Governo Tarcísio aprofunda sucateamento de vigilância epidemiológica em São Paulo

Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) foi extinta e situação se agrava - Foto: Prefeitura de Tietê

Enquanto São Paulo enfrenta sucessivas epidemias de dengue e o risco permanente de reintrodução de doenças como febre amarela e doença de Chagas, pesquisadores da área de endemias denunciam o sucateamento e o abandono dos laboratórios que historicamente sustentaram a vigilância epidemiológica do Estado de São Paulo. A situação se arrasta desde a extinção da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), decisão tomada ainda no governo João Doria (PSDB), mas mantida e aprofundada sob a gestão do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Laboratórios que antes atuavam de forma integrada no controle, monitoramento e pesquisa de doenças endêmicas hoje operam, segundo os pesquisadores em entrevista ao portal Metrópoles, de maneira precária, sem autonomia administrativa, sem estrutura adequada e sem condições mínimas de funcionamento. Ao todo, 14 laboratórios vinculados à antiga Sucen foram transferidos para o Instituto Pasteur após a extinção do órgão, em 2022. No entanto, a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) afirma que essa incorporação jamais se concretizou de forma efetiva.

“Desde a extinção da Sucen, mais de dez laboratórios estão sem CNPJ, funcionando de forma improvisada e informal dentro do Instituto Pasteur, que sequer possui estrutura administrativa para absorver essa rede”, denuncia a entidade. Segundo a associação, o Pasteur é uma divisão da Secretaria da Saúde, sem capilaridade no interior do Estado, justamente onde o controle de endemias é mais necessário.

A presidente da APqC, Helena Dutra Lutgens, alerta para o impacto direto dessa desestruturação sobre os municípios menores. “O papel da Sucen no interior sempre foi fundamental, porque muitos municípios não têm condições técnicas nem estrutura para realizar o controle de endemias. A extinção do órgão desorganizou completamente esse trabalho”, denuncia.

A precarização se reflete no dia a dia dos laboratórios. Pesquisadores relatam falta de equipes de limpeza, segurança e manutenção, impossibilidade de compra direta de insumos e equipamentos de alto custo – alguns avaliados em cerca de R$ 500 mil – sem manutenção periódica. Até mesmo veículos apropriados para coleta de material biológico deixaram de existir. 

“Hoje, requisitar um veículo virou um calvário burocrático. Muitas vezes dependemos de carros emprestados, que nem são adequados para transporte de material biológico, o que gera risco e atrasa o trabalho”, relata o pesquisador Horácio Teles, conselheiro da APqC.

Outro problema grave apontado pelos pesquisadores é o desmonte da integração entre pesquisa e vigilância. Servidores que atuavam em campo foram deslocados para outras estruturas da Secretaria da Saúde, enquanto os pesquisadores ficaram concentrados no Instituto Pasteur. “Esse racha comprometeu a sinergia entre quem pesquisa e quem executa o controle das doenças. É uma perda enorme para a saúde pública”, enfatiza Teles.

Além do sucateamento físico, os pesquisadores denunciam um verdadeiro “apagão de dados”. Bancos de dados históricos, construídos ao longo de décadas, com informações sobre a evolução do Aedes aegypti, moluscos e outros vetores, deixaram de ser acessíveis após a extinção da Sucen. A perda dessas séries históricas compromete a análise do cenário epidemiológico e a formulação de políticas eficazes de prevenção.

Entre os monitoramentos interrompidos está o acompanhamento do barbeiro, inseto transmissor da doença de Chagas. “Esse trabalho é essencial para orientar os municípios e evitar que pessoas sejam expostas ao inseto contaminado. A desestruturação da Sucen comprometeu um serviço básico de prevenção”, alerta Helena Lutgens.

Apesar das denúncias, o governo Tarcísio nega qualquer problema. Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde afirma que a incorporação da Sucen à Coordenadoria de Controle de Doenças teria modernizado a vigilância em saúde e garantido integração das ações. A pasta sustenta que não há falta de insumos, nem pesquisas paralisadas, e que os prédios e equipes seguem funcionando normalmente.

A realidade descrita pelos pesquisadores expõe a política do governo Tarcísio de Freitas, expressão do bolsonarismo em São Paulo, marcada pelo desprezo à ciência e ao conhecimento acumulado pelas instituições públicas. O desmonte de estruturas estratégicas de pesquisa e vigilância em saúde ocorre justamente em um momento de avanço da dengue e de risco de novas epidemias. Isso revela não apenas negligência administrativa, mas uma profunda falta de compromisso com a prevenção e com a saúde da população paulista.

A gravidade desse cenário é reforçada por alertas da própria comunidade científica sobre o futuro da dengue no país. O  infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirmou que o Brasil seguirá convivendo com elevados números da doença por décadas. “A gente vai ter, nos próximos dez, 20 anos, muitos casos de dengue. Eventualmente eles podem ter um impacto menor, à medida que aumentemos a cobertura dessas novas tecnologias de prevenção, mas não devemos observá-lo no curto e médio prazo.”

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