Scott Bessent relatou ao Congresso dos EUA como o governo Trump orquestrou a escassez de dólares e a desvalorização da moeda iraniana, para causar o caos e provocar distúrbios
Diante do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados norte-americanos, o Secretário do Tesouro Scott Bessent confirmou na quinta-feira (5), em resposta à pergunta de um parlamentar, que foram os EUA que armaram o colapso da moeda iraniana em dezembro para desencadear os protestos no Irã – manipulados a seguir por mercenários a soldo da CIA e do Mossad, como denunciou Teerã.
“O que podemos fazer no Tesouro e o que fizemos foi criar uma escassez de dólares no país”, se gabou Bessent, confirmando ainda a ordem de Trump de “pressão máxima”.
“Em relação ao Irã, após assumir o cargo, o presidente Trump orientou o Departamento do Tesouro dos EUA a implementar uma campanha de pressão máxima”, respondeu Bessant.
“Vimos os resultados dessa campanha em dezembro passado; a economia iraniana entrou em colapso.”
Ele disse ainda que o Irã passou por uma grande crise bancária no final do ano passado. “Um grande banco faliu, o banco central foi obrigado a resgatá-lo, o que desencadeou inflação, e o ‘corajoso’ povo iraniano foi às ruas.”
Continuando a se vangloriar de seus crimes contra o povo do Irã, o financista acrescentou que “a boa notícia é que o Irã está com uma grave escassez de dólares e encontrando dificuldades para comprar mercadorias ou armas.”
Ele afirmou que o Departamento do Tesouro monitora continuamente os fluxos financeiros e as atividades comerciais dos países sancionados, especialmente os casos de “auxílio de terceiros para burlar as regulamentações”.
“É ASSIM QUE SE ‘DIRECIONA’ UMA ECONOMIA”
Em janeiro, no Fórum Econômico Mundial de Davos, no essencial Bessent já relatara essa operação, aliás bem naquele estilo de “fazer a economia gritar” usada na década de 1970 por Nixon contra o povo chileno, com os resultados conhecidos. Na época, o secretário de Estado Kissinger disse que o povo chileno tinha de ser punido por “votar errado”.
“Em março do ano passado, eu disse que a moeda iraniana estava à beira do colapso — se eu fosse um cidadão iraniano, sacaria meu dinheiro do banco. O presidente Trump ordenou a campanha de pressão máxima contra o Irã”, disse Bessent. “Essa estratégia funcionou e, em dezembro do ano passado, a economia iraniana entrou em colapso.”
“Eles estão com falta de dólares e não conseguem importar mercadorias”, declarou ele. “É por isso que as pessoas estão indo às ruas”. É assim que “se direciona uma economia”, continuou, descrevendo a sabotagem criminosa que ele próprio encabeçou.
Uma sabotagem cronometricamente perpetrada, a ponto de a moeda iraniana desabar no dia em que o genocida-mor de Gaza, Netanyhu, foi a Mar a Lago conspirar com Trump contra o Irã.
Como o governo iraniano denunciou, a orientação dos mercenários era disparar contra a polícia e os manifestantes, para gerar o caos e o máximo de divisão na sociedade iraniana, o que fracassou graças à resiliência iraniana e a medidas como o bloqueio do Starlink, que desarticulou os grupos de mercenários, bem como pela indignação provocada por atos de terrorismo como o incêndio de mesquitas.
A atual operação ecoa os idos de 1953, a tristemente famosa Operação Ájax, quando a CIA e o MI6 britânico montaram distúrbios e derrubaram o primeiro-ministro nacionalista que nacionalizara o petróleo, Mohammed Mossadegh, dando início à ditadura do Xá Reza Pahlavi, varrida pela revolução de 1979.
Na guerra de 12 dias em junho do ano passado, os EUA e Israel tentaram destruir o Irã com um ataque militar, mas foram forçados a recuar depois da reação iraniana e dos pesados estragos sofridos por Israel.
NEGOCIAÇÕES EM OMAN
Na sexta-feira (6), no reino de Omã, no Golfo Pérsico, ocorreu a primeira negociação entre Washington e Teerã, com o Irã representado pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, e os enviados de Trump, o magnata Steve Witkoff e o genro Jared Kushner, e mediação do chanceler de Omã, Badr Al-Busaidi.
Negociações às quais, disseram os iranianos, estavam comparecendo com o “dedo no gatilho”, depois de o bombardeio americano israelense do ano passado ter sido cometido em meio a conversações. A ditadura Trump enviou um porta-aviões nuclear à região e deslocou mais e mais aviões de ataque e aeronaves de coordenação e até expediu um alerta aos cidadãos norte-americanos no Irã para saírem de lá, por conta própria, imediatamente.
O Irã deixou claro que, se atacado, revidaria com tudo contra as bases norte-americanas no Golfo e contra Israel e que estava pronto para fechar o Estreito de Ormuz por onde passam 25% do petróleo comercializado no mundo.
Em comunicado, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã enfatizou: “Este engajamento diplomático foi amplo e teve como objetivo alcançar um acordo justo, mutuamente aceitável e decente sobre a questão nuclear… Agradecemos o papel responsável desempenhado por todos os vizinhos e países amigos da região neste processo e esperamos que os Estados Unidos também participem deste processo com uma atitude altamente responsável, pragmática e séria.”
O chanceler de Omã descreveu as conversas entre o Irã e os EUA como “muito sérias”, pois proporcionaram uma oportunidade para esclarecer as posições de ambos os lados e identificar áreas de possível progresso. Segundo a mídia, Teerã se recusou a colocar na pauta seus sistemas de mísseis balísticos bem como suas relações com a frente de resistência ao genocídio e ao apartheid perpetrados pelo Estado supremacista de Israel.
Pouco antes das 18h, horário de Omã, a mídia estatal iraniana informou que as negociações indiretas com os EUA terminaram “por enquanto” – mas sem dar mais detalhes. Crucialmente, outra rodada está marcada para os próximos dias e declarações iniciais positivas emanaram de Teerã.
No final do mês, estão marcadas exercícios navais na região entre as marinhas do Irã, da China e da Rússia.
ONU CHAMA A EVITAR UMA CRISE REGIONAL
Também a ONU saudou a retomada das negociações e, em comunicado divulgado pelo porta-voz do secretário-geral Guterres, Stéphane Dujarric, expressou a esperança de que as discussões ajudem a “reduzir as tensões regionais e a evitar uma crise mais ampla”.
“O Secretário-Geral [António Guterres] tem defendido consistentemente a desescalada e a resolução pacífica de conflitos, em conformidade com a Carta das Nações Unidas”, reiterou o porta-voz.











