Enquanto a mídia se distrai com irrelevâncias promovidas ao status de espetáculo, o Brasil profundo e transformador segue pulsando dentro dos laboratórios das universidades públicas, onde mulheres como a professora da UFRJ fazem história
MARCOS VERLAINE (*)
A mulher brasileira que deveria ocupar o centro do debate nacional. É disso que se quer falar ou escrever. O Brasil vive paradoxo inquietante. De um lado, a chamada “indústria da atenção” promove figuras descartáveis, celebridades instantâneas e polêmicas vazias que monopolizam manchetes.
De outro, mulheres extraordinárias, responsáveis por avanços científicos que podem mudar o destino da humanidade, permanecem quase invisíveis. Até que o mundo as descubra.
É o caso da professora doutora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio, pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), cujo trabalho de mais de 25 anos abriu uma das fronteiras mais promissoras da medicina regenerativa: a possibilidade concreta de recuperação de movimentos em pacientes com lesões graves na medula espinhal.
A professora Tatiana não é apenas cientista. Ela é símbolo do Brasil que importa.
POLILAMININA: QUANDO A CIÊNCIA SE TRANSFORMA EM ESPERANÇA
Tatiana ganhou destaque internacional pelo desenvolvimento da polilaminina, estrutura derivada da proteína laminina, encontrada na placenta humana, capaz de atuar como espécie de ponte biológica entre neurônios danificados.
Em linguagem simples: trata-se de descoberta que pode permitir que conexões nervosas interrompidas sejam reconstruídas.
Os resultados preliminares, ainda em fase experimental, apontam para recuperações parciais — e em alguns casos surpreendentes — de movimentos e sensibilidade em pacientes com paraplegia e tetraplegia.
É um avanço que, se confirmado em etapas clínicas mais amplas, pode redefinir o tratamento da paralisia no mundo.
E tudo isso nasceu onde? Na universidade pública. Na UFRJ.
UNIVERSIDADE PÚBLICA COMO PATRIMÔNIO CIVILIZATÓRIO
Tatiana formou-se inteiramente na UFRJ — graduação, mestrado, doutorado — e hoje chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas.
O percurso dela desmonta mentira repetida à exaustão: a de que a universidade pública é lugar de desperdício, doutrinação ou inutilidade.
Não. A universidade pública é onde se produz ciência. É onde se formam pesquisadores. É onde se constrói a soberania nacional.
Sem a universidade pública, o Brasil não avança. Retrocede! Gravemente.
BOLSONARISMO E SATANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
É impossível ignorar o contexto político que cerca essa discussão.
A extrema-direita brasileira, especialmente o bolsonarismo, construiu nos últimos anos narrativa sistemática de ódio à educação pública.
Universidades foram tratadas como inimigas, centros de “balbúrdia”, espaços suspeitos.
Esse discurso não é apenas ignorante. É profundamente perigoso.
Porque alimenta preconceitos, destrói políticas científicas, sabota investimentos em pesquisa e transforma o conhecimento em alvo de guerra cultural.
O resultado é um País que hesita entre a ciência e o obscurantismo.
Tatiana Sampaio é a prova viva de que o obscurantismo sempre perde.
BRASIL REAL NÃO ESTÁ NO “ESPETÁCULO”. ESTÁ NO LABORATÓRIO
Em fevereiro de 2026, o nome da professora Tatiana circula com força nas redes e na imprensa, impulsionado por casos experimentais de sucesso e pela parceria com o laboratório Cristália, enquanto aguarda etapas regulatórias da Anvisa.
O trabalho dela já é associado às discussões sobre possível Nobel de Medicina.
Mas a pergunta incômoda permanece:
Por que só celebramos nossos cientistas quando o mundo nos obriga a olhar?
Por que damos tanto espaço ao irrelevante e tão pouco ao essencial?
RECONHECER TATIANA É DEFENDER O FUTURO
Valorizar a professora Tatiana Sampaio é mais do que aplaudir pesquisadora brilhante.
É defender:
• a universidade pública;
• a ciência brasileira;
• a educação como projeto nacional;
• a soberania do País; e
• a esperança de milhões de pessoas.
O Brasil que presta não está no barulho das redes, nem na vulgaridade das manchetes fáceis.
O Brasil que presta está em mulheres, como a professora da UFRJ Tatiana Sampaio.
Silenciosas, persistentes, científicas.
E absolutamente indispensáveis.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP











