Nesta terça-feira (27), os russos recordaram os 82 anos da libertação de Leningrado, atual São Petersburgo, pelo Exército Vermelho, depois de 872 dias de cerco pelos facínoras hitleristas, ao inaudito custo de 1 milhão de vidas, a maioria pela fome, mais que pelos bombardeios.
“Para nós, habitantes de Leningrado, 27 de janeiro de 1944 é uma data especial. Ela é reverenciada em todas as famílias cujos parentes passaram pelas provações terríveis e inimagináveis do bloqueio. O enorme feito da cidade sitiada nunca será esquecido. Eles, nossos veteranos, deixaram aos seus descendentes por séculos um exemplo de altruísmo, misericórdia, unidade e verdadeiro patriotismo”, disse ali no ano passado Putin, ele próprio nascido na cidade, nas comemorações dos 80 anos da vitória na Grande Guerra Patriótica sobre o nazismo.
Este ano, como faz todos os anos, Putin homenageou a “Cidade Heroica” – título concedida pela União Soviética em 1965 -, e foi ao monumento à Pátria, no Cemitério Memorial Piskarevskoye, onde ele colocou uma coroa de flores, registrou o Komsomolskaya Pravda. Em 186 valas comuns e 6 mil sepulturas individuais, estão enterrados ali 420 mil habitantes que morreram de fome, doenças, bombardeios e 70 mil defensores. Entre esses, no jazigo comum nº 27, seu irmão Victor, então com dois anos.
A ordem de Adolf Hitler era tomar e destruir a cidade berço da Revolução Bolchevique e estandarte da cultura russa, como um dos objetivos centrais de sua Operação Barbarrossa. Mas o heroísmo de seus defensores e de sua população barrou o caminho à blitzkrieg nazista. A mobilização da população civil para criar linhas defensivas no sul da cidade – principalmente mulheres, já que os homens trabalhavam nas fábricas ou tinham que ir para o front – e a forte resistência do Exército Vermelho impediu que os alemães tomassem a cidade como uma ‘tempestade’, como gostariam.
Em 8 de setembro de 1941, começava o infame bloqueio nazista a Leningrado. Os nazistas haviam bombardeado e destruído armazéns lotados de alimentos e, segundo um inventário dos estoques feito quatro dias após o fechamento do cerco, pão, grãos e carne mal chegavam para 35 dias de consumo.
Sob o cerco e com apenas uma via extremamente frágil de abastecimento de Leningrado pelo lago congelado – a “Estrada da Vida” -, as rações alimentares tiveram que ser reduzidas a tão pouco quanto 250 gramas diárias para os trabalhadores e 125 gramas para todos os demais.
A morte por fome e por frio se tornou um flagelo, com corpos se espalhando nas ruas e nas escadarias. O combustível acabou, a eletricidade foi cortada nos prédios residenciais e o abastecimento de água entrou em colapso. Em novembro de 1941, a duração média dos bombardeios era de nove horas por dia.
Durante o cerco, 107.158 bombas de alto poder explosivo e incendiárias e mais de 150.000 projéteis de artilharia pesada foram lançados pelos nazistas contra a cidade.
Duas tentativas de romper o bloqueio falharam, mas na terceira, a Operação Iskra, em janeiro de 1943, as tropas soviéticas conseguiram restabelecer um corredor de dez quilômetros de largura para abastecimento da cidade. Por volta da meia-noite do dia 18, o rádio anunciou o sucesso. Os habitantes saíram às ruas e avenidas para comemorar e, no início da manhã de 19 de janeiro, a cidade já estava adornada com bandeiras.
LENINGRADO, CIDADE HEROICA
Demoraria ainda um ano para que as tropas soviéticas expulsassem os nazistas para 60 a 100 km para longe de Leningrado. Ao longo da operação, a artilharia soviética infligiu enormes perdas humanas e materiais ao inimigo: segundo dados incompletos, as forças de Hitler sofreram baixas superiores a 36.000, incluindo soldados e oficiais.
