Ismael Silva, a escola de samba e outras bossas

Ismael Silva (foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã)


IRAPUAN SANTOS


O presente texto nasceu originalmente como sinopse para orientação dos compositores do Bloco Carnavalesco Cabaré dos Libertos de Niterói que decidiu no carnaval de 2026 homenagear o niteroiense Ismael Silva, celebrando os 120 anos do seu nascimento, com o tema “ISMAEL SILVA 120 ANOS: de Jurujuba ao Estácio – O mestre do samba”.


Diante da importância do homenageado e de como sua atuação ao lado de outros grandes sambistas demarcou o futuro do samba brasileiro e a evolução das escolas de samba achamos que era importante desenvolvê-lo agregando ao texto informações relevantes.

A enseada dos “louros falantes”, em Niterói, significado de Jurujuba em tupi-guarani, como os indígenas chamavam os franceses que por lá viviam, ficou famosa pela pesca, pela tradicional Festa de São Pedro e seu pitoresco desfile marítimo. Mas, também, é relevante para a cultura nacional. Em 1905, se tornaria o berço natal de Ismael Silva, a maior referência do samba brasileiro.

Muito cedo a vida o levou a descortinar o mundo e deixar para trás a bucólica Jurujuba. Aos 3 anos de Idade, órfão do pai, o cozinheiro Benjamin da Silva, muda-se de Niterói com a mãe, Emília Chaves, e 4 irmãos, para o Rio de Janeiro, onde residirá no Estácio, Rio Comprido e Catumbi, onde ao final dos anos 50 nasceria o icônico Bafo da Onça.

Ismael foi um brasileiro que transformou sua ânsia de aprender em arte, que devolveu ao Brasil em forma de poesia, filosofia e samba.

Aos 7 anos de idade, um menino preto, raquítico, mal ajambrado, interrompeu a aula de uma Escola no Estácio e, para a surpresa dos professores, não tinha ido lá para pedir comida, ajuda ou esmola. Foi reivindicar sua matricula, pois queria estudar. Este menino era Ismael Silva, que se transformaria no melhor aluno da escola.

Talento nato, aos 10 anos de idade já frequentava os encontros dos sambistas no bairro do Estácio, onde foi desenvolvendo sua paixão pela música. Já que não teve antecessores músicos na família, sua escola de música foram os encontros em bares como o Café e Bar Apolo e as rodas de samba nas esquinas, que acompanhava munido de pandeiro, seu primeiro instrumento. Compôs seu primeiro samba, “Já desisti”, aos 15 anos, nunca gravado.

A ESCOLA DE SAMBA

Muito lúcido em suas entrevistas, Ismael associa a evolução do carnaval, o nascimento da escola de samba, o desenvolvimento da arte popular a fatos concretos como locais, datas, pessoas, músicas, bossas e fatos históricos.

É fato reconhecido que no Estácio, ao final dos anos 20, houve uma geração de compositores e ritmistas liderada por Ismael Silva e integrada por Nilton Bastos, Baiaco, Bide, Marçal, Brancura, Mano Edgar, Mano Rubens e outros, que passou a tocar um samba diferente, mais batucado, livre da influência do maxixe, e mais apropriado ao desfile em cortejo, como os ranchos. Para esse andamento do novo samba contribuíram o surdo de marcação introduzido pelo também niteroiense Alcebíades Barcelos, o Bide, e a cuíca trazida por João Mina.

Vamos ler o que diz o próprio Ismael Silva:

“Fui eu que comecei com esse ritmo. […] No carnaval, o grupo que saía na rua precisava de uma música que facilitasse isso. Precisava andar, mas andar dentro da música. Andar com espalhafato, com vida, assim conforme se vê hoje em dia, e aquele ritmo (antigo) não deixava.’ Depoimento prestado ao MIS do Rio de Janeiro, em 16/07/1969.” (p. 119. Uma história da música popular brasileira)

No livro “As Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sérgio Cabral, Ismael Silva, entrevistado pelo autor, tenta ilustrar a diferença de sonoridade e andamento entre o samba antigo e o samba da Turma do Estácio:

“O samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava, aí a gente começou a fazer o samba assim: bum bum paticumbum prucurundum…” (p.119, idem, ibidem)

Segundo Ismael, as batalhas de confete pré-carnavalescas realizadas na Praça Xl reuniam grupamentos da Portela, Salgueiro e Mangueira. Estes grupos ficaram incomodados de alguma maneira com o estilo do Estácio. Então o grupo do Estácio criou a expressão “Deixa Falar”, em resposta. E agregaram o seguinte argumento: como havia no Estácio a Escola Normal, que depois daria origem ao Instituto de Educação, hoje na Rua Mariz e Barros, responderam aos outros grupamentos que o Estácio era a Escola de Samba porque lá os professores e os bambas do Estácio desfilavam, portanto, eram professores de Samba. Deste modo, em 1929, a primeira escola de samba desfilou com o nome de “Deixa Falar”, em cortejo acompanhado da força pública, o que mudou o status da festa popular. Assim surgiu o termo “escola de samba” para designação de algo que se transformaria no grande fenômeno do carnaval brasileiro.

ÉPOCA DE OURO DA MÚSICA BRASILEIRA

Após a gravação do primeiro samba em 1917, era inevitável que este gênero se desvencilhasse do ritmo do maxixe e assumisse forma, conteúdo próprio e ritmo inequívoco. Isso será desenvolvido nos anos 20 e se consolidará na fase chamada de Época de Ouro da Música Brasileira, quando será amplamente predominante.

“A música popular brasileira tem sua primeira grande fase no período 1929/1945. É a chamada Época de Ouro, em que se profissionaliza, vive uma de suas etapas mais férteis e estabelece padrões que vigorarão pelo resto do século.

