EUA desrespeitou o Tratado de Não Proliferação ao atacar o Irã. Signatários são obrigados a defender instalações nucleares em qualquer país membro. Objetivo segue sendo impor domínio econômico e político ao mundo, destaca o professor
O professor do Instituto de Energia da USP, Ildo Sauer, uma das maiores autoridades em energia do país, afirmou, em entrevista ao HP, nesta sexta-feira (6), que o que está por trás das ameaças de Donald Trump ao Irã é a tentativa dos Estados Unidos de manter a dominação econômica – que está em declínio – sobre o resto do mundo.
DOMÍNIO GEOPOLÍTICO
Ele chamou a atenção para a importância geopolítica que ainda tem o Oriente Médio. Segundo o professor, a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kweit, Iraque, são produtores de petróleo, assim como o Irã, e ainda são responsáveis pelo fornecimento de energia que é essencial para manter o sistema econômico atual. “Temos o Estreito de Hormus de um lado e o Bab al-Mandeb do outro, na entrada já do Canal de Suez. Temos aí o Irã, Paquistão, Índia e China. As ameaças ao Irã, que são sem precedentes, não têm nada a ver com a democracia ou com problemas internos do regime”, apontou o professor.
“Raramente eu vi uma situação tão perigosa como esta que estamos assistindo. As ameaças estão ligadas à importância geopolítica da região, à tentativa de manutenção de hegemonia política e estão obrigando o Irã a se afastar do tratado de não proliferação de armas nucleares”, destacou.
Sobre o último ataque desferido em junho do ano passado contra o Irã, o professor Ildo Sauer lembrou que ele significou um crime contra o tratado de não proliferação. Os países signatários são obrigados a defender as instalações nucelares para fins pacíficos dos países membros do acordo. Os EUA, juntamente com Israel bombardearam as instalações do Irã. “Um crime hediondo”, observou.
Para ele, isto é também o reconhecimento de que o país domina a tecnologia de enriquecimento de urânio. “O Irã, embora seja signatário do Tratado de Não Proliferação, desenvolveu a tecnologia de enriquecimento para fins pacíficos”, observou Sauer. Assim como o Irã, o Brasil também desenvolveu essa tecnologia. Na década de 80, segundo Ildo, juntamente com a Marinha, foi desenvolvida a tecnologia de enriquecimento de urânio, semelhante à que o Irã tem hoje.
“Eu defendo a tese de que países como o Brasil devam liderar um programa segundo o qual dá-se um prazo de uma década ou um pouco menos para ver progresso significativo de desmantelamento de todos os arsenais nucleares; e que na indústria nuclear que ainda venha a existir no mundo para fins de geração de energia ou enriquecimento da produção de plutônio, seja controlada a partir de uma agência internacional sob a supervisão da ONU”, afirmou.
IMPOSIÇÃO DE DECISÕES
“Essa mesma proposta vale para aqueles países que ainda acham que a energia nuclear é necessária, como a França, a China e outros. Que todo o ciclo do combustível seja produzido a partir de uma indústria controlada internacionalmente, de maneira que nenhum país soberanamente possa dispor livremente da tecnologia dos materiais necessários para ameaçar as outras sociedades”, defendeu.
“Nós todos sabemos que no sistema de produção hegemônico no mundo, a força militar tem sido uma espécie de retaguarda para impor decisões geopolíticas e econômicas às demais nações, basta ver a forma como são tratados nos fóruns internacionais, especialmente no âmbito da ONU etc, os países que se declaram Estados nucleares, que têm arsenais nucleares”, prosseguiu o professor.
“Eu acho que nós precisamos encaminhar, nesse caso, as duas questões que se referem à produção da energia nuclear. Na minha opinião, é possível conquistar outro padrão tecnológico em outras condições do controle do ciclo de combustível da tecnologia para aqueles países que não podem dela prescindir para atender a seu sistema de produção. Há situações concretas nesse sentido, o novo patamar tecnológico deve ser buscado, e acima de tudo um novo quadro institucional em escala mundial deve ser buscado para que isso possa ser feito com segurança a todos”, argumentou.
Sauer descreveu os vários momentos na história em que alguns países desempenharam este tipo de domínio econômico no mundo. “Não podemos esquecer que a Espanha desempenhou um papel protagonista há 400 anos atrás com as velas. A Inglaterra, há 200 anos, dominava o mundo com a revolução industrial, permitida pela conversão termodinâmica. Queimava-se carvão, formava-se vapor e essa força de propulsão movia não só os teares e as fábricas, com enorme aumento da produtividade, mas também os trens e, sobretudo, os navios, o que permitiu dois séculos de domínio britânico imperial sobre o planeta”, observou.