Foi a primeira ofensiva após a transferência da iniciativa estratégica para o Exército Vermelho, alcançada por meio de suas vitórias em Stalingrado, no Cáucaso, em Kursk e no Dnieper, que marcaram a virada decisiva na Grande Guerra Patriótica.
No relato da testemunha ocular da história, Tatyana Kuzmina, em 27 de janeiro de 1944 os moradores ouviram o seguinte anúncio no rádio: “Cidadãos de Leningrado! Corajosos e firmes leningradenses! Juntamente com as tropas da Frente de Leningrado, vocês defenderam nossa cidade. Com seu trabalho heroico e perseverança inabalável, superando todas as dificuldades e tormentos do cerco, vocês forjaram a arma da vitória sobre o inimigo, dedicando todas as suas forças à causa da vitória”.
“De repente, começaram a atirar de todas as direções, de todos os navios — salvas enormes e ensurdecedoras. Nem entendíamos o que estava acontecendo. Então, alguém gritou na escadaria: ‘Rompam o cerco! Rompam o cerco!’ Acreditamos até o fim que nosso exército derrotaria o fascismo. Quando comemoramos e nos alegramos na margem do Neva, todos gritavam: ‘Estamos vivos, vamos sobreviver, vamos viver, com certeza vamos sobreviver'”.
Em 22 de dezembro de 1942, foi instituída a medalha “Pela Defesa de Leningrado”, concedida a aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Atualmente, segundo o jornal Izvestia, cerca de 37 mil “filhos do cerco” vivem em São Petersburgo — leningradenses que vivenciaram pelo menos um dia daquele horror. E para muitos o cerco permanece hoje uma tragédia pessoal, que conhecem por meio de seus avós, seus pais ou que até mesmo vivenciaram pessoalmente.
Como tem repetido Putin, “para todo o nosso país, a vitória de Leningrado permanecerá para sempre um triunfo da vida, da coragem e do poder espiritual do nosso povo”.
INTENÇÃO GENOCIDA
Em 2022, o Tribunal Federal de São Petersburgo reconheceu o Cerco de Leningrado pela Alemanha Nazista e suas forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial como genocídio e também provou que representantes de 11 países participaram do crime contra a Humanidade. Além de alemães, havia cidadãos da Finlândia, Bélgica (Legião Flamenga), Espanha (Divisão Azul), Holanda (Divisão Nederland) e Noruega (Legião Norueguesa da Waffen-SS), bem como grupos de voluntários austríacos, letões, poloneses, franceses e tchecos.
Como salientou o presidente Putin nos 80 anos da Vitória, “o inimigo [Alemanha nazista] planejava varrer a cidade da face da Terra, cercá-la em um anel e destruí-la por meio de bombardeios e ataques de artilharia, além de matar os civis de fome. Essas eram intenções conscientes e documentadas dos nazistas, planos de destruição sistemática, extermínio de milhares e milhares de pessoas indefesas.”
Conforme os documentos que o tribunal investigou, o comando supremo da Alemanha nazista decidiu “varrer a cidade de Leningrado da face da Terra”, de acordo com a diretiva número 1601 do Comando Supremo da Alemanha Nazista ao Chefe do Estado-Maior da Marinha Alemã, datada de 29 de setembro de 1941. O documento afirmava que, após a derrota da Rússia Soviética, “a continuidade deste importante centro populacional não era de interesse” e que a Finlândia também não desejava uma grande cidade em suas novas fronteiras.
O plano previa o cerco total de Leningrado e sua “destruição completa” com fogo de artilharia de todos os calibres e bombardeio aéreo implacável. Os problemas de habitação e alimentação da população “não podem e não devem ser resolvidos” pela Alemanha, declararam, e, portanto, qualquer oferta de rendição deveria ser rejeitada. Nas palavras do documento, em uma guerra “pelo direito de existir”, Berlim “não tinha o menor interesse em preservar sequer uma parte da população”.
De acordo com outro documento, Franz Alfred Six, líder do Comando Avançado Moscou do Einsatzgruppe B, disse em julho de 1941 a oficiais militares alemães: “Hitler pretende estender a fronteira oriental do Reich até a linha Baku-Stalingrado-Moscou-Leningrado… Surgirá uma ‘faixa ardente’ na qual toda a vida será apagada”, acrescentando: “ Pretende-se dizimar cerca de 30 milhões de russos que vivem nesta faixa por meio da fome, removendo todos os alimentos”.
