Parasitas do mercado financeiro – “não investem em produção, não empregam” – são aquinhoados com fortunas retiradas do orçamento da Saúde, Educação, Segurança, etc, aponta Ladislau Dowbor em entrevista à Folha
O economista e professor da PUC/SP, Ladislau Dowbor, afirma que, com a taxa básica de juros (Selic) de 15%, “um bilionário ganha R$ 400 mil por dia sem produzir nada”. Enquanto isso, a maioria expressiva dos trabalhadores brasileiros, “não só não acumula, como enfrenta dificuldade em manter o dinheiro que tem”, denuncia Dowbor, em entrevista à Folha de S.P, neste domingo (1/2). “O dinheiro vai justamente para grupos financeiros em favor da austeridade fiscal”.
“Os 300 bilionários no Brasil têm muito dinheiro guardado”, afirma o professor. “Imagine o dono de R$ 1 bilhão que, em vez de investir em serviços ou produtos, compra títulos do governo atrelados à Selic, que pagam 15% de juros ao ano. Sem produzir nada, esse bilionário vai ganhar mais de R$ 400 mil ao dia. Ou seja, quanto mais rico, mais dinheiro aplicado, maior o enriquecimento. É algo completamente diferente do que acontece com 80% da população, que não só não acumula, como enfrenta dificuldade em manter o que tem. O problema deles não é ‘o que que eu faço com o meu dinheiro?’. O que ganham nem dá para fechar o mês”, declarou.
Para Dowbor, “o desafio número um no Brasil é a desigualdade, é o país mais desigual do mundo. O PIB brasileiro soma R$ 12,3 trilhões. Se a gente dividir pela população do país, 215 milhões, arredondando, dá R$ 20 mil por mês, para uma família de quatro pessoas. Dá para viver, não? Mas há um alto grau de concentração de renda”.
O economista também constata que bilionários “não investem em produção, não empregam”. Neste quadro “a economia fica fragilizada”, diz Dowbor.
“A concentração de renda fragiliza a demanda que, naturalmente, vai fragilizar a produção. Imagine alguém com dinheiro: ele vê que as famílias não estão comprando. Se quiser pegar um empréstimo no banco para montar um negócio, vai pagar 25% ao ano – na China, é 2% ao ano, na Europa, entre 3% e 4%”, destaca. “Como ele vai completar o capital para desenvolver uma indústria com um custo desses? Vai ficar atolado em dívidas. Por outro lado, ele tem a opção de comprar ativos do governo que pagam 15% de juros”.
“(…) você precisa ter famílias com mais recursos para ter demanda, que dinamiza o investimento empresarial, que gera empregos, consumo, mais impostos para o Estado, que aplica o dinheiro de volta para fomentar a economia, e então o ciclo se completa. No Brasil, o ciclo da economia não fecha. Ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos”, critica.
Alimentado em grande parte pelo capital estrangeiro, o financismo especula em todas as atividades, exemplifica o ex-consultor de agências da Organização das Nações Unidas (ONU).
“Pago R$ 350 pelo dia de trabalho da minha faxineira, valor transferido para a conta dela de maneira digital. Como ela tem problemas de saúde, contratou um desses planos geridos por empresas que não entendem nada de saúde, são um grupo financeiro que oferece mensalidade que cabe no bolso. Então descubro que entre os sócios deste grupo está a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, que administra trilhões de dólares. Ou seja: parte do dinheiro que eu pago para uma pessoa pobre no Brasil vai para um grupo americano riquíssimo – que também é acionista da bandeira de cartão de crédito que eu uso para pagar o café da manhã na padaria”.
Na avaliação do economista, enquanto a bilionário lucra no ambiente de juros altos, o Estado e a população ficam com os prejuízos.
“A taxa Selic a 15% tira 10% do PIB em pagamento de juros, que vão para os grandes grupos da Faria Lima, para a Black Rock etc. Hoje o dinheiro é apenas uma informação no computador. Você dá ‘enter’ e transfere milhões, sem qualquer controle público sobre este processo. Outro dreno: o endividamento das famílias, que consome também 10% do PIB. Os juros de 25% ao ano pagos pelas pequenas e médias empresas (as grandes pegam dinheiro internacional a 3%), drenam mais 4% do PIB”.
“A evasão fiscal (dinheiro que deveria entrar no país e não entra), mais 6%. Renúncias fiscais, mais 4% – sendo que essas renúncias podem ser até positivas, como tecnologias para a agricultura familiar, mas aqui costuma ser por amizade com políticos. A tudo isso você acrescenta o fato de que, no Brasil, desde 1995, lucros e dividendos são isentos de impostos. Eu pago 27%, mas os bilionários pagam 0%”.
Ladislau Dowbor também classifica o Arcabouço fiscal de “palhaçada”. Ele defende que o governo precisa investir no social, na produção e na infraestrutura. “Pouco importa de onde o governo tira o dinheiro. Se não tiver o suficiente, pode gerar déficit, usar conversão das reservas cambiais, emitir dinheiro, aumentar a dívida”, disse.
“A contabilidade do arcabouço fiscal no Brasil, investimento público no bem-estar econômico é chamado de gasto. É uma cretinice dizer que, quando o país cresce pouco, é preciso reduzir gastos do governo”, critica Dowbor.
“Se, em vez de se preocupar com o arcabouço fiscal — que eu chamo de ‘palhaçada’, não de maneira irresponsável —, você se preocupa com políticas sociais, colocando mais dinheiro na educação, na saúde, é uma maneira de enriquecer as famílias. Porque sobra dinheiro para o consumo, que vai elevar as vendas, o lucro. Ganhando mais, o empresário vai pagar melhor e atrair mais pessoas”, disse o economista.
Dowbor também avalia que o governo deve “investir na inclusão produtiva, que envolve, sim, o repasse para benefícios como o Bolsa Família. Nessa hora, o pessoal da Faria Lima grita: ‘Meu Deus, vai gerar déficit!’. Não, este dinheiro é para dinamizar a economia. Em segundo lugar, investir em infraestrutura. Pouco importa de onde o governo tira o dinheiro. Se não tiver o suficiente, pode gerar déficit, usar conversão das reservas cambiais, emitir dinheiro, aumentar a dívida… O que importa é para onde vai o dinheiro”.
“Na ONU, a gente calcula que a cada R$ 1 investido em saneamento básico, R$ 4 são economizados em saúde. Ou seja, tem um efeito multiplicador, você enriquece a sociedade. Se você constrói uma ferrovia, reduz dramaticamente os gastos transportando soja de caminhão, a economia se torna muito mais produtiva. O dinheiro que o governo investe volta, com imposto sobre a atividade”.
“Também é preciso reduzir a transferência de dinheiro para paraísos fiscais; tem banco com mais de 30 filiais em paraísos fiscais, onde nenhum cliente tem nome, é só um número. No Brasil, o dinheiro vai justamente para grupos financeiros em favor da austeridade fiscal”, condena o professor titular de pós-graduação da PUC-SP.











