Quando o servilismo ideológico encontra a realidade fria do Estado punitivo
MARCOS VERLAINE*
Há ironias que dispensam o riso porque funcionam como diagnóstico político. A prisão do influenciador brasileiro Junior Pena, capturado por agentes do ICE em Newark, Nova Jersey, nos EUA, pertence à essa categoria. Entenda o fato lendo também “Brasileiro bajulador de Trump se dá mal e é capturado por agentes do ICE”.
O episódio não é apenas contratempo burocrático nem acaso administrativo: é a exposição crua da inconsciência política travestida de convicção, do servilismo ideológico apresentado como lucidez, e do choque inevitável entre propaganda e realidade. Trata-se, pois, de o ocaso de Junior Pena. Será que vai aprender?
Pena construiu sua persona digital a partir da defesa entusiasmada de Donald Trump e de suas políticas migratórias draconianas. Repetia, com convicção quase catequética, que deportações eram instrumento legítimo contra “bandidos”, nunca contra “cidadãos de bem”.
Mais do que apoiar Trump, internalizou a retórica presidencial, assumindo o papel de tradutor tropical do trumpismo. Inclusive no ataque sistemático a imigrantes, paradoxalmente própria condição dele nos Estados Unidos.
O erro não foi apenas político. Foi conceitual.
IDEOLOGIA NÃO SUBSTITUI VISTO
Segundo a defesa, a detenção decorreu de problema técnico: ausência registrada em audiência migratória relacionada à infração de trânsito, após adiamento que não teria sido corretamente lançado no sistema.
Pode ser verdade. Mas o detalhe burocrático é quase irrelevante diante do que ele simboliza.
A contradição central não está no formulário, mas na crença de que alinhamento ideológico produz imunidade jurídica. Junior Pena apostou que repetir o discurso do poder o colocaria fora do alcance desse.
Descobriu, da forma mais concreta possível, que o Estado não opera por afinidade política, mas por classificação administrativa.
Para a máquina migratória, não há “imigrante do bem”. Há apenas status regular ou irregular. E nenhum slogan, nenhuma “live”, nenhum ataque a outros imigrantes altera esse dado.
IMIGRANTE QUE NEGAVA O IMIGRANTE
Aqui reside a contradição mais profunda. Pena não apenas defendia políticas restritivas; naturalizava a exclusão como virtude moral, afirmando que deportações eram seletivas, racionais e justas.
Ao fazer isso, colaborava para legitimar sistema que depende da arbitrariedade para funcionar.
O trumpismo, como todo projeto autoritário, precisa fabricar inimigos permanentes. O problema é que essa categoria é elástica. Hoje são “os outros”; amanhã, qualquer um que caiba na definição conveniente do momento.
O influenciador acreditou que bastava se diferenciar retoricamente da massa indesejada. Não percebeu que, para o Estado punitivo, a diferença simbólica não existe. A propósito, como figurinha assim pode ser chamado de “influenciador”? Tempos bicudos este que vivemos.
ESTADO PUNITIVO NÃO TEM AMIGOS
A gestão Trump jamais escondeu que suas políticas migratórias operam pela lógica do exemplo, não da exceção.
A rigidez serve para mostrar força, não para premiar a fidelidade. Nesse sentido, a prisão de apoiador não é falha do sistema. É prova de sua coerência interna.
Autoritarismos não funcionam com gratidão, mas com medo. Não cultivam aliados; produzem obediência temporária. Quem imagina que o entusiasmo ideológico cria blindagem pessoal não compreendeu a natureza do poder que defende.
SERVILISMO COMO IDENTIDADE POLÍTICA
O caso Junior Pena revela algo maior do que equívoco individual. Revela fenômeno recorrente: o do servilismo como projeto político.
Atacar os próprios pares, reproduzir o discurso do dominador e apostar que isso garantirá pertencimento. É aposta sempre perdida.
O fascismo contemporâneo oferece apenas a sensação momentânea de proximidade com o poder. Nunca inclusão real. Quando a engrenagem gira, não pergunta quem a aplaudiu. Executa.
LIÇÃO INCÔMODA
Junior Pena segue sob custódia enquanto tenta evitar a deportação. O desfecho jurídico ainda está em aberto. O político, não. A lição já foi dada, com a frieza característica do Estado que ele defendeu com tanto afinco e aplicação cega.
É como diz o ditado popular: “fé cega, faca amolada”.
Convém registrar, sem ironia excessiva, apenas com rigor analítico: o autoritarismo não concede salvo-conduto, não reconhece lealdade e não respeita bajuladores.
Esse apenas aplica a regra. E a regra, como sempre, vale inclusive para quem acreditou estar acima dessa.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP











