“Estamos diante de uma ruptura, não de uma transição”, diz premiê Mark Carney em Davos

Em Davos, canadense Carney defende novas parcerias estratégicas (Fabrice Coffrini-AFP)

“Canadá se recusa a ir à mesa como cardápio”, afirmou o premiê. “Um país que não pode se alimentar, se abastecer ou se defender tem poucas opções. Quando as regras não te protegem mais, você deve se proteger”, complementou.

Em meio às provocações de Trump de “Canadá 51º estado dos EUA” e com a sorte da vizinha Groenlândia no olho do furacão, o primeiro-ministro canadense Mark Carney afirmou, no Fórum Econômico Mundial de Davos, que a ordem econômica sob Washington, a “das regras”, “não funciona mais” e “estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição”.

Em seu pronunciamento na terça-feira (20), Carney disse enfaticamente que “estamos firmes ao lado da Groenlândia e da Dinamarca e apoiamos plenamente seu direito único de determinar o futuro da Groenlândia”. Ele também rechaçou as tarifas anunciadas pelos EUA contra oito países europeus, por causa da Groenlândia.

Chamou as “potências médias” a “agir juntas porque, se não estivermos na mesa, estamos no cardápio”, após apontar que “todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências — que os fortes podem fazer o que podem, e os fracos devem sofrer o que devem”, citando Tucídides.

O primeiro-ministro canadense destacou que as instituições multilaterais das quais as potências médias têm confiado — a OMC, a ONU, a COP [Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas], a própria arquitetura da resolução coletiva de problemas — “estão sob ameaça”.

“Como resultado, muitos países estão chegando às mesmas conclusões: devem desenvolver maior autonomia estratégica em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias de suprimentos. E esse impulso é compreensível. Um país que não pode se alimentar, se abastecer ou se defender tem poucas opções. Quando as regras não te protegem mais, você deve se proteger.”

Ele reiterou que “construir uma economia doméstica forte deveria ser a prioridade imediata de todo governo”, chamando também à “diversificação internacionalmente”. O que, destacou, é a “base material para uma política externa honesta, porque os países conquistam o direito a posições de princípio ao reduzir sua vulnerabilidade à retaliação”.

Ele reconheceu que por décadas o Canadá prosperou sobre o que “chamávamos de ordem internacional baseada em regras”. Que “sabíamos parcialmente falsa, que os mais fortes se isentavam quando conveniente, que as regras comerciais eram aplicadas assimetricamente, e sabíamos que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.”

“Sabemos que a velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentar isso. A nostalgia não é uma estratégia, mas acreditamos que, a partir da fratura, podemos construir algo maior, melhor, mais forte, mais justo”, convocou Carney.

MUDANÇA FUNDAMENTAL DE ESTRATÉGIA

“Agora, o Canadá foi um dos primeiros a ouvir o alerta, levando-nos a mudar fundamentalmente nossa postura estratégica. Os canadenses sabem que nossas antigas e confortáveis suposições de que nossa geografia e filiações a alianças automaticamente conferiam prosperidade e segurança, essa suposição não é mais válida”, disse Carney.

“Nós visamos tanto ter princípios quanto ser pragmáticos. Princípios em nosso compromisso com valores fundamentais, soberania, integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU e com o respeito pelos direitos humanos. E pragmáticos ao reconhecer que o progresso muitas vezes é incremental, que os interesses divergem, que nem todo parceiro compartilhará todos os nossos valores.”

“Estamos priorizando um engajamento amplo para maximizar nossa influência, dada a fluidez do mundo no momento, os riscos que isso representa e as apostas para o que vem a seguir. E não dependemos mais apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força.”

“Estamos fortalecendo essa força em casa. Desde que meu governo assumiu, cortamos impostos sobre rendas, ganhos de capital e investimentos empresariais. Removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial. Estamos acelerando investimentos de US$ 1 trilhão em energia, IA, minerais críticos, novos corredores comerciais e além. Estamos dobrando nossos gastos com defesa até o final desta década, e fazendo isso de maneiras que fortalecem nossas indústrias domésticas. E estamos nos diversificando rapidamente no exterior.”

NOVAS PARCERIAS

“Concordamos com uma parceria estratégica abrangente com a UE, incluindo a adesão ao SAFE, os arranjos europeus de aquisição de defesa. Assinamos outros 12 acordos comerciais e de segurança em quatro continentes em seis meses.”

“Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com China e Catar. Estamos negociando acordos de livre comércio com Índia, ASEAN, Tailândia, Filipinas e Mercosul.”

“No comércio plurilateral, estamos defendendo esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, o que criaria um novo bloco comercial de 1,5 bilhão de pessoas.”

“Construir coalizões que trabalham problema por problema com parceiros que compartilham pontos em comum o suficiente para agir juntos. O que está fazendo é criar uma densa teia de conexões entre comércio, investimento e cultura, da qual podemos nos apoiar para desafios e oportunidades futuros.”

“Em um mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermediários têm uma escolha: competir entre si por favores ou se unir para criar um terceiro caminho com impacto. Não devemos permitir que a ascensão do poder duro nos cegue para o fato de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos usá-lo juntos.”

CANADÁ PLURALISTA

“Então, Canadá. O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética. Possuímos vastas reservas de minerais críticos. Temos a população mais educada do mundo. Nossos fundos de pensão estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Em outras palavras, temos talento de capital. Também temos um governo com imensa capacidade fiscal para agir de forma decisiva. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.”

“O Canadá é uma sociedade pluralista que funciona. Nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadenses continuam comprometidos com a sustentabilidade. Somos um parceiro estável e confiável em um mundo que está longe de ser um parceiro que constrói e valoriza relacionamentos a longo prazo.”

“Esse é o caminho do Canadá. Escolhemos isso abertamente e com confiança, e é um caminho amplamente aberto para qualquer país disposto a levá-lo conosco”, ele concluiu.

O discurso altivo – e que em nenhum momento citou o nome de Trump – incomodou extremamente ao presidente dos EUA que, ao discursar no dia seguinte, fez questão de repetir várias vezes o nome de Carney e dizer que o Canadá só existia graças aos EUA. Antes da viagem a Davos, nova provocação via AI: uma reunião de Trump com líderes europeus no Salão Oval, em que era exposto um grande mapa, com o Canadá, a Groenlândia e a Venezuela sob as cores da bandeira norte-americana.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *