Dono da Amazon demite 300 jornalistas e joga Washington Post na sua maior crise

Manifestação reuniu profissionais na porta do Washington Post para condenar a onda de demissões (Caio Teixeira/ComunicaSul)

Desde 2023, o bilionário Jeff Bezos já despediu 700 dos 1.200 profissionais que trabalhavam no jornal, favorecendo a pandemia de fake news em favor de Trump e das grandes corporações dos EUA

A demissão em massa de jornalistas do Washigton Post, de propriedade do bilionário Jeff Bezos, aliado de Trump, na última quarta-feira (4), é muito mais grave do que aparenta e não se trata apenas de uma medida de contenção de despesas causada por “cabeças de planilha” da administração em busca de lucro. O caminho escolhido pelo dono da Amazon joga um dos jornais de maior circulação dos Estados Unidos em sua maior crise.

A partir de 2023, a quantidade de jornalistas profissionais trabalhando num dos mais importantes diários dos EUA foi reduzida de 1.200 (mesmo número do New York Times) para cerca de 500. O Washington Post não é mais um veículo de mídia, foi aquele cujo trabalho investigativo levou o presidente Richard Nixon a renunciar em 9 de agosto de 1974 após a revelação sobre o escândalo de Watergate, expondo a escuta ilegal do Comitê Nacional Democrata.

Na terça-feira (3) todos os jornalistas do WP do mundo (há, ou havia, redações na quase totalidade dos continentes) foram convocados para uma reunião por teleconferência na quarta de manhã. Nesse momento foram informados da demissão de 300 deles sob a justificativa de reduzir custos, e orientados a abrir seus e-mails e verificar quem fazia parte da lista.

Os 300 foram sumariamente demitidos e imediatamente afastados de suas atividades. Editorias inteiras foram atingidas, desde os chefes até os repórteres, incluindo quem estava no exterior trabalhando nas sucursais ou em coberturas específicas. Simplesmente tiveram seus trabalhos interrompidos. Por força de acordo coletivo do sindicato, os despedidos foram aqueles com menos tempo de serviço, não importando a hierarquia que ocupavam.

“PUBLISHER” NOMEADO POR BEZOS É CONHECIDO POR HACKEAR TELEFONES DE AUTORIDADES

Imediatamente, foram iniciadas negociações entre a empresa e o sindicato que tem como filiados e, portanto, representa cerca de 270 dos 300 despedidos. No dia seguinte, quinta-feira, foi organizado um grande protesto em frente à sede do jornal, em Washington, onde se encontrava a maioria dos atingidos que trabalhavam ali, já que os outros espalhados pelos EUA e pelo mundo não tiveram tempo de chegar. O clima era de surpresa e indignação com Jeff Bezos e com o “Publisher” do jornal, o inglês Will Lewis, que ordenou diretamente o “passaralho”, gíria jornalística brasileira para demissões em massa. Esse personagem, trazido por Bezos para chefiar o jornal, ficou conhecido anteriormente num escândalo internacional por hackear telefones de autoridades e políticos de diversos países e destruir provas de seus crimes.

Um dos participantes do ato, Ben Brasch lembrou uma reportagem investigativa do jornal que mostrou como “o racismo e a ganância” fez com que as escolas do lado predominantemente negro da capital estadunidense se transformassem em “fábricas de fracassos” e disse temer que o Washington Post tenha o mesmo destino diante da impossibilidade de produzir jornalismo de qualidade com os poucos que sobraram. Ele exemplifica citando sua equipe da editoria de Notícias de Última Hora, que já era “esquelética”, com oito repórteres e cinco editores se revezando em turnos sete dias por semana das 7:30 às 20:30 e que agora ficou reduzida a dois repórteres e dois editores. Finalizando, convocou a todos para resistir: “violência não é a resposta, mas lutar é. Este lugar nos decepcionou, mas nós não vamos decepcionar uns aos outros”.

Na avaliação de Bem Brasch, “essas demissões são vergonhosas”. “A quarta pessoa mais rica do mundo, Jeff Bezos é dono do Washington Post. Ele poderia administrá-lo com prejuízo pelo resto dos tempos, e mesmo assim se recusa. Em vez disso está gastando dezenas de milhões de dólares comprando um documentário para a primeira-dama Melania Trump para agradar o presidente dos Estados Unidos”.

Outra manifestante comovida afirmou que uma das melhores coisas de trabalhar no Washington Post sempre foi o espírito de coleguismo entre os jornalistas: “Repórteres de dois lados opostos da sala que dizem: ei, você precisa de ajuda? Sim, tenho um contato que pode te ajudar”.

“DEMOCRACIA MORRE SEM JORNALISTAS”

Sarah Kaplan, demitida da editoria de Clima e Meio Ambiente, carregava um cartaz com a frase “Democracia morre sem jornalistas”. Questionada sobre o cartaz, ela responde: “pense em quantas coisas nós (o povo) sabemos sobre nosso governo porque um jornalista estava lá para fazer o trabalho jornalístico. Repórteres estavam em campo no Capitólio durante os ataques, eles testemunharam quando o presidente foi baleado, eles estão onde as mudanças acontecem. Estão nas prefeituras, nos conselhos escolares, no Capitólio, na Casa Branca”. Quase complementando, o colega Ben Brasch declara: “sabem quem não estava lá? Nem Jeff Bezos nem Will Lewis [editor e diretor executivo do WP]”.

Ainda surpresa e indignada com a demissão, Sarah lembra que o papel dos jornalistas sempre foi o de responsabilizar autoridades ou gente com poder que não gostam nenhum pouco disso. “Meus colegas da editoria internacional que cobrem outros governos, corporações e empresas poderosas sabem que eles não querem ser responsabilizados, mas essa é nossa missão e vamos continuar perseguindo pelo tempo que pudermos”, acrescentou.

Para Sarah, “jornalistas são uma fonte confiável de informação numa era em que a desinformação é desenfreada e é difícil saber em quem confiar.” Com esse alerta, ela dá a chave para entendermos que as consequências da demissão em massa de jornalistas profissionais vão muito além do prejuízo para suas famílias.

Vivemos uma era de mentiras difundidas em massa, mas cada vez que nos deparamos com notícias de fatos aparentemente estranhos, recorremos a jornalistas profissionais para confirmá-los. O jornalismo ainda é uma vacina eficaz contra a pandemia de fake news. Tirar de ação profissionais significa deixar as pessoas totalmente à mercê das mentiras criadas por inteligência artificial e massificadas pelos algoritmos das Big Techs.

CAIO TEIXEIRA, de Washington

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