Inquérito sigiloso apura atuação de rede digital em campanhas e narrativas políticas; defesa nega irregularidades
A PF (Polícia Federal) abriu inquérito sigiloso que investiga a atuação de suposta teia de influenciadores digitais que teria prestado serviços de comunicação e amplificação de narrativas para diversas figuras públicas e políticas, incluindo o banqueiro Daniel Vorcaro, o pré-candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos), o deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador e pré à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A investigação, conduzida pela Dicor (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção) da PF, mira o que investigadores classificam como rede de influência orquestrada, também chamada de “esgotosfera” — termo usado no meio jornalístico e político para denominar perfis, sites e canais que propagam narrativas e conteúdos com alto viés ideológico e baixo critério de verificação.
Segundo fontes, agentes da PF mapearam que agências como a Qualimedia e a Eleven estariam no centro da teia, administrando perfis de influenciadores e sites — como @alfinetei, @futrikei, @garotxsdoblog e portais como “Bacci Notícias” e “Babados” — que teriam sido usados para amplificar narrativas alinhadas aos interesses dos investigados.
ACUSAÇÕES E LINHAS DE APURAÇÃO
A principal linha de investigação é apurar eventuais crimes eleitorais, de financiamento clandestino de campanha e de disseminação de desinformação paga.
A PF busca esclarecer se houve contratação de influenciadores por meio de pagamentos não declarados ou via “casas de apostas” e outras empresas — como 7GamesBet (ligada a Fernando Oliveira Lima) e VaiDeBet (de propriedade do cantor Gusttavo Lima) — para impulsionar mensagens e conteúdos favoráveis a determinadas narrativas políticas.
Em relação ao caso de Vorcaro, a investigação também se entrelaça com a Operação Compliance Zero, que apura supostas irregularidades envolvendo o Banco Master e a tentativa de venda de ativos ao BRB (Banco de Brasília).
Na apuração, havia narrativas circulando nas redes que buscavam desacreditar a atuação do Banco Central e legitimar a posição de Vorcaro na crise do banco.
DEFESAS E REAÇÕES
Até o momento, a defesa de Daniel Vorcaro negou que ele tenha contratado influenciadores ou participado de campanhas digitais de difamação contra autoridades públicas.
“Ele não tem qualquer relação com a contratação ou difusão de fake news, tampouco com campanhas digitais de difamação contra autoridade pública”, afirmou a defesa.
Assessores ou representantes de Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro não se manifestaram oficialmente sobre a investigação até a publicação desta matéria.
A PF, por sua vez, não divulga detalhes do inquérito em andamento por tramitar em sigilo, mas confirmou que a apuração busca analisar “ligações financeiras e de influência digital” entre os envolvidos.
ESPECIALISTAS PONDERAM RISCOS À DEMOCRACIA
Para analistas ouvidos em entrevistas, casos como esse colocam em debate a fronteira entre comunicação política legítima e práticas ilegais de influência digital.
“A linha que separa expressão política e financiamento oculto de mensagens é tênue, e esse tipo de investigação pode trazer clareza sobre como narrativas são impulsionadas em campanhas”, afirma cientista político que acompanha o caso — sob condição de anonimato, dada a sensibilidade do processo.
O inquérito segue em andamento, e a PF deve colher depoimentos e documentos nas próximas semanas, enquanto a Justiça aguarda decisões sobre medidas como quebras de sigilo ou bloqueios de contas vinculadas à rede investigada.
A investigação se insere em momento de ampliação do escrutínio sobre o uso de influenciadores digitais em política e campanhas eleitorais, em cenário em que narrativas on-line têm impacto direto no debate público e na formação da opinião dos eleitores.