Six adiantou que Leningrado seria arrasada e que todos os alemães estavam “proibidos, sob pena de morte, de dar a um russo até mesmo um pedaço de pão”.
Em suma, uma política de fome motivada racialmente, tornada parte integrante da guerra alemã de extermínio contra a população da União Soviética.
Segundo o historiador Michael Walzer, que “mais civis morreram no cerco de Leningrado do que nos infernos modernistas de Hamburgo, Dresden, Tóquio, Hiroshima e Nagasaki juntos” – o cerco mais letal da história mundial.
A ESTREIA DA LENINGRADOSKAIA, DE SHOSTAKOVICH
Uma das páginas mais pungentes da resistência em Leningrado foi a estreia, ensaiada em meio à guerra, à fome e ao frio, da sétima Sinfonia de Dmitri Shostakovich, a “Leningradoskaia”, no dia 9 de agosto de 1942. O compositor iniciara a obra ainda em Leningrado, mas atendeu a ordem de Stalin para se dirigir para Moscou, sob a política de preservar a cultura soviética.
O maestro da Orquestra da Rádio de Leningrado, Karl Eliasberg, que conduziu a estréia nessas condições dramáticas, disse: “triunfamos sobre a desalmada máquina de guerra nazista”.
A apresentação foi transmitida por alto-falantes em todo o perímetro da cidade – tanto para animar o povo russo quanto para transmitir aos alemães que a rendição estava fora de questão.
Durante os ensaios, muitos músicos desmaiavam de tão famintos e até três morreram nesse período. Sob o cerco, dos 40 membros originais da orquestra apenas 15 permaneceram na cidade, o restante estava morto ou lutando na linha de frente. Uma ordem teve que ser emitida aos soldados na frente de batalha, convocando qualquer pessoa com habilidade musical para se juntar à orquestra, o que funcionou.
Muitos anos após o fim da guerra, o maestro Eliasberg foi abordado por um grupo de turistas alemães, que estavam do outro lado das barricadas e que ouviram sua orquestra tocar a Sétima Sinfonia de Shostakovich. Eles vieram especialmente para dizer ao maestro que naquela época, em 9 de agosto de 1942, perceberam que nunca tomariam Leningrado. Porque, diziam, havia um fator mais importante do que a fome, o medo e a morte. Era a vontade de permanecer humano.
A “vontade de permanecer humano” e a prevalência do espírito de solidariedade, socialista e patriótico, também explica porque, naquela situação dantesca, a população de Leningrado, “os grupos de primeira resposta” civis, haja construído mais de 4.100 fortes e bunkers, equipado cerca de 22.000 posições de tiro em edifícios e instalado mais de 35 quilômetros de barricadas e obstáculos antitanque nas ruas. Os operários produziram e repararam cerca de 2.000 tanques, 1.500 aviões, 850 navios de guerra e embarcações de diversas classes, entre outros armamentos.
Também como faz todo ano, Putin foi ao memorial da “Pedra da Fronteira”, lugar sagrado para os habitantes de Leningrado de todas as gerações. Neste pedaço de terra, em setembro de 1941, soldados soviéticos cercados mantiveram suas posições sob fogo pesado, repelindo 16 ataques por dia. Foi ali que o próprio pai de Putin, Vladimir Spiridonovich, também derramou sangue e ficou gravemente ferido. Sua vida foi salva por um camarada que milagrosamente o carregou através do gelo do Neva. O monumento foi inaugurado em 12 de setembro de 1972, em memória dos mais de 60.000 heróis que deram suas vidas para salvar a cidade às margens do Neva.
Como tem afirmado Putin, foi o povo soviético que trouxe “vida, paz e liberdade” para a humanidade, o que foi feito à custa de enormes sacrifícios e graças ao heroísmo durante a Segunda Guerra Mundial – e a resistência de Leningrado ao nazismo segue sendo um marco.