NEOCOLONIALISMO
“Este domínio trouxe graves consequências para o mundo. Veja as tragédias na Índia, na Ásia, na África e na própria China, com a guerra do ópio”, prosseguiu o professor. “Já o último século é marcado pela transição, durante a Primeira Guerra, por causa do uso dos combustíveis líquidos – petróleo – e da eletricidade, a produtividade aumentou com o poderio econômico americano. E a preocupação deles, desde então, está na manutenção deste domínio”, prosseguiu.
“Primeiro essa doutrina Monroe, de que a América Latina é o quintal dos EUA, e que pertence a eles. Essa é uma teoria que nunca foi aceita e não pode ser aceita. E depois ela atingiu uma escala global. Evidentemente que a Segunda Guerra Mundial marca uma transição. Em 1943, quando a guerra já se encaminhava para o seu encerramento, o presidente dos EUA convidou Vannevar Bush, diretor do Escritório de Pesquisa Científica dos Estados Unidos e Desenvolvimento, e colocou governo, universidades e empresas para produzir a tecnologia nuclear. Ficou acertado o uso desse modelo para garantir que a superioridade americana se mantivesse”, acrescentou o professor.
A ideia, segundo Ildo, era investir na pesquisa científica, o que permitiu o desenvolvimento da fissão nuclear, e com isso garantir a manutenção da hegemonia econômica e militar mundial. Isso era um projeto estratégico desde então. Os objetivos dos EUA foram, desde essa época, manter abertos pela força os canais de matérias primas e de acesso a mercados abertos em escala global.
Ildo Sauer observou que atualmente o quadro do mundo mudou muito. “Depois da queda da URSS houve a unipolaridade americana, mantida pela superioridade militar e econômica. Agora, com a evolução extraordinária, científica e tecnológica da China, que é um país que jamais ameaçou seus vizinhos, mas vem sendo ameaçada, nós temos grandes mudanças no mundo. Não podemos esquecer também o papel da Rússia que, a partir dos anos 2000, conseguiu se recompor economicamente e manter de uma forma extraordinária a sua capacidade militar de maneira protagonista”, afirmou o professor da USP.
Ildo Sauer destacou que há um certo paralelismo, iniciado nos anos 70, entre o Irã e o Brasil no que concerne ao desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos. No Brasil, segundo ele, foram vários projetos na área nuclear neste período e no Irã também. A capacidade tecnológica desenvolvida no Irã, segundo o professor, tem uma certa equivalência com o que foi desenvolvido e o estágio em que nos encontramos no Brasil. Para ele, isso é importante porque tudo o que acontece no Irã, merece uma reflexão para o Brasil.
BRASIL E IRÃ DOMINAM TECNOLOGIA
Sobre a possibilidade do Irã produzir uma bomba nuclear, ele responde positivamente. “O mais crítico é a capacidade de fazer enriquecimento de urânio”, aponta. “Existem dois caminhos tecnológicos de enriquecimento do urânio. O primeiro é a difusão gasosa, que foi usada para produzir a bomba que os EUA usaram para assassinar centenas de milhares de pessoas em Hiroshima, o segundo caminho é a centrifugação, método mais complexo, mais eficiente e requer menos energia, que é usado pelo Irã e o Brasil”, afirma Ildo Sauer.
Ele conta que o método de centrifugação foi desenvolvido no Brasil na década de 80, inclusive com a sua participação. Segundo Ildo, eram dois projetos, o do reator nuclear do submarino, com a Marinha, e havia também o projeto Ciclone. Após o governo Sarney, quando esses projetos se desenvolviam, eles foram aniquilados pelo governo Collor, que cedeu às pressões externas para que o Brasil não dominasse essa tecnologia. O projeto da Marinha, liderado pelo Almirante Otto, foi abandonado. “O reator que nós desenvolvemos naquela ocasião teve os seus componentes estocados em Iperó e abandonado até hoje”, denuncia.
E prossegue: “a Aeronáutica estava desenvolvendo um processo de enriquecimento a laser em São José dos Campos, em torno dos polos tecnológicos da região, como o ITA e outros. Trabalhavam também a capacidade de fazer mísseis. O Exército, no Rio de Janeiro, em parceria com a empresa Microlab, desenvolveu capacidade da produzir grafite em grau nuclear, que é fundamental para quem quer fazer reator”.
Lamentavelmente, diz o professor, “o governo Collor acabou com tudo e nenhum governo posterior retomou esses projetos. E, lamentavelmente também, o governo Fernando Henrique assinou o acordo de não proliferação nuclear e o submeteu à ratificação no Congresso Nacional”.
