A declaração acima é de Al Sharpton – destacado ativista nas campanhas que o uniu a Martin Luther King e Jesse Jackson – quando soube do falecimento do líder da luta contra o racismo e a segregação nos EUA
O reverendo Jesse Jackson, companheiro de Martin Luther King na luta pelo fim do apartheid nos EUA e o primeiro negro a alcançar 3,3 milhões de votos na pré-candidatura a presidente do país, faleceu nesta terça-feira (17) aos 84 anos, anunciou em um comunicado sua família.
“Sua fé inabalável na justiça, na igualdade e no amor inspirou milhões de pessoas, e pedimos que honrem sua memória continuando a luta pelos valores pelos quais ele viveu”, declarou sua família.

“Seu compromisso inabalável com a justiça, a igualdade e os direitos humanos ajudou a moldar um movimento global por liberdade e dignidade. Incansável agente de transformação, ele deu voz aos que não eram ouvidos — desde sua campanha presidencial nos anos 1980 até a mobilização de milhões de pessoas para se registrarem para votar, deixando uma marca indelével na história”.
Jackson estava ao lado de King em Memphis, em 1968, no momento em que o líder foi assassinado, e já era então uma das principais lideranças da Conferência de Liderança Cristã do Sul. Jovem, ele participou da histórica Marcha de Selma a Montogmery no Alabama, e rapidamente se tornou um orador respeitado.
E, após o assassinato de King, seguiu sendo uma referência para todos os lutadores contra o racismo e a segregação. Nos anos de ascensão do reaganismo, Jackson se tornou uma figura chave na luta contra a política neoliberal e a desigualdade que desencadeava, e foi nessa condição que ele acabaria apresentando sua pré-candidatura à presidência em 1984 e 1988, com uma agenda progressista e chamando a unir os americanos sob uma “base comum”.
Em 1984, Jackson conquistou 3,3 milhões de votos nas primárias democratas. Em sua segunda tentativa, em 1988, ele venceu 11 primárias estaduais, consolidando-se como um candidato de peso, ficando atrás apenas de Michael Dukakis, pondo em xeque a percepção de que um negro não poderia ser um candidato viável à presidência.

“Meus eleitores são os desesperados, os condenados, os deserdados, os ignorados, os desprezados”, declarou o pastor na convenção democrata de 1984.
Nessa caminhada fundou a Operação PUSH em 1971 e a National Rainbow (Arco-Íris) Coalition em 1983. Sobre Jackson, outro agora veterano da luta contra o racismo nos EUA, o reverendo Al Sharpton, que o tem como um “professor e mentor constante em sua vida”, disse que ele “carregou a história em seus passos e a esperança em sua voz”.
“Ele manteve o sonho vivo e ensinou a crianças de lares desfeitos, como eu, que não temos espíritos quebrados. Ele nos disse que éramos alguém e nos fez acreditar. Sempre vou valorizar o fato de ele ter me acolhido e sempre tentarei fazer a minha parte para manter a esperança viva”, escreveu ele. “Um gigante se foi.”

Jackson sofria de mal de Parkinson desde 2017, o que não o impediu de, em 2021, estar ao lado da família de George Floyd quando do veredicto histórico que declarou culpado o policial branco Derek Chauvin pela morte do afro-americano. “A luta pela igualdade é um longo combate neste país”, ele disse então.
Assim como havia sido visto chorando, em silêncio, 24 anos após ousar ser um pré-candidato negro, entre a multidão que em 2008 celebrava a vitória de Barack Obama – que trazia tantas esperanças, afinal desfeitas pela adesão dele à salvação preferencial de Wall Street.
Sua voz também se levantou contra o apartheid na África do Sul nos anos 1980, em um momento em que o governo Reagan seguia sustentando o regime racista e quando era essencial seu isolamento de forma irreparável, quando Nelson Mandela estava no cárcere.
Menos conhecida é sua atuação como um combatente pela causa da paz, participando desde as manifestações na Europa contra a loucura nuclear desencadeada pelo governo Reagan, até negociações em momentos críticos, como no Iraque e na Iugoslávia. Em 2005, contra a política oficial de Washington, esteve com o líder venezuelano Hugo Chávez e, em 2013, fez questão de comparecer ao seu funeral.
O filho mais velho do Dr. King, Martin Luther King III, e sua esposa, Andrea, homenagearam Jackson como “uma voz imponente e um devotado defensor da justiça”.
“O Reverendo Jackson foi mais do que um defensor dos direitos civis — ele foi uma ponte viva entre gerações, dando continuidade ao trabalho inacabado e à promessa sagrada do Movimento dos Direitos Civis”, disse o casal em um comunicado.
“Ele caminhou com coragem quando a estrada era incerta, falou com convicção quando a verdade era inconveniente e se posicionou ao lado dos pobres, dos marginalizados e dos esquecidos quando isso não era popular”, finaliza a declaração.











