Pressionam por cortes sociais e investimentos porque “eles querem garantir o que nós pagamos para eles”, destacou o presidente, em entrevista a UOL, referindo-se aos juros da dívida pública, que consumiram R$ 1 trilhão em 2025
O presidente Lula participou nesta quinta-feira (5) de uma entrevista com a jornalista Daniela Lima, do portal UOL, e tratou de diversos temas de interesse do país e do mundo. Sobre as eleições, ele disse que tem muito a mostrar para o país e que tem plenas condições de vencer o pleito presidencial. Sobre economia, ele criticou a ganância do sistema financeiro que, segundo ele, não pensa no Brasil e apenas em seus lucros.
GANÂNCIA
O sistema financeiro pressiona por cortes sociais e de investimentos porque “eles querem garantir o que nós pagamos para eles”, destacou o presidente, referindo-se aos juros da dívida pública, que consumiu, pelos dados oficiais do Banco Central, R$ 1 trilhão em 2025. “Eles (os banqueiros) não pensam no social. Tudo que a gente faz para cuidar dos mais necessitados, eles acham que é gasto”, denunciou Lula.
Ele afirmou que a pressão é muito forte para restringir o apoio do governo aos mais pobres. “As pessoas acham que não pode haver aumento de salário. Se não houvesse o ganho real do salário mínimo desde o meu primeiro mandato, ele seria hoje de R$ 800. Quando você aumenta R$100 no salário mínimo, aparece um monte de gente o mercado dizendo que vai estourar a economia, vai ter inflação, etc. Essa gente não pensa no Brasil. Essa gente só pensa no seu lucro”, acrescentou o presidente.
CONSELHO DE PAZ SÓ COM PALESTINOS
Lula falou também sobre sua relação om o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele confirmou que vai a Washington na primeira semana de março para uma conversa “olho no olho” com Trump. O presidente disse que não haverá “assunto proibido”, mas ressaltou que a única coisa que não discute é a soberania do Brasil. “Essa é sagrada”, garantiu.
Sobre o Conselho de Paz, criado por Trump, e para o qual o Brasil foi convidado a participar, Lula questionou a ausência de palestinos. “Se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo interesse em participar. É muito estranho que não tenha um palestino na direção desse conselho. É muito estranho que a proposta que foi apresentada é mais um resort do que reconstrução de Gaza”, disse Lula.
“Quero saber quem é que vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bares que foram detonados?”, disse o presidente. O líder brasileiro foi um dos chefes de Estado que mais criticaram o genocídio patrocinado pelas hordas israelenses em Gaza com apoio dos Estados Unidos. “Nós estamos dispostos a participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz”, acrescentou o mandatário.
PROBLEMA DA VENEZUELA É DOS VENEZUELANOS
Sobre a crise na Venezuela, Lula enfatizou que “quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que os venezuelanos resolvam os problemas deles”, afirmou Lula. O presidente falou sobre o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas. Ele disse que isso “não é a preocupação principal”. Segundo o ocupante do Planalto, “o que está em jogo é a democracia do país e melhorar a vida do povo venezuelano”.
“A preocupação principal é a seguinte. Há possibilidade da gente fortalecer a democracia na Venezuela e o povo da Venezuela, 8 milhões e 400 milhões de pessoas que estão fora votar para a Venezuela? Há condições de fazer com que a democracia seja efetivamente respeitada na Venezuela e o povo possa participar ativamente? Porque o que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não”, afirmou. Lula disse que os governos da Venezuela e dos EUA precisam se entender. “Quando o [Hugo] Chávez era presidente, eu dizia para o Chaves que era extremamente importante que ele e [George] Bush se entendessem”, observou.
FIM DA ESCALA 6X1
Voltando aos temas domésticos, Lula afirmou que “está na hora de fazer uma mudança na jornada de trabalho do país, para que o povo tenha mais tempo de estudar”. “Não é necessário as pessoas trabalharem a mesma jornada de 40 anos atrás”, defendeu Lula. Ao comentar o tema da escala de trabalho 6 x 1, ele disse que “com os avanços tecnológicos que o Brasil teve, não é necessário as pessoas trabalharem a mesma jornada que trabalhavam há 40 anos atrás”. “Você não acha que hoje um jovem, uma menina, ele não quer mais se levantar às 5 horas da manhã e ficar até às 6 horas dentro de uma fábrica, pegando um ônibus lotado”, completou.
