Caso Master: parecer favorável da Rioprevidência foi feito pelo próprio banco

Foto: Banco Master

Auditoria revela falhas na habilitação do Master por regimes próprios de previdência. Autoridades investigam riscos e decisões que expuseram recursos de aposentados
 
Auditoria do Ministério da Previdência Social lançou nova luz sobre um dos episódios mais sensíveis da recente crise que envolve o Banco Master: fundos de pensão públicos credenciaram a instituição financeira com base em documentos praticamente idênticos, que mais se assemelhavam a peças de propaganda do banco do que a pareceres técnicos independentes e robustos.
 
A constatação, descrita por auditores como procedimento de “cópia e cola”, reforça suspeitas de fragilidade institucional, ausência de análise crítica e possível padronização artificial de justificativas para autorizar investimentos bilionários com recursos destinados a aposentadorias e pensões.
 
O achado amplia o desgaste em torno da governança dos regimes próprios de Previdência e coloca sob escrutínio o processo que permitiu ao Master captar volumes expressivos de recursos públicos, mesmo diante de sinais de alerta que agora são investigados por órgãos de controle e pela PF (Polícia Federal).
 
Segundo reportagem publicada, nesta terça-feira (10), a repetição literal de textos em processos distintos sugere que fundos diferentes teriam aprovado operações complexas sem avaliação individualizada de risco, expondo o patrimônio previdenciário de servidores a grau elevado de vulnerabilidade.

AUDITORIA APONTA “COPIA E COLA” NO CREDENCIAMENTO

No relatório de auditoria, técnicos identificaram que pareceres e documentos usados para autorizar o Master em diferentes fundos de previdência de Estados e municípios apresentavam textos praticamente idênticos, alterando apenas os valores envolvidos.
 
Essa uniformidade, segundo os auditores, indica falta de análise técnica individualizada e aprofundada, limitando a capacidade de avaliação de riscos reais antes de que grandes volumes de recursos fossem aplicados nos papéis emitidos pelo banco.
 
A prática, descrita pelos auditores como “copia e cola”, envolveu a repetição dos mesmos termos e justificativas sem incorporar dados ou pareceres que refletissem as características de cada fundo ou cenário econômico.

EXPOSIÇÃO BILIONÁRIA E RISCOS AOS FUNDOS

O caso ganha ainda mais relevância porque o Rioprevidência, fundo de pensão do Estado do Rio de Janeiro, foi um dos maiores investidores em Letras Financeiras do Master – cerca de R$ 970 milhões entre novembro de 2023 e julho de 2024, durante a gestão de Deivis Marcon Antunes, nomeado pelo governador Cláudio Castro -, segundo a PF, que investiga supostas irregularidades nos aportes.
 
A crise do banco resultou na liquidação da instituição pelo Banco Central no fim de 2025, após constatação de grave crise de liquidez e práticas irregulares, como emissão de títulos que supostamente inflavam o balanço da instituição.
 
Além do Rioprevidência, levantamentos extraoficiais mostram que vários fundos de Previdência municipais e Estaduais juntos podem ter mais de R$ 1,7 bilhão aplicados em títulos do Master, em operações que agora são objeto de auditorias mais amplas pelos órgãos de controle.

SUSPEITAS, AUDITORIAS E INVESTIGAÇÕES EM CURSO

Frente a esse contexto, a Polícia Federal deflagrou a Operação Barco de Papel, com a qual já cumpriu mandados de busca e apreensão e prendeu o ex-presidente da Rioprevidência por suspeitas que incluem gestão fraudulenta, desvio de recursos e indução ao erro de órgãos públicos e investidores.
 
A auditoria do Ministério da Previdência não se limita ao caso do Rio: outros fundos que habilitaram o Master para receber recursos estão sendo avaliados quanto à conformidade de seus procedimentos, diante da possibilidade de que documentos idênticos tenham sido reaproveitados sem avaliações técnicas específicas para cada fundo.

GOVERNANÇA EM XEQUE E PRESSÃO POR TRANSPARÊNCIA

Especialistas em Previdência e órgãos de fiscalização afirmam que a identificação desses padrões homogêneos nos pareceres é sinal de governança deficiente.
 
Mais, na visão desses técnicos, a ausência de controles internos robustos e de análise crítica adaptada a cada fundo pode ter contribuído para a exposição excessiva de recursos públicos a riscos sistêmicos, especialmente em títulos não cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
 
O episódio também reacende debates sobre a necessidade de regras mais rígidas de diligência e supervisão dos fundos de pensão, de forma a evitar repetições de práticas que podem comprometer a segurança dos investimentos de aposentados e pensionistas.

REAÇÕES DAS INSTITUIÇÕES ENVOLVIDAS

Até o momento, fundos como o Rioprevidência negam irregularidades nos investimentos e afirmam que as aplicações seguiram normas vigentes à época, ressaltando que o pagamento de aposentadorias e pensões estaria garantido.
 
Ainda assim, a descoberta de documentos idênticos usados em diferentes processos de credenciamento levanta questões sobre a profundidade das análises realizadas e coloca em foco a necessidade de revisões institucionais para fortalecer a proteção de recursos previdenciários públicos.

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