A Época de Ouro originou-se da conjunção de três fatores: a renovação musical iniciada no período anterior com a criação do samba, da marchinha e outros gêneros; a chegada ao Brasil do rádio, da gravação eletromagnética do som e do cinema falado; e, principalmente, a feliz coincidência do aparecimento de um considerável número de artistas talentosos numa mesma geração. Foi a necessidade de preenchimento dos quadros das diversas rádios e gravadoras surgidas na ocasião que propiciou o aproveitamento desses talentos.” (p. 85 – A canção no tempo, V. 1).

Estes artistas talentosos são os compositores Ari Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, João de Barro, Jouber de Carvalho, Assis Valente, Vadico, Ismael Silva, Alcebíades Barcelos, Armando Marçal, Antônio Nássara, Orestes Barbosa e Alberto Ribeiro.

Coube à chamada Turma do Estácio o papel precursor de plasmar o formato de samba que iria explodir na Época de Ouro. O samba ocupou entre 1931 e 1940.em torno de 32,45% do repertório registrado em disco (2176 sambas num total de 6706 composições).

O samba “Se você jurar”, de Ismael Silva e Nilton Bastos, foi o grande sucesso do carnaval de 1931. Ele se tornaria o principal modelo dos sambas dos anos 30. O samba é composto da primeira parte em tom maior e a segunda e terceiras partes em tom menor. É interessante notar que no retorno da 2ª. e 3ª. partes para a primeira foi adotado uma sequência em que são duas “preparações” (V# / V) criando um certo suspense para o retorno a primeira parte, bossa incomum naquela época. O tema é totalmente urbano (afinal trata-se de uma reflexão sobre deixar ou não a orgia) deixando para trás os temas rurais do samba amaxixado. Além do que, é composto em 3 partes, o que significa um passo à frente com relação aos sambas das escolas de samba da época, que tinham apenas um estribilho como base para o improviso dos versadores nos desfiles.

Mas, não foi um caminho fácil para Ismael Silva e seus companheiros. Havia uma grande demanda por novidades por parte das gravadoras e rádio. Para terem seu trabalho divulgado e para sobreviverem os compositores pobres foram levados a vender o seu trabalho para quem tinha acesso aos meios radiofônicos. Foi o caso do acordo feito entre Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, onde este pagava aos primeiros para entrar na parceria do samba e gravava a obra. Com o falecimento prematuro de Nilton Bastos, o acordo passou a ser entre Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves.

Graças a este “malabarismo”, no ano de 1931 foram gravadas com sucesso três composições de Ismael Silva: “Se você jurar”, samba/carnaval ( Ismael Silva, Nilton Bastos, Francisco Alves); “Nem é bom falar”, samba (Ismael Silva, Nilton Bastos, Francisco Alves); “O que será de mim”, samba (Ismael Silva, Nilton Bastos, Francisco Alves).

Em 1932 Ismael tem seis composições gravadas entre os sucessos daquele ano: “Adeus”, samba (Ismael Silva, Noel Rosa, Francisco Alves); “Gosto mas não é muito”, marcha/carnaval (Ismael Silva, Francisco Alves); “Uma jura que fiz”, samba (Ismael Silva, Noel Rosa, Francisco Alves); “A razão dá-se a quem tem”, samba (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves); “Sofrer é da vida”, samba/carnaval (Ismael Silva e Francisco Alves); “Tristezas não pagam dívidas” (Ismael Silva).

Os caminhos para o aproveitamento e a valorização dos compositores de extração popular somente seriam abertos mais tarde, através da presença do Estado, quando é criada a Rádio Nacional, em 1936, que abre as portas a compositores, cantores e músicos brasileiros.

Ismael Silva foi um compositor de melodias inspiradas e letras que iam desde à celebração da orgia, à ironia, ao amor, às tiradas filosóficas, sempre baseadas em sua profunda capacidade de refletir sobre a vida e de perspicaz observador do cotidiano. Qualidades que levaram Chico Buarque de Holanda a reconhecer nele a sua principal influência no samba brasileiro e Vinicius de Moraes a exaltá-lo como um dos três maiores sambistas de todos os tempos.

“Se você jurar”, “Antonico”, “Contrastes”, “Nem é bom falar”, “Adeus”, “Tristezas não pagam dívidas”, “Sofrer é da vida”, são exemplos. Ao lado de Noel Rosa compôs 18 músicas onde se destacam a hilariante “Seu Jacinto”, numa crítica mordaz aos novos ricos da época, e “Não têm tradução”, afirmando, dentre outras coisas, que “tudo aquilo que o malandro pronuncia / com voz macia/ é brasileiro já passou de português”.

Ismael Silva nos deixou aos 72 anos. O JB registrou da seguinte forma o seu falecimento: …”Fundador da primeira escola de samba – a Deixa Falar, do Estácio – mais de 50 anos de carreira artística, Cidadão Carioca, duas vezes Cidadão Samba, um amor sem limites pela vida e a eterna esperança de viver marcaram a imagem de Ismael ‘ (JB, 15/03/78).

Ismael recebeu muitas homenagens, e teve ruas batizadas com seu nome em vários Estados do Brasil num reconhecimento à sua grande contribuição ao samba brasileiro e à cultura nacional.

Niterói, 15/02/2025

* Irapuan Santos é presidente do Congresso Nacional Afro-brasileiro – CNAB.

FONTES CONSULTADAS:

MEDEIROS, L. Antonio. Ismael Silva: Samba e resistência. Rio de Janeiro. José Olympio. 1980

SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras. Vol. 1. 1901-1957. 3ª. Edição. São Paulo, SP 1998.. Editora 34.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira. 4ª. Edição. São Paulo. 2017

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