Descanse em paz Frei Sérgio, semeador do amanhã

Frei Sérgio - Foto: Marcos Corbari/Brasil de Fato

MATIAS REMPEL*

Com um sorriso franco, um punhado de anedotas e simplicidade tão orgânica quanto a vida e os campos que ajudou a semear, Frei Sérgio deixou pra trás as cicatrizes de 89 para continuar sendo teimoso anunciador de caminhos no sonho eterno da soberania popular…

Por aqui chegou assim, de chinelo, larga faceirice e muitas sementes. Plantou alegria em meio a dor e a luta dos Kaiowá. Enraizou com eles heroica resistência em cada território que pisou. Teve humildade para largar ao chão sua vasta bagagem e aprender com eles em cada roda de conversa. Desabrochou e fez brotar com os Guarani esperança em forma de fruto e flor…

Junto aos seus bravos amigos do MPA, distribuiu sementes em terras então arrasadas pelo Agronegócio que os Kaiowa haviam recuperado do esbulho sob o preço da vida de tantos dos seus.

A cada punhado carinhosamente ofertado sempre lembrava: “Estas sementes não são doação, elas estão voltando pra casa, porque com vocês foram expulsas e só por causa da luta de vocês puderam encontrar seu caminho de volta. Sementes livres em terras livres que aprendemos com vocês a cultivar e proteger”.

Costurava pontes entre as dioceses, insuflava corações que recolhiam as sementes nos assentamentos para voltar a ser vida nas aldeias. Assim unia territórios, dissolvia desentendimentos e descaminhos históricos, hermanava camponeses e indígenas em aliança sobre as Terras que continuam sendo os pilares do amanhã tanto buscado.

As vezes mirando as cercas do latifúndio Sul Mato-Grossense deixava escapar suspiro, lágrima ou uma palavra “não tão católica”. Não conseguia conceber, compreender ou pactuar nem pela sombra sequer de um segundo no tempo qualquer ideia de agricultura sem gente ou gente sem poder agricultar.

Descansa em Paz Frei Amigo. Tua partida deixa um vazio que só pode ser preenchido por cada planta em cada chão, que só pode ser acalmado a cada cerca que tombar. Deixaste sementes suficientes em vida para fazer brotar em cada povo e em cada lutadora e lutador florestas inteiras, a Soberania do amanhã. Gracias por demais.

Matias Rempel é coordenador do Conselho Missionário Indigenista (Cimi) em Mato Grosso do Sul

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