Reduzir a jornada e acabar com a escala 6×1 não é pauta ideológica: é agenda econômica, social e civilizatória para país que quer crescer com inclusão.
MARCOS VERLAINE (*)
Trabalho que adoece não desenvolve. Este é o centro do debate público sobre 2 relevantes pautas do mundo do trabalho: redução da jornada de trabalho e também da escala 6×1.
O Brasil chegou ao ponto de inflexão histórica. Com índices baixos de desemprego (5,2%)1, transição demográfica acelerada2 e profundas transformações tecnológicas3, manter modelo de trabalho baseado em jornadas extensas, baixa qualidade de vida e alta exaustão deixou de ser apenas injusto. Tornou-se economicamente irracional, portanto, inviável do ponto de vista, sobretudo, econômico e humano.
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 não é mais tema setorial: é agenda estrutural de desenvolvimento. O Congresso não pode continuar tratando essas pautas como tabu ou ameaça ao mercado. Essas precisam ser tratadas como políticas públicas estratégicas.
A PEC 148/15, já aprovada na CCJ do Senado, que reduz a jornada constitucional de 44 para 36 horas semanais, simboliza essa virada de chave. O debate deixou de ser teórico: está no centro da agenda legislativa e dialoga com experiências internacionais que mostram ganhos de produtividade, redução de adoecimentos e melhora no desempenho econômico.
Países que reduziram jornadas não quebraram. Reorganizaram seus modelos produtivos. Insistir no argumento do “colapso econômico” é repetir discurso que já foi usado contra férias, 13º salário e jornada de 44 horas.
REDUÇÃO DA ESCALA 6X1
Paralelamente, não avança no Congresso a proposta de redução da escala 6×1, com projetos e PEC que preveem o fim do modelo de 6 dias de trabalho para apenas 1 de descanso, substituindo-o por formatos como 5×2 e, em alguns setores, até 4×3, o que garantiria ao menos 2 dias consecutivos de folga/descanso.
A mudança de escala não é acessória: é estrutural, porque reorganiza o tempo social, redistribui postos de trabalho e altera profundamente a lógica de funcionamento do mercado laboral brasileiro.
QUEM GANHA E QUEM PERDE
Os trabalhadores ganham saúde mental, convivência familiar, tempo de vida e dignidade. Ganham também em segurança: menos acidentes, menos afastamentos, menos adoecimento ocupacional.
A sociedade ganha em produtividade estrutural, consumo, circulação de renda e redução de custos indiretos do sistema de saúde e da Previdência.
O Estado ganha em formalização, arrecadação e dinamização econômica.
O mercado interno se fortalece, o emprego se expande, e setores intensivos em mão de obra são estimulados a contratar mais, em vez de explorar jornadas exaustivas.
Quem perde? Perdem os modelos empresariais baseados em superexploração do trabalho, baixa inovação e gestão atrasada. Perdem estruturas que dependem de mão de obra barata, longa jornada e pouca qualificação para manter margens de lucro.
Não é o pequeno empreendedor que é protegido pela escala 6×1. É o modelo produtivo atrasado que se beneficia dessa.
FALSO DILEMA ECONÔMICO
O discurso de que a redução da jornada destruirá o PIB, elevará custos e inviabilizará empresas ignora 2 fatores centrais: produtividade e transição.
As propostas em debate — tanto a redução da jornada semanal quanto o fim da escala 6×1 — preveem implementação gradual, adaptação setorial e negociação coletiva.
Não se trata, pois, de ruptura brusca, mas de reorganização progressiva do sistema produtivo.
Entidades como as centrais sindicais defendem que a medida pode gerar milhões de novos empregos, enquanto setores empresariais projetam aumento de custos. A verdade está no meio: haverá impacto, sim, mas impacto não é colapso.
Toda mudança estrutural gera ajustes. A pergunta correta não é “se haverá custo”, mas quem paga o custo: a sociedade inteira adoecendo, ou setores econômicos se modernizando?
CONGRESSO OMISSO, DEMOCRACIA FRÁGIL
O Congresso Nacional não pode continuar terceirizando esse debate. Reduzir jornada e rever escalas não é populismo. É política pública baseada em dados, experiências internacionais e realidade social.
O Parlamento precisa agendar, debater, ouvir a sociedade e votar.
Empurrar o tema para o futuro é escolher manter o presente injusto.
Mais ainda: os presidenciáveis precisam ser submetidos a essa pauta.
Quem quer governar o Brasil precisa dizer claramente: é a favor ou contra reduzir a jornada? É a favor ou contra o fim da escala 6×1? É a favor ou contra a reorganização do trabalho como política de desenvolvimento?
EMPREGABILIDADE COMO PROJETO DE PAÍS
Reduzir jornada e transformar escalas não é só melhorar a vida de quem já trabalha. É aumentar a empregabilidade, abrir vagas, distribuir oportunidades e democratizar o acesso ao trabalho formal. É política de inclusão produtiva, não apenas de proteção social.
O Brasil precisa decidir se quer continuar sendo um país que cresce explorando tempo de vida ou País que se desenvolve e valoriza o trabalho humano. A redução da jornada e o fim da escala 6×1 não são concessões: são investimentos no futuro econômico, social e democrático do País.
E o tempo político para isso é agora. Se o Congresso não liderar, será cobrado. Se os presidenciáveis não assumirem posição, serão deslegitimados. Porque trabalho digno não é favor: é fundamento de qualquer projeto sério de nação.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 A taxa de desemprego no Brasil atingiu 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE em 2012, com cerca de 5,6 milhões de pessoas desocupadas, mas o índice reflete aumento da informalidade, com 37,7% dos trabalhadores sem carteira assinada. Os dados da Pnad Contínua (IBGE) mostram melhora no mercado de trabalho, impulsionada por setores como agricultura e construção, e aumento na renda, embora haja debate sobre a qualidade dos postos de trabalho.
2 A transição demográfica acelerada, notória no Brasil, é o rápido declínio das taxas de mortalidade e natalidade, que resultam em envelhecimento populacional acelerado e redução do crescimento, com a taxa de fecundidade abaixo de 1,75 filho por mulher. O País vive a fase de transição (terceira fase), caracterizada por rápido envelhecimento e a passagem do bônus demográfico, com a população acima de 60 anos crescendo mais rápido que qualquer outro grupo. Bônus demográfico é período de oportunidade econômica em que a proporção da PIA (População em Idade Ativa) — 15 a 64 anos — cresce significativamente em relação aos dependentes — crianças e idosos —, e cria grande contingente de trabalhadores e impulsiona o crescimento econômico e social, como ocorreu no Brasil entre 1970 e 2020, embora com oportunidades perdidas devido à falta de investimento em educação e emprego, segundo economistas.
3 Profundas transformações tecnológicas, impulsionadas por IA, 5G e computação em nuvem, estão reconfigurando setores como saúde, indústria e educação. Esta “Transformação Digital” altera o mercado de trabalho, e exige novas habilidades, enquanto revoluciona o cotidiano com internet das coisas, realidade virtual e automação. O foco atual é a eficiência, sustentabilidade e conectividade contínua.