TRATADO NÃO RESPEITADO
Ele destaca que a assinatura foi desnecessária. O Brasil já tinha assinado o Tratado de Tlatelolco, que tornou a América Latina uma região desnuclearizada, e, ainda no governo Sarney, ele assinou com o presidente Alfonsin, o Tratado de Verificação Mútua. O professor Sauer lembrou que numa cerimônia ocorrida no Brasil, o governo brasileiro entregou a Alfonsin um pote com urânio enriquecido por centrifugação e o Alfonsin entregou a Sarney a mostra de urânio enriquecido na Argentina por difusão gasosa. Este foi um ato simbólico do compromisso.
“É importante recuperar essas coisas. O primeiro reator nuclear foi inteiramente construído e seus equipamentos estão desmontados há 30 anos em Iperó”, destacou Ildo. “Eu venho defendendo o cumprimento do tratado de não proliferação”, prosseguiu o professor. “Tudo isso que aconteceu no Brasil foi um desastre científico e tecnológico”, apontou. Ildo lembrou que o Brasil iniciou com o almirante Álvaro Alberto nos anos 50, onde se tentou desenvolver tecnologia nuclear. Aquilo acabou redundando no CNPq. “Tanto que a central de Angra-1 chama-se Álvaro Alberto”, lembrou.
“Depois houve o Grupo do Tório, um projeto autônomo”, prosseguiu Sauer. “Aí o Brasil contratou a construção da Usina de Angra-1 com a Westinghouse americana. O governo Carter, então, disse que não ia fornecer o combustível se o governo brasileiro não assinasse o tratado de não proliferação”, denunciou. “Nenhum governo anterior assinou, só Fernando Henrique. E nenhum governo posterior teve a iniciativa de tirar o Brasil do tratado”, afirmou.
THACHER E AS BOMBAS NAS MALVINAS
“Como o tratado com a Alemanha não incluía o enriquecimento, não quiseram fornecer o urânio para a usina”, destacou o cientista. “Depois da guerra das Malvinas, quando a Inglaterra colocou na boca do Rio da Prata vários submarinos nucleares sob o comando da ministra Tatcher, com mísseis nucleares a bordo, a contradição ficou evidente”. “Ficou claro então qual era o problema argentino a partir da assinatura em julho de 1968. O tratado entrou em vigor em 5 de março de 1970. Com o compromisso de que todos os países nuclearizados deveriam trabalhar na direção de desmantelar seus arsenais. Que a cada cinco anos após a assinatura do acordo haveria uma reunião para avaliar o progresso”, acrescentou Sauer.
O tratado exige que todos os países signatários do acordo sejam protegidos e nenhuma de suas instalações possam ser atacadas. O artigo primeiro determina que qualquer Estado detentor de armamento nuclear não transfira tecnologia a nenhum outro país não nuclearizado que não tenha assinado o tratado. Ildo pergunta: “de onde vêm as bombas de Israel?” “Todo mundo sabe que há cerca de 90 bombas que estão lá e Israel não é signatário do acordo. Vieram com assessoria preponderante dos EUA. Com isso houve a primeira violação do tratado”, afirma o professor.
“O compromisso de desmantelar os arsenais não está sendo cumprido”, denuncia Ildo Sauer. “Para se retirar do acordo, precisa explicar as razões. O Irã passou a discutir o tema depois do ataque dos EUA e Israel. Os EUA são nuclearizados e são signatários do acordo que obriga a proteger as instalações dos demais integrantes do acordo, através da Agência Internacional de Energia Atômica. Isso tudo foi desrespeitado”, apontou o professor.
BRASIL DEVE EXIGIR RESPEITO
Segundo Ildo Sauer, lamentavelmente esses países, “ao invés de cumprirem o espírito do TNP e a própria Carta das Nações Unidas, de caminhar em direção a paz promovendo o imediato desmantelamento de suas armas e arsenais nucleares, ao invés disto, anunciam que querem manter sua supremacia e impor aos demais países sua superioridade com base na força das armas nucleares”.
Ildo chama a atenção para a injustiça prevista nesta relação entre os países detentores da tecnologia e os ditos “subordinados”. “O velho imperialismo colonial dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX agora é substituído pela supremacia das armas nucleares, que permaneceram na retaguarda enquanto as ações econômicas podem prosseguir, e estas mesmas armas servem de permanente ameaça”. “Mesmo havendo notáveis diferenças no âmbito geopolítico e econômico, ainda assim, essas potencias tentam impor aos demais países a sua superioridade. Isto é inaceitável”, ressaltou.
“Ou os países signatários do tratado demonstram um cronograma com agenda concreta com verificação do progresso pelos demais países, ou então é moralmente exigido e eticamente aceitável que países como o Brasil decidam se retirar do tratado, ao qual jamais deveriam ter aderido e ratificado, como fez o presidente Fernando Henrique Cardoso [de 1995 a 2003] e passem efetivamente a também construir seus arsenais nucleares como instrumento de pressão”, defendeu o pesquisador brasileiro.











