DAVI MOLINARI
Finalmente, a paz reinava no Fale Mais Sobre Isso. Uma paz tão rara que dava até desconfiança. Nunca estive tão relaxado à mesa com o Doutor. Ele, a caneta e o bloquinho formavam aquele domo analógico de proteção contra o colapso civilizatório digital — um escudo simbólico contra as redes sociais, onde o Brasil de 2026 seguia firme como um hospício sem porteiro: oscilando entre o delírio de um PIB de 2,4% e a fúria histérica de quem confunde o STF com um tabuleiro de War comprado na Shopee.
Juvenal, sempre em estado de graça, circulava entre os estudantes como um ministro das Relações Exteriores do boteco. Ali não havia ICE, só no copo da caipirinha. Democracia líquida. O ambiente não admitia trujões, intrujões, nem topetes laranja querendo tomar o bar “em nome da liberdade”. Muito menos generais de pijama sonhando com anistia em dosimetria criativa, como se fosse promoção de Black Friday.
— Nem parece um boteco — soltei, alto o suficiente para provocar.
O Doutor arqueou a sobrancelha esquerda. No dialeto dos sondadores de alma, aquilo podia significar “continue” ou “você vai se arrepender”.
— Veja, Doutor… ninguém aqui tem bilhões escondidos em paraíso fiscal, mas todo mundo parece feliz. Isso é quase um ataque hacker ao algoritmo da inveja.
Juvenal brotou do nada — como todo garçom experiente — pousando dois chopes e uma porção de manjubinhas, com a solenidade de quem entrega um dossiê confidencial.
— Patrão, saiu em Davos: três mil sujeitos concentram dezoito trilhões de dólares. Dá pra comprar o PIB da China, Japão, Alemanha… e ainda sobra pra gorjeta. A conta não fecha nem com novena forte.
— Pois é, Juvenal. Como a economia funciona assim?
— Não funciona — respondeu, seco. — Isso é ambição em estado puro. Shakespeare explicou tudo antes do Excel. Rei Lear dividiu o reino por bajulação. Macbeth matou o chefe por causa de fofoca de bar. É sempre assim: cobiça, poder e gente achando que nasceu para mandar. O famoso Efeito Lúcifer: o anjo que queria ser CEO do Céu e acabou promovido a síndico do Inferno.
— Não sabia que você era católico — provoquei.
— Não sou. Sou ecumênico pragmático. Me aproprio do que funciona. Salve Jorge! — disse, olhando para o teto, talvez esperando um cavaleiro baixar o preço do gás.
— Tá cheio de ambicioso pedindo proteção divina ultimamente — continuei. — Mas nem reza, nem dólar blindam Vorcaro, Mansur, Ibaneis, e outros figurões. Acreditavam que tinham comprado o Judiciário, mas a máquina de lavar dinheiro quebrou na mão da PF.
Tof! Tof! Juvenal bateu uma mão aberta na outra fechada, como quem diz, se deram mal.
O Doutor fez um gesto entre o tédio clínico e o interesse acadêmico.
— Isso é queda de Ícaro, Doutor — provoquei. — O sujeito voa alto com asas de ego e cera de impunidade, até o sol da realidade derreter tudo. Agora esses bilionários vivem ansiedade, depressão e a experiência inédita de pagar condomínio com dinheiro contado. Mas não se engane: tem gente aqui que olha a manjubinha com desprezo, mas faria qualquer coisa pra estar no lugar dos vilões. Reclamam da corrupção, não pelo sentimento de fazer justiça. É raiva por terem ficado fora do esquema. Inveja pura. Narcisismo alheio mal digerido.
Apontei para a rua, onde o brilho artificial da Faria Lima tentava esconder seu porão moral.
— A polícia chegou à Wall Street tupiniquim. Onde antes se escondia dinheiro da esposa e da Receita, agora só se esconde o rosto das câmeras. É a psicopatologia do sucesso: o sujeito pontua alto na Tríade Negra — narcisismo, maquiavelismo e psicopatia — e se acha um strongman. Mas quando a PF bate, o topete desmancha, a bravata evapora e sobra um choro silencioso na jacuzzi da cobertura.
— Eles sofrem de insatisfação crônica, Doutor. O tal do objeto do Lacan. Nunca basta. Querem ser Trump, Bolsonaro, mito, messias, Bezos, Musk, CEO da pátria. O poder vira prisão dourada. Sem cargo e sem foro, resta só o eco de uma personalidade inflada e vazia.
O Doutor parou de escrever. Guardou o bloco com a solenidade de quem fecha um prontuário. Bebeu o chope, limpou a espuma do bigode e me encarou como quem acessa meu CPF, meu inconsciente e meu limite de crédito ao mesmo tempo.
— O problema, meu caro, não é a ambição — disse. — É o homem que acredita que a sombra que projeta é maior que o sol que a produz.
Pagou a parte dele. Exata. Nem gorjeta messiânica, nem avareza neoliberal. E saiu.
Fiquei ali, encarando o rabo de uma manjubinha frita, tentando entender a vida.
— Juvenal… o que ele quis dizer?
— Que o senhor fala demais e paga de menos, patrão. Mas, no fundo, ele quis dizer que quem se acha Deus no boteco acorda humano na ressaca.
— Desce mais uma?
Publicado originalmente em Divã no Boteco LXXI. Enviado pelo autor.











