Ministério Público apura superlotação de blocos que desfilaram na Avenida Consolação
O Ministério Público de São Paulo instaurou procedimento preliminar para apurar a superlotação registrada nos megablocos que desfilaram na Rua da Consolação, no centro da capital, no domingo (9). A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo informou que abriu investigação para apurar as circunstâncias da concentração excessiva de foliões, que resultou em tumultos, brigas e atendimentos médicos. A sobreposição de cortejos em um mesmo local e em horários próximos é apontada como um dos fatores do colapso no fluxo de pessoas.
A investigação ocorre em meio a críticas crescentes à organização do Carnaval de Rua de 2026 e ao modelo de gestão adotado pela Prefeitura de São Paulo, que combina cortes na infraestrutura básica, financiamento privado e gastos públicos dispersos em diferentes áreas da administração municipal.
A coluna do jornalista Demétrio Vecchioli, no Metrópoles, revelou que a prefeitura reduziu de forma significativa o número de banheiros químicos contratados para a festa. Em 2026, foram previstas 15,3 mil diárias, contra 24 mil utilizadas em 2025 e 21 mil em 2020, último ano antes da atual gestão. Na prática, a média diária de equipamentos na cidade caiu de cerca de 3 mil para menos de 2 mil unidades, apesar do crescimento do público e da ampliação do número de blocos. Além disso, o custo da diária subiu de R$ 123 em 2019 e R$ 203 em 2020 para R$ 388 em 2025, recuando para R$ 272 em 2026, valor ainda superior ao de governos anteriores.
Embora a prefeitura divulgue que o Carnaval de Rua é custeado integralmente por patrocínio privado, a apuração mostra que os gastos públicos seguem elevados e pulverizados em diversas secretarias e órgãos. Há despesas com ambulâncias e postos médicos pela Secretaria Municipal da Saúde, ações promocionais e infraestrutura urbana coordenadas pela SPTuris, fomento aos blocos de rua pela área de Cultura e fiscalização do comércio ambulante pela Secretaria de Subprefeituras.
Além disso, há ações da Secretaria de Direitos Humanos e custos adicionais de limpeza urbana acionados por cláusulas contratuais, cujos valores nem sempre são detalhados publicamente. Somados, esses gastos mais que dobram o montante oficialmente divulgado pela gestão municipal, ultrapassando R$ 60 milhões, sem que haja transparência completa sobre todas as rubricas.
O modelo de financiamento do evento também concentra críticas. Em 2026, o repasse municipal à SPTuris foi de cerca de R$ 29 milhões, coberto por patrocínio privado, sobretudo da Ambev, que adquiriu exclusividade na venda de bebidas e na exposição de marcas durante a festa. Ao mesmo tempo, a prefeitura mobiliza recursos públicos para fiscalizar ambulantes e impedir a venda de produtos concorrentes. Na prática, o Estado atua para garantir monopólio privado durante a festa, deslocando a função da fiscalização pública para a proteção de interesses comerciais em um evento realizado em espaço urbano público.
A crítica ao modelo de patrocínio foi reforçada pelo jornalista do Metrópoles em sua conta no X. Ele apontou que o edital do Carnaval paulistano é estruturado para viabilizar a compra do evento por uma grande cervejaria. Segundo Vecchioli, a patrocinadora paga o valor mínimo previsto – reajustado apenas pela inflação – e, em seguida, comercializa cotas com outras marcas para recuperar o investimento, como empresas de tecnologia, alimentos e meios de pagamento, que passam a explorar comercialmente o espaço público durante a festa. O jornalista afirma ainda que a arrecadação privada com essas cotas tende a superar o valor pago ao poder público, embora os dados não sejam divulgados.
“Carnaval de São Paulo é muito lucrativo para AMBEV/Skol, corresponsáveis pela quase tragédia de hoje. Edital de patrocínio é feito para cervejaria comprar. Ela paga o preço mínimo (ano anterior + inflação) e pode ir ao mercado vender cotas”, escreveu. “Então ela paga $ 29 milhões e vai no mercado pagar esse dinheiro de volta. Arrecada com 99 (Ivete), Ifood (Forrozin e Bicho Maluco Beleza), Kibon e Mercado Pago (todas as maquinistas de 15 mil ambulantes). Arrecada quanto? Ninguém sabe. Apostaria que mais do que a pagou”, estima.
“E, claro, recebe a exclusividade de venda de bebidas no carnaval. Este ano, com cerveja a até 12 reais. Pra garantir que ninguem venda Heineken/Xeque Mate, a prefeitura pega $ 6 milhões daqueles 29 arrecadados só para pagar equipe de rapa, que existe pra defender os interesses da Ambev”, continua. “E o que faz a Ambev em troca? Força a realização de um bloco concomitante ao maior da cidade, na mesma avenida, só porque ela quer. Por sorte não gerou uma carnificina”, conclui o colunista do Metrópoles.
Além da exclusividade na venda de bebidas, a patrocinadora se beneficia da mobilização estatal para proteger esse mercado. A prefeitura, por exemplo, destina milhões de reais à fiscalização de ambulantes, em operações conhecidas como “rapa”, cujo objetivo é impedir a comercialização de produtos concorrentes. Vecchioli também aponta que a patrocinadora teria pressionado pela realização de um bloco patrocinado em sobreposição ao maior bloco da cidade, na mesma avenida, decisão que contribuiu para a superlotação e os riscos registrados no último fim de semana.
Parlamentares acionaram o Ministério Público pedindo investigação sobre a gestão municipal do carnaval. O vereador Nabil Bonduki (PT) afirmou: “Estou acionando o Ministério Público para que seja realizada, em caráter de urgência, uma reunião entre a Prefeitura, a Polícia Militar e os demais envolvidos na organização do carnaval de rua. Cenas como as de hoje não podem se repetir nos próximos desfiles, informou. “Essa prévia de tragédia não pode se repetir, e é fundamental identificar e responsabilizar quem permitiu que essa situação ocorresse. Interesses comerciais não podem ficar acima da segurança da população”, completou Nabil.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL) e a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) também protocolaram representação no MP-SP, apontando “gestão temerária” na autorização de megablocos simultâneos em um mesmo local, apesar de alertas prévios sobre riscos de superlotação, e criticando o contrato de patrocínio, que teria beneficiado a empresa patrocinadora sem retorno proporcional ao município.
Em nota enviada à coluna de Demétrio Vecchioli, a prefeitura afirmou que realizou “adequações na infraestrutura do Carnaval de Rua para otimizar a operação do evento, sem qualquer prejuízo ao padrão de excelência da festa” e que a quantidade de banheiros químicos foi definida após avaliações técnicas, bloco a bloco, com possibilidade de ampliação conforme a demanda. A gestão municipal também sustenta que o patrocínio privado é fundamental para viabilizar o evento e reduzir custos ao erário.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB), em entrevistas após os episódios de tumulto, classificou o pré-carnaval como “um sucesso” e afirmou que a infraestrutura pública montada foi “perfeita”, minimizando as ocorrências registradas. As declarações contrastam com os dados de redução da infraestrutura e com as críticas de blocos, parlamentares e do Ministério Público, que agora investiga se houve falhas de planejamento, priorização de interesses comerciais e negligência na gestão de um dos maiores eventos populares do país.











