Tarcísio corta 34,6% do orçamento para a segurança hídrica em SP

Mesmo diante do agravamento simultâneo da seca e das enchentes em São Paulo, o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) optou por reduzir drasticamente os recursos destinados à segurança hídrica em 2026. O orçamento aprovado pela Assembleia Legislativa (Alesp) reserva R$ 1,37 bilhão para a área, uma queda de 34,6% em relação a 2025, quando o setor contou com R$ 2,1 bilhões.

A decisão escancara a contradição do Governo: enquanto o orçamento total do Estado cresce 2,6%, áreas essenciais para a proteção da população diante da crise climática perdem recursos. A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), responsável pela política de segurança hídrica, também sofreu cortes e teve seu orçamento reduzido em cerca de 18,5%.

Para Amauri Pollachi, conselheiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas) e ex-servidor da área de recursos hídricos do governo paulista, a redução orçamentária revela a inexistência de uma política estruturada para enfrentar a crise. Em declarações à Agência Pública, Amauri afirmou que o governo estadual “não tem uma política clara de atuação em termos de segurança hídrica” e classificou os cortes como incompatíveis com a gravidade do momento vivido pelo estado.

Segundo ele, São Paulo caminha para enfrentar a pior crise hídrica do século, com níveis de reservatórios inferiores aos registrados durante a crise de 2014 a 2016. “Reduzir o orçamento da segurança hídrica justamente no ano em que podemos viver a maior crise deste século é uma contradição absurda”, afirmou à Agência Pública. Para o engenheiro, a justificativa de que as chuvas de verão poderiam aliviar o problema não se sustenta, já que alertas de órgãos como o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) indicam que o volume de precipitações não será suficiente para recompor os sistemas de abastecimento.

O especialista também chamou atenção para o duplo significado da segurança hídrica. “Não se trata apenas da falta de chuvas, mas também do excesso”, disse, ao criticar o corte superior a 50% nos recursos destinados à implantação de sistemas de drenagem e combate a enchentes. Para ele, reduzir esse tipo de investimento passa a falsa mensagem de que o problema estaria resolvido, quando, na realidade, enchentes recorrentes continuam provocando destruição e mortes no estado.

No último fim de semana, um casal morreu após o carro em que estava ser arrastado pela enxurrada no bairro do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, durante um forte temporal. O veículo foi levado pela força da água em uma via alagada, evidenciando a falta de infraestrutura adequada de drenagem urbana.

Outro ponto destacado por Pollachi foi a forte redução nos recursos destinados ao Sistema Adutor Regional e às barragens de Duas Pontes e Pedreira, obras voltadas ao abastecimento das regiões de Campinas e Piracicaba. Embora reconheça que parte da queda esteja relacionada ao avanço das obras, ele ressaltou à Agência Pública que o sistema adutor ainda não está concluído e não resolverá, no curto prazo, a escassez hídrica enfrentada pela região.

Além disso, Pollachi voltou a criticar a orientação do governo Tarcísio de transferir a gestão da água para a iniciativa privada, por meio de Parcerias Público-Privadas, no mesmo caminho adotado com a privatização da Sabesp. Na avaliação do conselheiro do Ondas, esse modelo não responde às necessidades da população e subordina um direito básico à lógica do lucro.

A decisão do governo estadual gerou críticas de partidos políticos e de parlamentares. O PT paulista denunciou que, enquanto a população convive com riscos reais de desabastecimento e enchentes, o Executivo opta por reduzir investimentos essenciais. Para o partido, o corte no orçamento da segurança hídrica evidencia o distanciamento do governo em relação às necessidades concretas da sociedade.

O deputado estadual Enio Tatto (PT) também criticou duramente a medida. “Em plena crise hídrica, o governador Tarcísio corta 34,6% dos recursos da segurança hídrica em 2026. O orçamento cai de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,37 bilhão, fragilizando a resposta do estado diante da pior ameaça hídrica da sua história”, afirmou o parlamentar.

Já o vereador paulistano Toninho Vespoli (PSOL) repercutiu o corte nas redes sociais em tom satírico. Ele compartilhou um card com a frase “Alerta severo: governo Tarcísio corta mais de 34% da segurança hídrica. FAZ O T!”. Na publicação, o parlamentar utilizou uma montagem com a imagem do governador em uma área alagada, batendo um martelo – referência à foto que se tornou emblemática após Tarcísio quebrar o símbolo durante o leilão de privatização da Rodoanel Norte, na Bolsa de Valores, em São Paulo, em 2023, imagem frequentemente retomada por críticos para simbolizar a política de privatizações e cortes do governador bolsonarista.

Embora a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística alegue que os cortes resultam de ajustes técnicos e do encerramento de ciclos de obras, especialistas e parlamentares avaliam que a política adotada pelo governo Tarcísio ignora os alertas da ciência e expõe a população a riscos cada vez maiores, num cenário de emergência climática que exige mais investimento público –  e não menos.

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