“Essa lógica contratual, quando tratada com atores privados, que só visam ao lucro, leva ao direcionamento dos investimentos para soluções paliativas, tornando o modelo uma bomba-relógio”
Em entrevista ao HP, Eduardo Annunciato (o Chicão), presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo fez um breve e estarrecedor balanço da privatização do setor elétrico. “Acidentes e apagões acontecem com frequência porque o modelo de privatização eliminou praticamente a manutenção preventiva”, afirma.
Há 38 anos como eletricitário, está convencido de que “a privatização no setor elétrico fracassou e que a tendência nos países desenvolvidos é pela reestatização”. A seguir, a entrevista:
HP – Como está a manutenção da rede elétrica em SP?
Chicão – Está muito carente. Não tem manutenção preventiva permanentemente, com técnicos percorrendo os circuitos em inspeção visual e equipes de eletricistas focadas na substituição e reparo dos equipamentos permanentemente.
As empresas do setor de distribuição têm a missão de entregar a energia ao consumidor final, de manter as redes de energia ligadas, seja com sol, chuva, frio ou vento.
HP – Por que isso não é priorizado?
Chicão – A resposta está no modelo que adotaram nas privatizações, que não remunera, nas tarifas, o investimento de recursos financeiros na manutenção corretiva e preventiva da rede.
Essa lógica contratual, quando tratada com atores privados, que só visam ao lucro, leva ao direcionamento dos investimentos para soluções paliativas, tornando o modelo uma bomba-relógio.
HP – É por isso que tem tanto apagão em São Paulo?
Chicão – Apagão para o povo e trabalhadores, mas os lucros são assegurados. Manutenção não influencia nada nos resultados das empresas, por isso não é priorizada.
Em vez de reconhecerem que o atual modelo do setor está fracassado, é mais fácil transformar a ENEL “na Geni” do que assumir a responsabilidade política. O medo dos mandatários de enfrentar o tema demonstra suas fraquezas.
Veja, por exemplo, a recomendação de caducidade da ENEL (feita por pressão do governo federal, impulsionada por graves falhas na prestação de serviços, especialmente o apagão 2025) se dá no final da concessão, num ano eleitoral, com a rede fragilizada.
HP – Então o setor elétrico tem que ser estatal?
Chicão – Eu vivi o cenário estatal e também o privado. No Estatal, o foco está nas pessoas e na entrega do serviço. No privado, está no lucro a todo custo, inclusive com medidas irresponsáveis. E não estou falando só da Eletropaulo. Isso ocorre em todo segmento privatizado no Brasil.
Com a experiência de 38 anos no setor, posso afirmar que ficaria mais barato para a população o mesmo serviço e a qualidade voltaria. Além do valor da conta de consumo, você não ficava mais de 6 horas no escuro em uma chuva, por mais intensa que fosse.
O setor privado, para entregar alguma qualidade, gera tarifas verdadeiramente extorsivas.
HP – Por que os últimos governos de partidos diferentes ou privatizaram o setor elétrico, ou mantiveram a privatização?
Chicão – Terceirizam sua responsabilidade. Outros simplesmente por covardia. A maioria está alinhada com o mercado que sangra a população através das tarifas exorbitantes. Esses defendem a privatização para estimular a especulação por meio de serviços públicos. Digo, então, por covardia, irresponsabilidade e submissão à Faria Lima, à especulação às custas do povo. Falta vontade política para tomar de volta os serviços públicos para gestão do Estado.
HP – Não é um problema do modelo da privatização?
Chicão – O modelo foi formatado para garantir os ganhos do setor privado e pouco para a população. É um modelo falido no nascedouro. Nós denunciamos desde sua origem, mas o esquema já estava fechado, com apoios dos especuladores do setor. Nada diferente de hoje. Veja como a falta d’água aumentou com as privatizações da Sabesp, em São Paulo e da CEDAE, no Rio de Janeiro. Veja o escândalo da venda da Eletrobras. O modus operandi do mercado continua fluindo…
HP – Como foi a privatização para o eletricitário?
Chicão – Um terror, literalmente: perda de empregos e de know-how. Perda de consciência de classe com a fragmentação, de uma forma absurda, do setor. Em 1989, o sindicato, sob direção do presidente Magri, negociava acordos coletivos com menos de 10 empresas. Hoje são mais de 400. O mercado especulativo repartiu o bolo entre seus agentes e agora cria qualquer narrativa para assegurar seus polpudos lucros em detrimento da população e dos trabalhadores, afetados pelo sistema.
HP – O que o sindicato fez de mais importante neste período?
Chicão – Resistimos, denunciamos e formamos massa crítica, agora estamos preparados para enfrentar o debate da reestatização e, caso a correlação de forças não permita, estamos prontos para contribuir para um modelo menos danoso aos trabalhadores e à população consumidora de serviços essenciais.
HP – Qual é a experiência internacional nesse setor?
Chicão – Na maioria dos países, o estado tem autonomia para intervir e corrigir imperfeições do modelo aplicado. Na Europa, a tendência é a reestatização, para o maior controle estatal sobre a transição energética e devido à má qualidade dos serviços.
Aqui, politizaram a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) cada vez mais, desde sua origem. Ao longo da sua história, as decisões foram com olhar de mercado e não para proteger o interesse público.
CARLOS PEREIRA