Sobre o Banco Master, Lula confirmou que recebeu o presidente do banco. “Eu já recebi o Itaú, o Bradesco, o Santander, o BTG, todos os bancos. Quando o Guido [Mantega] veio com o Daniel Vorcaro a Brasília e pediu para eu atender, eu chamei o Galípolo, o Rui Costa, que conhecia ele, e ele então me contou que ele estava sofrendo uma perseguição”, afirmou.
Lula disse que deixou claro ao empresário que o governo não adotaria postura política a favor ou contra a instituição e que o assunto ficaria restrito a uma investigação técnica. “O que eu disse para ele? Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo BC. Foi esta a conversa: ‘você fique tranquilo que a política não entrará na investigação; o que vai entrar é a competência do BC para saber se você quebrou ou não, se tem dinheiro lavado ou não’”, declarou.
INVESTIGAR O MASTER ATÉ O FIM
O presidente também afirmou ter convocado integrantes do núcleo econômico do governo e buscado o envolvimento da Procuradoria-Geral da República para acompanhar as discussões. Segundo ele, o objetivo é abrir caminho para uma responsabilização ampla, inclusive de atores influentes. “Depois disso chamei o ministro da Fazenda, o presidente do BC e convidei para virem aqui para ouvirem o que eu ia conversar com os meus ministros o procurador-geral da República… Porque estávamos diante da primeira chance real de pegar os magnatas da corrupção da lavagem de dinheiro desse país. É uma chance extraordinária”, disse.
Na sequência, Lula reforçou que não pretende restringir o alcance das apurações caso surjam nomes ligados à política, partidos ou ao sistema financeiro. “Não me importa que envolva políticos, partidos, bancos. Quem tiver metido nisso vai ter que pagar o preço da irresponsabilidade de dar talvez o maior rombo econômico da história desse país”, afirmou.
“O que é importante é ter claro de que nós vamos a fundo nesse negócio. Queremos saber porque o governo do Rio de Janeiro e o estado do Amapá colocaram dinheiro do fundo dos trabalhadores nesse banco. Qual é a falcatrua que existe entre o Master e o BRB? Quem está envolvido?”, questionou.
CONVERSA COM LULINHA
Ao falar do INSS, Lula revelou ter tido uma conversa com o filho, Lulinha, sobre o escândalo no órgão. Ele contou que disse a Fábio Luís Lula da Silva que ele “vai pagar o preço” se tiver envolvimento no caso, após seu nome ser mencionado nas investigações sobre fraudes contra aposentados. “Quando saiu o nome do meu filho, eu chamei meu filho aqui. Olhei no olho do meu filho e disse: “Só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço de ter alguma coisa. Se você não tiver, se defenda”, afirmou.
Sobre a disputa política, ele afirmou que acredita em uma nova vitória eleitoral do seu campo político e indicou que ministros e aliados próximos devem desempenhar funções estratégicas nas disputas estaduais de 2026, especialmente em São Paulo e Minas Gerais. Na conversa, Lula afirmou que pretende vencer novamente por considerar que a continuidade democrática estará no centro da disputa. “Nós vamos ganhar as eleições outra vez, porque o Brasil precisa de democracia”, declarou.
O presidente disse que as eleições no Brasil seguem a tendência mundial de disputas acirradas e com alto grau de radicalização. “Toda eleição no mundo está acirrada. Aliás, eu nunca tive eleição que não fosse acirrada, sempre foi quase meio a meio. Qual é a diferença que temos hoje? O jogo está como se fosse uma torcida Vasco e Flamengo ou Corinthians e Palmeiras, ninguém muda de lado. Eu não vou entrar no mundo da mentira. Esse ano será o ano da verdade. Vamos mostrar o que fizemos”, afirmou.











