Moradores, comerciantes e ativistas realizaram no sábado (14) mais uma mobilização em Rio Grande da Serra contra as obras de transposição do Rio Pequeno, projeto ligado à Sabesp que prevê transferir água da Represa Billings para a Represa de Taiaçupeba, em Mogi das Cruzes, e que tem sido alvo de críticas por avançar, segundo manifestantes, sem estudos ambientais obrigatórios e sem debate público.
O ato percorreu ruas da cidade em clima carnavalesco, com direito a marchinha criada especialmente para o protesto, enquanto participantes distribuíam panfletos e dialogavam com moradores e comerciantes. A obra já possui frentes iniciadas perto do ABC, em Suzano, mas o movimento afirma que não houve audiências públicas e que não existe EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto de Meio Ambiente), o que, na avaliação deles, impediria a execução.
Além da contestação legal, a crítica central envolve impactos urbanos e ambientais. Integrantes do movimento afirmam que a intervenção pode isolar bairros inteiros durante meses, sobrecarregar ruas estreitas e comprometer nascentes responsáveis por abastecer a represa que fornece água ao ABC. A preocupação é que a infraestrutura local não suporte canteiros de obras de grande porte nem o fluxo intenso de caminhões e máquinas pesadas.
O engenheiro civil e ex-presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Rio Grande da Serra, Amaury Monteiro Júnior, avaliou a mobilização como positiva para ampliar a conscientização. “Fizemos uma boa panfletagem, conversamos com os comerciantes e também com o pessoal do Parque América que é um bairro importante da cidade. As pessoas estão entendendo que essa obra vai destruir a cidade além de acabar com a água que é produzida aqui. Estão entendendo que essa obra vai afetar todos nós em Rio Grande da Serra e também o abastecimento de toda a região”, afirmou.
Segundo ele, o projeto exigirá estruturas incompatíveis com a malha viária local. As ruas teriam cerca de quatro metros de largura, mas a instalação dos canos — com 1,80 metro de altura — exigiria pelo menos 12 metros de espaço. Para viabilizar a passagem da tubulação, vegetação e nascentes ao longo do trajeto seriam removidas pelas máquinas.
Monteiro Júnior também apontou possíveis irregularidades no processo ambiental. “Não fizeram o EIA-Rima, não há um levantamento das nascentes, porque, pela lei a obra tem que ficar distante pelo menos 50 metros delas, mas na Estrada do Caracu, elas ficam junto à pista, onde vão abrir a vala para instalar a tubulação. Por isso eu vejo que é correta a postura da prefeitura de, enquanto a Sabesp não tiver o EIA-RIMA, de não autorizar a obra, mas depois que tiveram não tem como segurar, por isso o nosso papel enquanto sociedade civil organizada é barrar esse processo de licenciamento da obra que tem apenas uma autorização de estudos e não para execução”, declarou.
Outro ponto levantado pelo engenheiro é o risco de bloqueio total de circulação em determinados trechos. Segundo ele, existem vias onde é possível percorrer até dois quilômetros sem nenhuma travessa. “Como as pessoas vão sair para o trabalho, como as crianças vão para a escola e se alguém precisar de socorro, a ambulância chega como?”, questionou.
A estimativa é de mais de 40 mil viagens de caminhão para movimentar 370 mil metros cúbicos de terra, o que, além do impacto ambiental, poderia afetar imóveis e equipamentos públicos. O tema foi discutido nesta semana em reunião do Consórcio Intermunicipal e já existem representações protocoladas no Ministério Público, ainda sem decisão. “Esse é um problema que atinge diretamente Rio Grande da Serra, mas indiretamente todo o abastecimento de água do ABC e outras cidades”, acrescentou.











