Enquanto a Vale não é punida, são elas quem sustentam as famílias, denunciam a fome e a crise de saúde mental e cobram um lugar na mesa de decisões
Sete anos após o crime da Vale em Brumadinho (MG), as comunidades atingidas continuam sem reparação integral, excluídas das decisões e submetidas a um cotidiano marcado pela degradação ambiental, insegurança no território, crises emocionais, escassez de alimentos e pela lentidão deliberada da recuperação. A maior tragédia humanitária e crime ambiental da história do país, que deixou 272 mortos, permanece sem qualquer responsabilização criminal.
Longe de ser um episódio do passado, o risco segue presente. Apenas nesta semana, três vazamentos de estruturas de mineração foram registrados na região Central de Minas Gerais, envolvendo áreas da Vale e da CSN e contaminando cursos d’água da bacia do rio Paraopeba. Sem vítimas registradas, os episódios expõem a continuidade do modelo minerário e reforçam o medo permanente de novas tragédias vivido pelas comunidades.
“Cinco anos atrás foi assinado um Acordo Judicial, que, naquela altura, já se sabia que seria insuficiente para reparação integral de danos coletivos e socioeconômicos causados ao povo de Minas Gerais. Esse acordo foi fechado sem a participação das pessoas atingidas. Ainda hoje, as comunidades atingidas seguem longe de encontrar solução para seus problemas. Inúmeros atrasos, problemas de gestão, prazos adiados, ausência de transparência e participação, desrespeito às comunidades e conivência com as ações da empresa criminosa são parte da rotina na bacia do Rio Paraopeba e Represa de Três Marias”, diz trecho do documento publicado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ao completar sete anos do crime.
As violações de toda ordem, o descumprimento de acordos e os inúmeros problemas enfrentados pelas comunidades ecoaram, sobretudo, nas vozes das mulheres atingidas, protagonistas de vídeos gravados por ocasião dos sete anos do rompimento da barragem. Nos depoimentos, elas denunciam a persistência dos danos ambientais e sociais, a morosidade da reparação e os impactos sobre a saúde física e emocional das famílias, além da exclusão dos atingidos na tomada de decisões, reafirmando o protagonismo feminino na resistência, na preservação da memória e na luta por justiça.
“Aumentou muito a situação dermatológica e psicológica… pessoas pensando em suicídio, tendo convulsão, crianças tendo crise, tá muito difícil a nossa situação, a gente não vê ação nenhuma dos compromissados, desse povo que fez esse acordo escondido, para eles – agora o acordo é para eles – é deles. Então agora nós precisamos fazer o nosso acordo”, diz Maria Santana, atingida de São Joaquim de Bicas. O acordo firmado entre a mineradora Vale, as instituições de justiça e o governo exclui a participação dos atingidos e gera indignação das famílias.
“As instituições de Justiça não nos representam de maneira alguma. Toda a atuação delas é voltada para defender a Vale, a criminosa. Nós estamos jogados, nós estamos padecendo, nós estamos sofrendo as consequências do crime. O rio continua cheio de rejeitos. A situação alimentar continua do mesmo jeito, a gente não tem segurança, não tem qualidade de vida”, completa Maria.
“Não consultaram a nós, atingidos, e nem a nós, comissões, se nós queríamos realmente que tirassem a nossa assessoria técnica. Para que nós somos comissões se eles não estão nem nos respeitando? Existe uma comissão feita pelo próprio Ministério Público (…) que tinha que ser respeitada. E no momento agora não está sendo respeitada”, critica a atingida e também moradora de São Joaquim de Bicas, Tatiana Rodrigues.
“Eles vão fazer novas eleições para toda a população (votar), sendo que não deveria ter sido feito assim, deveria ter sido feito consultando a nós, atingidos, a nós das comissões, a nós, lideranças, para ver se realmente a gente queria que fosse trocada a nossa assessoria técnica. Queremos a AEDAS aqui no nosso território, não queremos outra assessoria”, reivindica.
“Eu espero que as instituições de justiça revejam um acordo em que se tenha total participação das pessoas atingidas e que ele fique voltado para os atingidos, e não para a Vale, que solta propagandas com informações falsas, dizendo que está fazendo a reparação, sendo que até hoje não conseguiu limpar nem três quilômetros do rio Paraopeba”, aponta Geisa Tomé, atingida de Betim.
“Depois do rompimento da barragem, foi muito importante termos o auxílio emergencial, porque hoje, sem ele, nós, atingidos, não temos nenhum meio de sobrevivência. Isso é muito importante para a gente, porque é um jeito de pagar os remédios e comprar comida”, defende a atingida Rosiane Alves, de Igarapé.
Sete anos após a tragédia-crime, sobreviventes e familiares das vítimas vivem a expectativa de uma nova etapa do processo criminal. No dia 23 de fevereiro, começam as oitivas de testemunhas, abrindo uma fase decisiva que pode levar à responsabilização penal dos envolvidos no crime, até hoje sem condenações. “A expectativa é alta, nós acreditamos, sim, na justiça ainda. Apesar de terem passado sete anos do rompimento e até agora ninguém ter sido responsabilizado, a gente acredita, a gente está acompanhando o caso e vai fazer toda a pressão popular que puder para que a justiça seja feita”, afirma Guilherme Camponez, biólogo e coordenador do MAB.
“Essas pessoas têm que ser responsabilizadas pelos crimes que cometeram, crime de homicídio e também crime ambiental. A gente espera que tenha júri popular, sim, e que essas pessoas sejam responsabilizadas, sobretudo o Fábio Schvartsman, que na época era o presidente da Vale. A gente vai acompanhar essas audiências e espera que o desfecho seja o que o povo quer e espera: que eles sejam condenados”, completa.
JOSI SOUSA











