A direita refém de projeto pessoal

Jair Bolsonaro e o filho "01" (Foto: Evaristo Sá - AFP)

Bolsonaro troca a construção da sucessão viável por estratégia de autopreservação: controlar a direita, blindar o clã e emparedar as instituições.

MARCOS VERLAINE (*)

Não se trata de sucessão, mas de sobrevivência política. É assim que pode ser lida a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) “pra valer”. Longe de representar movimento natural de renovação ou transição de liderança, essa se configura como gesto de autoproteção e autodefesa do bolsonarismo familiar.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não está organizando o futuro da direita brasileira; está tentando garantir o próprio futuro político, jurídico e simbólico. A lógica que o orienta não é estratégica no sentido clássico da política. Nem tampouco é programática, nem institucional, nem orientada por projeto nacional. É defensiva, personalista e centrada ou autocentrada na preservação do clã.

Se Bolsonaro fosse ator político racional no plano estratégico, não teria tentado golpe de Estado, não teria se colocado em rota de colisão frontal com as instituições republicanas, não estaria hoje politicamente isolado e juridicamente vulnerável. E preso!

Ao contrário, estaria atuando como líder relevante da direita democrática, disputando hegemonia no campo conservador, estruturando alianças, formulando agenda e organizando a transição de poder legítima e competitiva.

Nada disso ocorreu ou vai ocorrer, porque a prioridade dele nunca foi a vitória da direita como campo político, mas a manutenção de si mesmo como líder incontornável desse campo político e ideológico. O projeto nunca foi coletivo; sempre foi pessoal.

FLÁVIO É INSTRUMENTO, NÃO PROJETO

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, anunciada pelo próprio pai em carta escrita à mão em dezembro de 2025 e apresentada como “irreversível”, não se sustenta como projeto nacional robusto.

Essa não nasce de acúmulo político, formulação programática ou articulação social ampla. Opera em outra chave: controle interno do bolsonarismo e instrumento de barganha política.

Funciona em 3 níveis complementares:

1. Moeda de troca: mantém carta forte na mesa para negociações futuras, especialmente em torno de anistia, proteção política e blindagem jurídica. A candidatura funciona como ativo de pressão, não como projeto de governo.

2. Controle do campo da direita: impede que outras lideranças ocupem plenamente o centro do campo conservador, a fim de preservar o protagonismo do clã e bloquear processos naturais de renovação e reorganização da direita.

3. Blindagem familiar: garante que a sucessão seja endógena (interna), não política, para proteger interesses privados sob a capa de suposto projeto público. Enquanto ocupou o Planalto fez isto sem cerimônias.

Flávio não é apresentado como liderança nacional, mas como extensão patrimonial do bolsonarismo: não representa agenda, representa linhagem.

OBSESSÃO PELO SENADO

O verdadeiro eixo estratégico não está no Planalto. Está no Senado. O projeto central do bolsonarismo para 2026 é formar superbancada senatorial, com até 44 cadeiras, o que garantiria maioria absoluta. Felizmente, esse projeto não terá sucesso, pois não está ancorado na real política, mas no desejo de vingança contra o Poder que conseguiu conter o projeto de poder, golpista, do ex-presidente.

Esse movimento revela a real natureza do plano: deslocar o conflito institucional do Executivo para o Legislativo. O Senado deixa de ser visto, assim, como “Casa da Federação” e passa a ser tratado como instrumento de pressão política e institucional.

A lógica é direta: controlar o Senado para controlar o sistema político, utilizando parte do Poder Legislativo como mecanismo de coerção contra outros Poderes. Já tem feito isto por meio do Orçamento Público bilionário que hoje controla e opera.

EMPAREDAR O SUPREMO

Com maioria no Senado, a agenda declarada é o confronto direto com o STF: impeachment de ministros, limitação de decisões monocráticas, endurecimento das sabatinas e bloqueio institucional da Corte.

Não se trata de reforma institucional, modernização do sistema ou debate legítimo sobre equilíbrio de Poderes. Trata-se, essencialmente, de tentativa de o constrangimento político de determinado Poder.

É estratégia de coerção, não de harmonia institucional. O objetivo não é fortalecer a democracia, mas enfraquecer o sistema de freios e contrapesos. O Supremo passa a ser tratado como inimigo político, não como instituição constitucional.

Isso revela o traço mais profundo do bolsonarismo: a recusa estrutural da lógica republicana. Onde há instituições autônomas, Bolsonaro enxerga obstáculos. Onde há limites, ele vê ameaças. Onde há regras, ele vê inimigos.

DIREITA SEQUESTRADA

O efeito colateral — e talvez mais grave — é o sequestro do campo da direita por projeto pessoal.

A direita brasileira deixa de discutir programa, economia, desenvolvimento, Estado, políticas públicas e governabilidade para orbitar em torno de anistia, proteção familiar, vingança institucional e disputa simbólica.

O bolsonarismo não constrói futuro; administra conflitos. Não organiza sucessão; produz dependência. Não forma lideranças; concentra poder.

Substitui projeto por lealdade, política por identidade, debate por culto.

PROJETO DE PODER SEM PAÍS

O que está em curso não é estratégia eleitoral consistente, nem projeto nacional de direita. É projeto de poder sem país. Movimento cujo centro não é o Brasil, mas Bolsonaro.

Não é a democracia, mas a sobrevivência. Não é a governabilidade, mas o controle.

Flávio Bolsonaro, o Senado, o STF e a narrativa permanente de confronto são peças do mesmo tabuleiro: a tentativa de reconstruir poder institucional para resolver problemas pessoais e familiares.

Não há visão de Estado. Não há projeto de nação.

Há apenas um líder que, incapaz de pensar estrategicamente o futuro do País, tenta reorganizar o sistema político a partir de visão estreita, caolha e autocentrada, estruturada em torno da própria biografia, que, convenhamos, está longe de ser lisonjeira.

Quando a política se reduz à biografia de uma única pessoa, o resultado não é liderança. É captura.

O ex-presidente não é confiável nem mesmo para o próprio campo político. Trata-se de figura que nada acrescentou à democracia nem ao debate público qualificado.

Bolsonaro sempre se mostrou disfuncional ao jogo institucional: foi assim durante toda a trajetória parlamentar dele, marcada pela irrelevância legislativa e pela incapacidade de construir consensos ou produzir resultados concretos.

Como presidente, repetiu o padrão — e no momento de maior aflição nacional, a pandemia —, optou pela omissão, pelo negacionismo e pelo desprezo à vida, com consequências trágicas para o País. Não esquecer não é revanchismo: é resistência democrática.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e reator do HP

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