do âmbito de Gaza e, portanto, além do plano de paz que foi aprovado pelas Nações Unidas. E porque a Carta, na sua redação atual, é de fato incompatível com os compromissos internacionais da França e, em particular, com a sua adesão às Nações Unidas, que obviamente não pode ser posta em causa em circunstância alguma”.
Na semana passada, a Casa Branca começou a enviar convites a dezenas de líderes mundiais para adesão, com os países que desejarem filiação por mais de três anos tendo de pagar US$ 1 bilhão por um assento permanente.
Em reação ao “Não” de Paris, Trump correu à sua plataforma Truth Social para dizer que “ninguém quer Macron” e ameaçando a França com um tarifaço de 200% sobre os vinhos franceses e a champagne.
No fim de semana, Trump já anunciara tarifa de 10% a partir de 1º de fevereiro a oito países europeus, que se solidarizaram com a Dinamarca enviando simbolicamente uma dezena de militares cada à Groenlândia, o que subirá para 25% em junho se continuar havendo resistência à anexação da ilha ártica.
Originalmente, a proposta do “Conselho da Paz” é parte da resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU de meados de novembro, que, na premência absoluta em parar o genocídio em Gaza, acatou a proposta de Trump, atendo-se única e exclusivamente a Gaza – e com a Rússia e China se abstendo, e não vetando, em respeito à vontade dos países árabes e muçulmanos.
“Conselho da Paz” que já nasce sob o signo do bombardeio à Venezuela, sequestro de seu legítimo presidente, Nicolás Maduro, e assassinato de 100 venezuelanos para explicitamente roubar o petróleo do país, bem como das ameaças de anexação da Groenlândia “pelo modo fácil ou pelo difícil” – além das provocações do “Canadá como 51º estado”.
De acordo com os estatutos, a que a AFP teve acesso, “O Conselho de Paz é uma organização internacional que busca promover a estabilidade, restabelecer uma governança confiável e legítima, e garantir uma paz duradoura nas regiões afetadas ou ameaçadas por conflitos”. E, portanto, no preâmbulo, já extrapola, em muito, o que foi acordado na resolução da ONU e a coloca de fora de uma de suas principais prerrogativas.
Trump será “o presidente inaugural do Conselho de Paz”, com amplos poderes, e o único autorizado a convidar os países participantes, tendo a última palavra nas votações. Poderá revogar a participação de uma nação, exceto em caso de veto por dois terços dos Estados integrantes.
Terá, ainda, “autoridade exclusiva” para “criar, modificar ou dissolver entidades subsidiárias” do Conselho de Paz, e será “a autoridade final quanto ao significado, interpretação e aplicação” dos estatutos.
Além disso, o mandato de Trump assemelha-se a uma forma de presidência vitalícia. Ele pode “nomear um sucessor” a “qualquer momento” e só pode ser substituído em caso de “renúncia voluntária” ou “incapacidade”, determinada unanimemente pelo “conselho executivo” da organização , formado a seu próprio critério.
Basta apenas a adesão de três países para a constituição do Conselho arquitetado por Trump. O estatuto também alega que é preciso contar com “uma organização de paz internacional mais ágil e eficaz”, portanto, criticando a ONU e as “muitas abordagens de paz” que “institucionalizam crises em vez de permitir que as pessoas prosperem”.
Nesta terça-feira, o próprio Trump se apressou a esclarecer seus elevados princípios pela “paz”, ao criticar o Reino Unido pela devolução, como decidido pela ONU, das ilhas Chago, às Ilhas Mauricio no Oceano Índico. Cuja população originária foi deportada na década de 1960 para a construção da base de Diego Garcia e poderá voltar. Pelo acordo, a estratégica base, que é compartilhada pelo Reino Unido e pelos EUA, seguirá arrendada por 99 anos.
“O Reino Unido ceder territórios extremamente importantes é um ato de GRANDE ESTUPIDEZ e se soma a uma longa lista de razões de segurança nacional pelas quais a Groenlândia deve ser adquirida”, postou Trump, antes de viajar para o Fórum de Davos.
“Surpreendentemente, nosso ‘brilhante’ aliado da Otan, o Reino Unido, planeja atualmente entregar a ilha de Diego Garcia, sede de uma base militar vital dos EUA, para Maurício, SEM MOTIVO ALGUM. Não há dúvida que a China e a Rússia notaram esse ato de total fraqueza”, acrescentou.
“Essas são potências internacionais que só reconhecem a força, e é por isso que os Estados Unidos, sob minha liderança, agora desfrutam de um respeito sem precedentes após apenas um ano”, enfatizou Trump. Concluindo, ele instou a Dinamarca e seus aliados europeus a se sujeitarem em relação à Groenlândia.
Em outra manifestação de seu apreço pela paz, Trump acaba de publicar um meme, feito com AI, em que se reúne na Casa Branca com os principais líderes europeus, e onde é mostrado um enorme mapa dos EUA, com o Canadá, Groenlândia e Venezuela anexados.
Talvez a “equipe de produção” seja a mesma que brindou o mundo com a animação da “Riviera sob cadáveres” em Gaza, em que, também graças à AI, figuravam Trump, Netanyahu e até Elon Musk.











